O grito feminista de Kelly Rowland

UAU. Após ouvir o terceiro single do mais novo CD da ex Destiny’s Child, Kelly Rowland, eu fiquei alguns minutos sem reação, digerindo aquilo tudo. Depois de entender sobre o que ela estava falando, ouvi de novo, de novo e de novo. Que coragem, que força, que mulher.

Também sou compositora e é muito comum que eu use a música para extravasar sentimentos, desabafar, mas também sei o quanto é difícil se expôr em algumas situações, então é fácil entender que a maioria das minha composições continuem anônimas, escondidas, podem até chegar a ir pro lixo dependendo do nível de intimidade. Conhecendo essas situações, entendo que a atitude da cantora requer muita coragem. Eu sou só uma artista anônima que canta as próprias músicas para os amigos, ela é uma cantora famosa no mundo todo. Expôr um relacionamento abusivo, nesse último caso, é mais do que simplesmente transformar dor em arte, é uma ação política.

Antes de falarmos sobre a letra polêmica, aqui está o vídeo e um link com a tradução:

Tradução

Sista, que música!

No começo achei que era sobre inveja, Beyoncé arrasando e ela sofrendo (aliás, tem algumas pessoas que insistem em dizer que a música é sobre isso mesmo, o resto é só detalhe), mas depois de ouvir a música inteira eu percebi que era sobre dor. E amor.

Nunca imaginei que uma das minhas cantoras preferidas tenha passado por uma situação tão delicada. Eu sou APAIXONADA por Destiny’s Child, acompanho os passos das integrantes mesmo após o lançamento do último CD que oficializou o rompimento do trio. Para mim, ficar sabendo de uma notícia dessas é como ouvir a mesma história da boca de uma amiga, de alguém que tenha me ensinado a ser uma mulher forte e independente (que foi exatamente o que Kelly, Beyoncé e Michelle me ensinaram com suas letras. Pra quem não se lembra, digitem Independent Women, Survivor e Through With Love  no google). Estou em choque. Mas o primeiro passo é entender que é exatamente isso o que acontece. Violência doméstica e relacionamentos abusivos aparecem, mesmo na vida de pessoas muito próximas e que pareçam muito improváveis de viver tal situação. Ninguém está imune.

O que eu achei interessante nessa história toda foi justamente a menção à amizade de Beyoncé durante todo o período em que a violência aconteceu:

“Depois de ‘Survivor’, ela estava pegando fogo, quem iria querer ouvir minhas besteiras?”

“Ele me puxa e diz ‘Ninguém te ama além de mim. Nem sua mãe, nem seu pai e muito menos Bey’ Ele fez eu me virar contra minha irmã, eu sentia sua falta.”

É importante perceber aqui aquela nossa velha conhecida: competição feminina. Não preciso falar sobre como isso funciona, enquanto nós mulheres nos viramos umas contra as outras e achamos que precisamos ser as melhores em tudo, não nos preocupamos em entender como essa atitude é maléfica e inviabiliza a sororidade (texto perfeito sobre isso aqui). Em um caso especifico como esse, é normal que o agressor queira isolar sua vítima do mundo, e faça com que a mulher (que na sua cabeça doentia não passa de uma propriedade) se vire contra as pessoas mais próximas. Não é coincidência que essas mesmas pessoas seriam provavelmente as únicas capazes de oferecer ajuda e uma saída a um relacionamento doentio e possessivo. É a partir desse ponto de entendimento que eu consegui ver que a menção à Bey não tinha nada a ver com inveja pelo seu sucesso, Kelly estava tentando dizer que, ao fazer com que ela se virasse contra sua amiga, seu agressor estava não só seguindo o comportamento padrão desse tipo de violência ao tentar isolá-la do mundo, como também impedindo que ela achasse um ponto de apoio capaz de lhe dar entendimento para perceber a situação na qual estava vivendo e coragem para dizer chega.

Depois dessa música eu consigo entender melhor essas duas, lançadas próximas ao período citado na letra de Dirty Laundry:

A violência física e psicológica é comum nesses casos, o isolamento, o medo constante, a negação. A roupa suja foi lavada em público, Kelly não foi só corajosa em expôr sua vida dessa forma, ela deu força e fé para que milhares de mulheres que hoje vivem nessa situação percebam que não é normal ser tratada com inferioridade e que é possível sair dessa situação.

Sempre admirei, hoje admiro ainda mais. Força Kelly, obrigada por mais uma lição de vida, obrigada por ser inspiração.

Para denunciar violências contra a mulher: disque 180

 

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2 comentários sobre “O grito feminista de Kelly Rowland

  1. Moça, eu te adicionei no facebook. Agora que percebi que talvez você não veja a mensagem que eu te mandei lá, mas aqui você deve ler.
    Brigada, beijo!

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