Aprendi na Igreja: Oferecer a outra face

Quando eu era criança, minha mãe costumava ler para mim antes de dormir. Nada diferente do que outras mães fazem com outras crianças, a não ser pelo fato de que na grande maioria das vezes Branca de Neve era trocada por Davi e Golias e Cinderela por Jonas e a Baleia. Família cristã, educação cristã.

Desde cedo aprendi a orar antes de dormir e de comer, a cantar hinos de adoração e a achar versículos na Bíblia. Nosso Natal era centrado no nascimento do Cristo, os desenhos que eu e minhas primas costumávamos assistir eram cristãos e até nosso “parabéns pra você” tinha (ainda tem) uma adaptação com relação ao tradicional. É difícil para uma pessoa criada em um ambiente assim pensar fora do padrão cristão, mas não impossível.

Eu sempre tive opinião pra tudo. Ou achava que tinha. O importante não era falar e mostrar que eu entendia do que estava sendo discutido, mas mostrar pra mim mesma que eu sabia tanto quanto os outros. Muitas vezes, enquanto os adultos discutiam assuntos de adultos, eu ficava quieta no meu canto, pensando em tudo que eu diria se houvesse espaço pra uma criança falar alguma coisa sobre aquilo. E era muito convincente comigo mesma, ás vezes me colocava em posição contrário a tudo que estava sendo dito por aqueles seres evoluídos que sabiam tudo e mandavam em tudo, só pra ver se meus argumentos eram bons.

Acontece que dentro de religiões existem assuntos proibidos. Não proibidos de serem ditos, proibidos de serem contrariados. O tal do dogma religioso. Só aprendi esse termo na escola, e na hora em que entendi o que ele representava consegui pensar em alguns muitos exemplos. Mas só por alguns segundos, porque Deus estava vigiando. Foram anos defendendo ideias que eu não entendia, mas eram a verdade. Anos atacando pessoas que eu não conhecia, mas que eram pecadores. Anos impedindo a mim mesma de pensar sobre alguns assuntos e ver até que ponto eu concordava, apenas porque Deus estava vigiando. Esses tópicos específicos que estavam proibidos para minha avaliação e opinião pessoal foram colocados de lado por bastante tempo. Falava quando tinha que falar. Não gostava de pensar porque me incomodava muito essa história de que “isso não se discute, é lei sagrada”.

Um dia, estava lendo reportagens e achei um link sobre uma escritora moçambicana, Paulina Chiziane, cujo título era “Nós temos medo do Brasil”

“O título acima foi recolhido de uma resposta dada pela escritora moçambicana Paulina Chiziane, que esteve recentemente em Brasília, quando da realização da I Bienal Brasil do Livro e Leitura (…).  A resposta referia-se a pergunta feita por mim, tanto a ela quanto ao escritor angolano Ondjaki, que participavam da mesa de debate sobre a Literatura Africana Contemporânea, sobre qual a era a percepção que eles, enquanto africanos, possuíam, da imagem do Brasil no continente africano, hoje.
Inicialmente fiquei surpreso com a objetividade e veemência da resposta. Como se diz no popular, uma resposta curta e grossa. Mas ela foi adiante e disse: ‘No século XV os europeus chegaram em África com a espada em uma mão e a bíblia na outra, para nos colonizar. Hoje, os brasileiros chegam com a bíblia e suas igrejas destruindo nossas tradições, levando o medo e o desassossego ao nosso povo e querendo nos ensinar quem é Deus!’. Duro de ouvir, difícil de admitir, mas é a pura verdade.” ¹

O pouco que eu conheço sobre questões missionárias me veio à mente após ler esse texto. Evangélicos sempre ficam na defensiva nesses casos, tentam achar uma maneira de se justificar. Mas a verdade é que a grande maioria dos missionários que vão ao continente africano dão uma atenção maior à religiosidade do que aos problemas gritantes que rodeiam a vida daqueles que também são nossos irmãos. Não tinha me passado pela cabeça até então por que é que essa gente não vai pra lá simplesmente para ajudar? Por que é que o “trabalho voluntário” não é suficiente e eles tem que converter as pessoas a todo custo, abrir uma igreja e fazer quebra de maldição?

Eu, orgulhosa na luta por igualdade racial, me vi diante de uma questão delicada. De um lado, minha criação cristã e a pregação quase que semanal de que outras religiões não adoravam ao “deus verdadeiro” (como cristãos não admitem a existência de outro deus, as divindades de religiões não cristãs sempre eram apresentados como o Diabo e seus demônios). Do outro, meu anseio por igualdade racial e respeito à cultura que faz parte da minha história, aliada à vergonha de admitir que aquilo que foi dito pela entrevistada era a mais pura verdade. Não foi a primeira vez que me vi diante deste dilema, mas foi a primeira vez que eu decidi não fugir dele. Pensei, pesquisei, orei e fiquei nessa situação por um tempo. Até que um dia eu parei de lutar. Existia uma resposta óbvia para aquela questão, eu só evitei chegar nela porque eu simplesmente não queria bater de frente com os assuntos proibidos.

Igreja e religião nunca salvaram ninguém. Não importa o que os “escolhidos de Deus” pregassem, eu sempre soube que entre um crente que espanca a esposa e um pai de santo que luta contra o machismo, Deus iria “preferir” o segundo. Então, qual o motivo para todo aquele ataque gratuito às outras religiões? Até então, eu acreditava que o espiritismo, por exemplo, cultuava demônios. Mas como eu poderia afirmar que isso era a verdade se eu nunca tivera contato com a religião em questão? Falar mal de algo que eu não conhecia, naquela época, eu já considerava como preconceito. Foi então que eu me dei conta de que estava simplesmente reproduzindo coisas que algumas pessoas haviam jogado na minha cara, e me obrigado a engolir. Eu percebi que foi muito cedo que me ensinaram a ter repulsa por todo tipo de religião, incluindo as afro brasileiras, e que eu reproduzi esse discurso racista por anos. Eu, uma mulher negra, orgulhosa da minha cor, com um desejo ardente de ver igualdade racial e de acabar com qualquer discurso segregacionista, também tinha o meu lado racista e intolerante. Então eu vi: eu fazia parte da massa cristã que colaborava com a destruição da cultura africana e dava motivos para que Chiziane afirmasse ter medo da intolerância brasileira.

Não foram só as escamas que caíram dos meus olhos para me devolver a visão. Aquilo tudo foi um tapa bem dado na minha face direita. Mas se levar um tapa significava abrir minha mente e me livrar do preconceito, eu estava pronta para oferecer o outro lado.

OBS: Esta foi minha primeira vez. Parece besteira, mas é preciso muita coragem para questionar certas posicionamentos cristãos. Este é o primeiro de uma série de textos que eu pretendo publicar sobre as influências religiosas que eu sofri ao longo da vida, como identifiquei a negatividade, incoerência e/ou preconceito em algumas delas e como está sendo minha jornada para reparar erros e mudar atitudes causados por essas ideias destrutivas, que muitas igrejas insistem em pregar como divinas. Quem quiser pode acompanhar na categoria “Aprendi na igreja”. Até a próxima!

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