125 anos depois…

e eu ainda tenho que explicar que as consequências da escravidão de um povo ainda fazem parte da vida desse povo…

Chato né? A gente falando de racismo o tempo todo, denunciando, reclamando. A gente pedindo ‘RESPEITEM NOSSA BELEZA AFRO’, gritando que cabelo crespo não é ruim, que ser negro não significa ser exótico.

A gente dizendo que a polícia é racista, que nossos estudantes são racistas, que até professores são racistas.

Eu acho tão chato, negros que pedem para que as piadas racistas deixem de ser ditas, que tentam se defender a todo custo, que estão sempre alertas para dizer o que é e o que não é racismo e se você pode ou não pode falar assim.

Chato de mais, negro que está sempre na defensiva, dizendo que não tem “preconceito consigo mesmo”, que o “racismo não está nos olhos de quem vê” e que ele não é moreno, é NEGRO.

Já me coloquei no lugar de vocês, agora tentem se colocar no meu (é só por alguns parágrafos, não precisa ficar com medo).

Tentem imaginar como é legal ter que se defender, denunciar e reclamar de coisas que acontecem com você todo dia. Como é motivador quando você liga a TV ou abre uma revista e não se vê representado. Você não pode usar seu cabelo natural porque não é adequado ao local de trabalho, vai ter que perder algum tempo e dinheiro tentando ficar igual àquelas meninas do mesmo programa de TV e da mesma revista na qual você tentou se enxergar há alguns instantes. Imagine-se explicando que o exótico é o diferente, e você não é diferente, você é maioria nesse país.

Imagine como seria viver num país onde a polícia, que deveria te defender, vai na realidade sempre te ver como suspeito, vai eliminar os seus iguais, vai dizer que quem nasce como você nasceu não é porra nenhuma. Um país onde o futuro da nação faz piada com uma personagem da sua raça que rompeu barreiras e preconceitos, vai tentar colocá-la na posição da qual ela nunca devia ter saído: humilhada e domada, é assim que as mulheres que são “do mesmo tipo”  que você são representadas. Não esquecendo que neste mesmo país, as mesmas pessoas que ensinam esses mesmos futuros da nação sejam capaz de te prender numa sala e te tratar de forma diferente e degradante, só porque você nasceu assim.

Agora imagina, além de anos de opressão e da atualidade de tudo que foi dito acima, você ter que ouvir da boca dos seus amigos comentários sobre como é engraçado ser como você é. Que isso, é só brincadeira, ninguém está se baseando no preconceito enraizado da sua sociedade e muito menos no fato de que ter as suas características, 125 anos atrás, significava que você não era pessoa e sim mercadoria. E imagina que quando você tenta se defender as pessoas dizem que você não sabe brincar, não tem senso de humor. Pior, imagine se alguém dissesse que você, enquanto oprimido diante de toda essa situação, não tenha o direito de falar o que é e o que não é ofensivo, quem dita o que pode e o que não pode são aqueles outros, os diferentes.

Considere que diante de uma vida com todos esses episódios acontecendo dia após dia, você finalmente entenda que existe uma forma de mudar essa rotina: identificar o preconceito e acabar com ele com a boa e velha conversa. Mas aí vão te dizer que é você que vê preconceito onde não tem, que você quer se defender do que não existe, que você quer privilégios, que absurdo.

Visualize a situação em que você entendeu e aceitou sua condição, você tem orgulho de quem você é, então você pede que parem de usar aquele termo que foi utilizado por muito tempo para minimizar o impacto negativo da realidade que você tem que ver no espelho todo dia. Eles não entendem que você quer ser chamado pelo que você realmente é, que você não tem motivos para ter vergonha.

Mas eles não querem entender, eles não sabem como é estar na sua pele.

Chato né? É chato mesmo.

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