Quando ser mãe não é a única opção

Eu, particularmente, AMO bebês. Sou apaixonada, gosto de apertar, morder, tirar fotos e quero ter três para chamar de meus.

Eu, particularmente, jamais faria um aborto. Seja em situações de pura irresponsabilidade, em falha do método anticoncepcional, em risco de vida ou em uma gravidez consequente de um estupro. Acho errado, acho que nenhuma forma de vida deveria ser afetada pelos erros de outras pessoas, acho que é assassinato e acho que eu nunca me perdoaria se fizesse uma coisa dessas. Nem pílula do dia seguinte passa pelo meu filtro moral.

Eu, particularmente, não sou dona da razão.

Essa é a minha opinião pessoal – que, vamos ser sinceros, pode muito bem mudar se eu realmente me ver diante de qualquer situação dessas. Não consigo imaginar o trauma que deve ser carregar o fruto de um estupro por 40 semanas dentro de você – uma opinião válida, que deve ser respeitada, já que a pessoa que mais seria afetada em qualquer caso de gravidez indesejada seria eu mesma. Mas não é porque eu cheguei à essa conclusão, com toda a minha ética, educação e amor por bebês gordinhos, que eu tenho o direito de cobrar que toda mulher tenha a mesma atitude que eu teria.

Eu não pensava assim. Achava que porque eu seria capaz de não fazer um aborto, toda mulher deveria ser. Achava que essas mulheres que engravidam mesmo sem querer eram promíscuas e tinham que arcar com as consequências dos seus atos. Achava que a possibilidade de vida para um feto era mais importante do que a saúde física e mental da gestante. Inclusive continuei achando tudo isso mesmo depois de me assumir feminista. Até que eu encontrei este texto¹

Eu imaginava que ser contra a descriminalização do aborto era ser a favor da vida. Eu estava errada. Entendi tudo isso, procurei outros textos, mas meu orgulho demorou alguns dias para assumir que eu estava indo pelo caminho errado e que a melhor opção para salvar vidas seria legalizar o aborto e oferecer formas seguras para que as mulheres que optaram por fazê-lo tenham condições de sobrevivência.

O que o texto citado diz, de forma resumida, é que o número de abortos não aumenta com a descriminalização, continua constante. O que significa que criminalizar o aborto não impede que as mulheres continuem fazendo e que descriminalizar não vai gerar abortos descontrolados em massa.

É óbvio que mulheres ricas não são afetadas por essas mudanças, elas fazem o procedimento em clínicas particulares, não sofrem as sequelas de um aborto mal feito. Quem morre em clínicas clandestinas por procedimentos realizados por pessoas desqualificas ou com infecções por objetos introduzidas pelo orifício existente no colo do útero são as mulheres pobres. E aí o número é grande. Não vou ousar colocar dados de mortes de brasileiras causadas por abortos clandestinos porque nas minhas pesquisas os números variaram muito, mas não é novidade para ninguém que isso é uma realidade.

Quando a mulher perde a vida em abortos clandestinos, duas vidas são perdidas, mas quando o aborto é legalizado e essas mulheres tem acesso ao procedimento médico feito por um profissional qualificado, apenas uma vida se perde. Se o número de procedimentos abortivos após a descriminalização se mantém constante, isso significa que garantir assistência médica (e não cadeia) para essas mulheres de baixa renda, diminui pela metade o número de mortes.

Precisamos oferecer mais opções.

Não estamos falando de assassinas, estamos falando de mulheres. De pessoas que, como eu e você, vivem dilemas e  precisam fazer escolhas difíceis. E daí se ela não optar por fazer o que você faria? Isso justifica que você vire as costas para essas “mulheres invisíveis” e finja que elas não estão morrendo por falta de atendimento médico? Ou que percam sua liberdade, de 1 a 3 anos, porque em um momento delicado tiveram liberdade de fazer com o corpo delas o que seria melhor para elas mesmas?

Sim, é muito tristes que lindos bebês estejam perdendo a chance de viver. Mas é mais triste ainda ver milhares de pessoas perdendo a vida – ou a liberdade – porque nós achamos que podemos mandar no corpo delas.

Eu já escolhi o meu lado, o que salva mais vidas. De que lado você está?

Imagem

Imagem: Revista Isto É

¹ o blog Feminista Cansada me ajudou muito em diversas questões, mas com certeza o aborto foi a principal mudança que ele me trouxe. Aconselho a todxs que leiam o texto citado com atenção e se tiverem curiosidade deem uma olhada nos posts. Recomendo!

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2 comentários sobre “Quando ser mãe não é a única opção

  1. Oi, moça. Sou homem, espero que isso não seja um problema, rsrs. Sou feminista.
    Tenho lido seus textos e me identificado muito com você.
    Estou muito contente de saber que em nossa sociedade tem surgido pessoas como você.
    Vejo seu apreço pela liberdade e pela livre pensamento. Infelizmente tenho que sugerir que você tome cuidado. Ainda há muita gente que não está nem próxima do seu desenvolvimento intelectual, você sabe, mas o problema é que essas pessoas costumam atacar quem pensa como você, quem escreve o que você escreve.

    Te desejo força. Procure conversar com pessoas que já estão nessas suas lutas há mais tempo.

    Ter encontrado seu blog foi uma sorte.

    • Olá Rafael.
      De modo nenhum ser homem é um problema. Eu fico muito feliz que vocês estejam se assumindo feministas e entrando na luta por igualdade de gênero, e ainda mais feliz de ver que meus textos são lidos por pessoas como você.
      Infelizmente isso sempre vai existir, já passei por várias situações antes mesmo de começar a escrever e sei que é uma batalha diária. Mas o objetivo é justamente alcançar essas pessoas. Confesso que tenho que exercitar melhor esse diálogo, nem sempre eu tenho paciência…
      Tenho várixs colegas que tem me auxiliado nessa área, mas conselhos sempre são bem vindos. Obrigada pelo seu.
      Fico feliz que tenha gostado do blog, espero te ver mais vezes nos comentários!

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