Mas seu cabelo é tão bonito…

eu sei que é. E só eu entendo o tempo de que precisei para me dar conta disso.

Meu cabelo é crespo. Já passou por diversas fases (mudanças naturais e, posteriormente, químicas), mas nunca deixou de ser crespo. Quando eu era criança ele fazia um cachinho bem fechado e era enorme, até a triste noite em que minha mãe, cansada após um dia de trabalho e não conseguindo desembaraçar minha pontas, pegou silenciosamente uma tesoura e cortou meus cachinhos sem me avisar.  Depois disso meu cabelo começou a mudar, não sei se pelo corte ou por influências hormonais, mas ele nunca deixou de ser o que é: crespo.

Breve resumo da minha trajetória de aceitação: quando eu era criança, sempre se referiam ao meu cabelo de forma negativa. O apelido preferido dos maldosos dessa idade é o famoso “bombril”. Eu não precisava de comentários discriminatórios para saber que eu não era regra, era exceção. Sou curitibana, a parcela negra é extremamente pequena na nossa população quando comparada com a média nacional. Eu não me reconhecia nas ruas, nem nas revistas e nem nas novelas. Eu não precisava das piadas e dos risinhos para entender que eu não era considerada “normal”. Eu era um caso a parte, e um dia eu entendi que sempre iriam me tratar como sendo um caso a parte. Aos 11 ou 12 anos de idade encontrei a solução para pelo menos um dos “problemas”: escova e chapinha. Aprendi a fazer em mim mesma e passei anos com o cabelo liso, todos os dias. Chegou um momento em que eu realmente não lembrava como era o meu cabelo natural, eu só via o reflexo de uma ilusão no espelho. Um belo dia, um tufo (não foram fiozinhos, foi um tufo mesmo) de cabelo simplesmente caiu da minha franja. Eu me vi obrigada a parar de usar os relaxamento que ajudavam a desfazer os cachos e deixar de lado secador e chapinha, ou iria ter que ver meu cabelo quebrando e caindo de tufo em tufo, até ficar careca. Depois de 3 meses sem agredir meus fios, não me lembro exatamente como, eu vi meu reflexo em um espelho e, assim, do nada, gostei do que vi. Foi assim que eu aprendi a amar meu cabelo. Foi forçado, foram necessários alguns anos de rejeição, e quando eu me dei conta de como meu cabelo era lindo, veio a revolta. Primeiro eu me revoltei comigo mesma. Como eu fui capaz de deixar que os outros fizessem isso comigo? Como deixei que a pressão e a insatisfação de outras pessoas com um cabelo que era só meu me afetasse dessa forma? Depois me revoltei com as pessoas que de alguma forma me levaram a isso e por fim me revoltei com nossa cultura racista.

Minha primeira aparição como natural depois do episódio do cabelo que caiu foi realmente forçada, eu não tinha outra opção. Mas chegou um momento em que eu decidi que iria carregar na minha cabeça, a minha resistência.

Hoje fazem 5 anos que eu assumi meu cabelo natural. Eu tenho orgulho de quem eu sou e sei que passo essa sensação para as pessoas. Hoje, chamar meu cabelo de bombril não vai me fazer ser a criança isolada no intervalo, nem me obrigar a ir rápido para casa “dar um jeito nesse cabelo”. Hoje, o racismo vem de forma diferente, quase sutil.

O que eu escuto atualmente, com uma ou outra variação é a seguinte frase: “Seu cabelo é tão bonito! Ele é cacheadinho, não é aqueles crespos feios”.

Qual é o problema dessa frase?

  1. Ao difamar uma característica fenotípica da minha raça, você está me difamando. Não importa se você pensa que porque meu cabelo tem um cacho mais aberto, ele automaticamente deixa de ser crespo. Na verdade, mesmo se meu cabelo fosse naturalmente liso, eu não deixaria de ser negra, e você não deixaria de estar me difamando.
  2. Ao exaltar uma característica que deixa claro minha miscigenação e não permite que o fenótipo negro se manifeste completamente, você está valorizando meu embranquecimento. Não estou dizendo que é ruim ter uma característica não negra, estou dizendo que quando você usa isso para dizer que meu cabelo é melhor do que um genuinamente crespo, você está sendo racista.
  3. Sua noção de beleza não é necessariamente uma opinião pessoal, ela é ensinada. Quando você diz que um cabelo crespo é feio, você está propagando um preconceito que é imposto. Por que será que tanta gente usa essa mesma frase? É a opinião das pessoas que é assim mesmo, ou existe uma cultura que te ensinou desde sempre que cabelo crespo é feio?

