Aprendi na Igreja: Não defraudarás

Eu devia ter uns 15 anos e estava em um culto de sábado. Cultos de sábados geralmente são direcionados para os jovens da igreja, são mais animados, a galera pula e dança durante o louvor inteiro, a linguagem usada é mais atual e sempre tem umas carinhas novas querendo conhecer “aquela igreja que toca rock, reggae e rap”. Enfim, cultos de sábado estão sempre cheios de gente nova, jovem e curiosa.

A programação estava ocorrendo normalmente até que uma das pastoras pediu licença e disse que tinha algo importante a falar, que ia tomar um tempo da palavra para dizer algo que, segundo ela, Deus estava querendo nos orientar. Pediu para que abríssemos nossas Bíblias no livro de Tito, capítulo 02 versículos 01 ao 10. E me apresentou pela primeira vez o termo ‘defraudar’. Defraudar, segundo o trecho lido e com uma leve declinada ao que ela queria dizer, foi explicado como o ato de causar um sentimento em alguém, de forma proposital, sabendo que você não pode ou não esta dispostx a satisfazê-lo (A definição mais próxima que eu cheguei a isso no dicionário foi: “privar dolosamente de”). Ela disse que queria falar com as moças, as jovens da igreja.

A pastora passou um tempo falando sobre como as mulheres do mundo (do mundo = quem não aceitou a Jesus) tem se comportado de maneira leviana, tem tomado atitudes e posturas que não condizem com a posição de uma mulher íntegra, como elas tem adquirido uma ‘liberdade’ que na verdade só traria coisas ruins. Por um segundo eu, com a melhor das intenções que uma mulher criada para ser machista pode ter, pensei: “Ruins para elas né, pastora?”. Mas não, ela estava dizendo sobre como aquilo era ruim para os homens.

Basicamente, ela falou sobre como o nosso jeans mais justo, a nossa blusa que está um pouco decotada, o nosso vestido que está acima do joelho, fazem mal ao homens (tadinhos). Porque, segunda ela, homens tem impulsos sexuais muito mais fortes, eles não conseguem se controlar diante de uma par de pernas desnudas. Eles tem pensamentos pecaminosos, que acabam levando a atitudes pecaminosas. Enfim, ela estava pedindo pra que nós parássemos de fazer os menininhos da igreja pecarem.

Naquela época eu concordava com tudo aquilo – mas quando não ia pra igreja e sabia que não ia encontrar nenhum conhecido eu colocava meu shorts mais curto sim, usava minha regata que deixava um decote um pouco mais ousado, até deixava uns pedaços da barriga aparecendo de vez em quando, super rebelde – mas mesmo sendo tão preconceituosa quanto a maioria da sociedade curitibana, eu fiquei esperando, depois de tão formidável (adjetivo que eu só usaria na época) discurso, que ela passasse a segunda parte da pregação dirigindo-se aos homens presentes, algo do tipo “Por outro lado…” . Fiquei só esperando, não aconteceu.

Acho que foi a primeira vez que eu detectei e fiquei extremamente brava com uma atitude machista dentro do ambiente religioso.

Claro que eu já era feminista. Não me identificava como tal porque existe uma carga de preconceito e ignorância que vem junto com o termo, mas eu sempre ficava muito incomodada quando não me deixavam jogar bola descalça com os meninos na rua (eu invadia o ‘campo’ mesmo assim), quando meu primo ficava bravo porque eu corria mais do que ele, quando não deixavam meu irmão brincar de boneca com as minhas primas, quando alguém falava ‘mocinha não senta desse jeito’ (odiava esse último mortalmente!). Mas quando minhas ideias revolucionárias entravam em conflito com o conservadorismo da igreja, eu ficava quieta.

Dessa vez eu não me aguentei. Lembro que fechei meus olhos e pedi a Deus pra me dar muita paciência, pra me perdoar por ter pensamentos que fugiam da Palavra, mas que aquilo estava muito errado. Eu não sabia explicar o motivo, mas eu sabia que não era justo. Eu nunca tinha provocado ninguém que eu não quisesse provocar. E mesmo assim já tinha perdido as contas de quantos homens, jovens ou adultos, haviam invadido meu espaço, me desrespeitado e me dando motivos para ter medo de sair de casa em certas situações. Eu sabia que esses assédios não aconteciam exclusivamente naquelas situações especiais em que eu colocava a minha roupa ousada. Acontecia o tempo todo, inclusive no caminho para a igreja. Não importava a minha roupa, eu sempre tinha que aguentar as manifestações do incontrolável impulso sexual masculino. Eu sabia que a culpa não era minha.

Fiquei quieta. Queria falar com alguém mas já sabia onde isso ia acabar. “A Palavra de Deus diz que …”. Eu sabia o que a Biblia dizia, uma pastora tinha acabado de ler pra mim. O que eu queria poder explicar em voz alta era que, com todo o respeito, a Bíblia estava errada. Era a minha experiência de vida contra um pedaço de texto escrito há sabe Deus quantos mil anos. Era da minha dor, da minha angústia diária que eles estavam falando.

Ouvir isso saindo da boca de uma pessoa que eu tanto admirava e que, além de pastora, era psicóloga, me incomodou profundamente. Saber que ela estava fazendo aquele discurso em uma igreja cheia de jovens altamente influenciáveis me incomodou mais ainda.

O problema nunca esteve na mulher que não sabe como se comportar/vestir. O problema é o homem que não sabe respeitar. Não é muito mais fácil ensinar os meninos desde pequenos a tratarem mulheres de forma normal, explicar que elas são seres humanos e não bundas e peitos ambulantes? Não daria mais resultado subir no púlpito e falar para os homens que eles são responsáveis pelo estupro anual de mais de 40 mil brasileiras que não pediram para serem estupradas? Não seria lógico dizer para os homens que desejos sexuais são fenômenos naturais, mas que se algum deles não consegue controlar esses impulsos deveria procurar ajuda? Porque nesse caso ninguém precisaria limitar a opção de escolhas das mulheres, a gente não ia precisar ouvir que somos menos dignas e estamos provocando só porque escolhemos aquela roupa.

Seria legal, viver em um mundo onde eu pudesse usar meu shorts sem que uma pastora diga para seus fiéis “Ah meninos, aquela ali está defraudando…”.

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