O racismo é cruel. Quando ele quer me rebaixar, ele assume que meu cabelo é crespo para conseguir me colocar em uma posição inferior e estigmatizada. Quando ele quer enaltecer meu embranquecimento (e acaba, da mesma forma, inferiorizando a minha raça), ele diz que meu cabelo não é crespo e é por isso que ele é bonito. Ele também fala do meu nariz delicado e do tom da minha pele (nem se atreva a corrigir alguém que te chama de “moreninha” na rua. É um elogio, é claro que você não é negra. Negra é negra, você é morena).

Se eu gosto de elogio? Claro que eu gosto. De pessoas que eu conheço, pessoas que tem essa liberdade e que não usam o suposto enaltecimento de algum atributo físico como base para segregar ainda mais a população. Até agora eu não falei sobre elogios. Sabe o que seria um elogio? “Seu cabelo é tão bonito!”. Agora, se você quer me comparar com outra pessoa da minha própria raça para valorizar meus traços europeus ou asiáticos ao mesmo tempo em que desvaloriza a imagem da mulher negra, eu vou achar ruim sim.

Meu cabelo é bonito, mas não porque ele é “menos crespo”. Ele é bonito porque ele é meu, e ele não só carrega a identidade que eu havia perdido na infância, ele carrega o meu grito de protesto. Ele joga na cara do racismo brasileiro que eu não sou menos mulher por ser negra, nem menos negra por ser mestiça. Com o tempo, eu percebi quem eu sou e aprendi a me amar.

Por que tanto texto por causa de um cabelo? Porque não existe manifestação racista inofensiva. O preconceito com o cabelo crespo pode sim prejudicar a vida das pessoas. Para quem não lembra do caso, dá uma lida aqui sobre a estagiária de pedagogia que foi praticamente obrigada a alisar ou prender o cabelo, e quase perdeu o emprego por, além de não ceder à pressão da escola em que trabalhava, denunciar o caso de racismo explícito, que acabou indo parar na mídia. E aqui você pode saber como a influência da mesma discriminação afetou sua vida profissional.

Em que situação vocês imaginam que uma mulher ou um homem negro tenham plena segurança de exercer sua profissão e serem tratados de forma igualitária quando absurdos como esse continuam acontecendo? São eles quem tem de aprender a alisar ou raspar o cabelo, se curvando às exigências do racismo, ou é a sociedade que está absurdamente impregnada por padrões estéticos que foram criados com o objetivo claro de segregação?

Sou eu que vejo problemas em tudo, citando falhas imaginárias em uma frase inofensiva do cotidiano de qualquer mulher, ou a sociedade que não percebe que essas frases não tão inofensivas são usadas para desestabilizar a auto estima e estereotipar a figura do negro?

Para você que eventualmente esteja lendo esse texto e lembre que um dia já fez esses mesmos comentários, lembre-se que não é a sua pessoa que eu estou julgando, é o preconceito que eu tenho que combater todo dia. Lembre-se disso da próxima vez que ver uma mulher negra, lembre-se disso quando quiser elogiá-la e lembre-se de não deixar que o suposto embranquecimento da população brasileira te faça pensar que ser menos negro, é ser mais bonito.

O cabelo da discórdia:
cabelo da discórdia

Obs: esse texto foi editado após o comentário da Klene Oliveira. A palavra “denegrir”, que eu havia usado inicialmente com um sentido negativo foi substituída por outros termos, termos que realmente indicam inferiorização ou difamação. “Denegrir” signfica “enegrecer”, usar esse termo como se fosse algo negativo vai totalmente contra tudo que eu acredito e contra o próprio texto. Obrigada pela correção Klene!

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10 comentários sobre “Mas seu cabelo é tão bonito…

    • Sei bem o que é isso. Na verdade o nome do blog surgiu nesse contexto em que eu reclamava de algumas coisas cotidianas e alguns conhecidos diziam que era coisa da minha cabeça e ficavam extremamente incomodados com as minhas denúncias e os desabafos. Meu objetivo é exatamente desconstruir essa falsa ideia de democracia racial e buscar igualdade real para todxs. Que bom que gostou. Sinta-se a vontade para voltar sempre que quiser e deixar seus comentários (:

  1. gostei. mas a palavra denegrir, é muito racista, quer dizer deixar negro. Não use “denegrindo” como uma expressão ruim. Qual o problema de deixar negro? Expressão criada nos tempos de escravidão.

    • Peço desculpas por não ter percebido isto antes, realmente nunca havia parado para pensar na origem dessa palavra. Obrigada pelo toque, assim que arranjar um tempo vou substituir a palavra no texto. Sugestões são sempre bem vindas!

  2. Olá…
    Amei o seu texto. Você se expressa de uma forma tão viva, tão sincera e tão confiante, que eu até me emocionei. Você falou uma verdade que poucas pessoas enxergam, pois esse tipo de preconceito é muito recorrente no dia a dia. E por mais que os comentários que eu ouço não sejam dirigidos a mim, eu também me sinto parte disso. Mesmo que eu tenha uma cor parda, mais aproximada pro tom branco, minhas outras características não negam minha origem. Meu cabelo é crespo e meu nariz é achatado. E isso já é suficiente para que eu me sinta uma pessoa negra, uma pessoa que também sofre com os preconceitos que são muito comuns em meu cotidiano. E, por isso, eu sei o que é ser negro. Eu sei, e fico indignada quando as pessoas usam a expressão “cabelo ruim”, ou comparam a cor negra a qualquer coisa que lhes venha à cabeça, como uma forma de inferiorizar. Eu acredito que as únicas pessoas que têm o direito de usar tais expressões são as pessoas que sofrem o preconceito. Eu não me importo se uma pessoa que tem o cabelo igual ao meu diz que meu cabelo é ruim, afinal, nós nos entendemos. Mas se alguém que tem o cabelo liso, diz isso, acaba machucando. Pois essa pessoa não sabe o que é ser assim, essa pessoa não sabe o que sofro, e se ela diz isso, é como uma forma de me fazer sentir inferior. Essa pessoa não percebe que estou lutando para me aceitar, e isso machuca, isso me faz sentir um lixo social.Desculpe, falei demais, mas é que seu texto realmente me tocou fundo, e meus sentimentos vieram à tona. Você é uma pessoa admirável. Ah, e parabéns pelo blog!

  3. Pingback: Por que eu raspei meu cabelo | Falando sem permissão

  4. Pingback: “Being mixed doesn’t make me less black” and compliments that devalue blackness by exalting European attributes | Black Women of Brazil

  5. O Brasil é um pais muito racista, as pessoas pensam que os europeus são racistas mas olha…. eu aqui na Europa nunca sofri nenhuma agressão racista mas no Brasil sempre, praticamente desde que eu nasci!!! Cabelo de bombril, de piolho, de favela, de pobre, as tuas primas tem cabelo liso e você tem esse cabelo de BIP!! Essas e outras.

  6. Querida, que coisa linda!
    Também cresci negra, de cabelos crespos em Curitiba.
    Também, como muitas de nós, que não entendem o preconceito, alisei cabelos com mil e uma químicas e um dia, também, dei-me conta do que acontece.
    Hoje moro em Minas, um Estado que pelas características de exploração econômica deste nosso Brasil, tem um população negra muito maior e, confesso, sinto-me muito mais confortável e feliz.
    Ainda assim, infelizmente, aqui também tem preconceito.
    Recentemente terminei um namoro porque o dileto queria que eu fizesse chapinha para me apresentar para o pai dele. Sentiu-se ofendido com a minha falta de compreensão com a “recusa”, pois garantiu que, depois que o pai me conhecesse e gostasse de mim, não teria problema “saber” que eu era (?????) negra.
    O caminho é longo querida e fico feliz em saber que a cada dia crescemos em números na conscientização da realidade quanto ao racismo brasileiro.
    Obrigada por este texto lindo!

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