Feminismo contra o racismo – Dia Internacional da Mulher Negra

Foi cedo que eu aprendi que meu cabelo não era o mesmo que o da mulher poderosa que aparecia na novela. Foi mais cedo ainda que eu percebi que as poucas mulheres parecidas comigo que surgiam na minha TV estavam sempre com pouca roupa, rebolando, sempre com um sorriso no rosto. Foi cedo de mais que eu vi no rosto da empregada doméstica brasileira o meu reflexo. Ainda era cedo quando eu escutei a primeira observação em voz alta sobre a minha “bunda de negra”. Também era cedo quando eu ouvi um “preta gostosa” do pai de família (branca) que passou por mim naquele dia. Era cedo, na minha vida amorosa, quando um namoradinho qualquer deixou claro que eu ficava feia com o cabelo crespo. O mesmo namoradinho que ria da minha boca grande. O mesmo que achava engraçado eu ser negra, mas ser tão magra desse jeito (mas ela tem bunda, né cara?).

Do que exatamente eu estou falando? Você ficou confusx e não conseguiu definir se esse texto é sobre machismo ou sobre racismo? Eu também. Eu estou confusa desde muito cedo.

Ser mulher no Brasil significa que o machismo está presente todo dia, jogado na sua cara, claro como os olhos lindos daquela modelo famosa que representa o Brasil nas passarelas internacionais do mundo da moda, ser mulher negra no Brasil significa passar a vida inteira tentando descobrir se você está sendo inferiorizada por ser mulher, ou por negra. Já era tarde quando eu percebi que o motivo era uma união dos dois.

Na minha rotina é muito complicado perceber até onde vai o machismo e onde começa o racismo (e vice-versa), porque a forma como ambas as discriminações são direcionadas a mim é entrelaçada. Não é comum casos onde a distinção é clara, eu mesma tenho um único exemplo (que vai ser copiado de uma publicação do meu Facebook):

Estava na frente do shopping onde eu trabalho esperando pelo meu namorado. Um carro passou pela minha frente com um cachorrinho lindo latindo pra um grupo de pessoas. Eu dei risada, para o cachorro é claro. Acontece que as pessoas que estavam atrás de mim era um grupo de homens. Os primeiros passaram por mim normalmente mas o último da fila continuou dando risada e passou a mão no meu braço. Quando ele virou pra trás pra falar alguma coisa eu nem deixei ele abrir a boca e falei bem alto pra ele tirar a mão de mim porque eu não tinha dado essa liberdade pra ele e nem pra ninguém. Ele realmente tirou a mão, mas soltou a seguinte frase: “Sua macaca nojenta! Você acha que alguém aqui vai olhar pra você sua pretinha?”

Neste dia foi possível não somente diferenciar de forma clara até onde o cara foi apenas machista e o momento exato em que ele passou a usar um discurso racista, como também ouvir em alto e bom som “SOU RACISTA”, sem rodeios, sem se esconder atrás de “é só uma piada, relaxa”, coisa que não é comum vermos no Brasil. Aqui o racismo não é explícito porque é mais importante combater a ideia de que racismo existe, do que combater o racismo propriamente dito (vou falar melhor sobre isso em outro texto).

O que realmente me fez escrever esse texto hoje foi a leitura rápida de alguns comentários em uma publicação que fazia referência ao Dia Internacional da Mulher Negra. Coisas do nível “e o dia da mulher branca???“. Era uma página feminista.

A primeira coisa que eu quero que fique claro para qualquer pessoa que se identifique como feminista é: se você luta pela igualdade de gênero mas não luta contra o racismo, você não é feminista!

marcha das vadias CuritibaDeixar o problema racial de lado significa deixar de lado mais da metade da população brasileira, inclusive as mulheres que fazem parte desse grupo. Significa deixar de lado a dupla opressão que mulheres negras tem de suportar todo dia. Significa, inclusive, deixar de lado a hiper-sexualização que não só a mulher negra, mas também o homem negro sofre dentro da nossa sociedade (não preciso explicar que feminismo é IGUALDADE, que feminismo também atua no sentido de anular qualquer face do machismo que oprima os homens e que hiper-sexualização é algo que ocorre de forma naturalizada com as mulheres e todxs nós conhecemos suas consequências devastadoras).

Se você decide ser feminista simplesmente ignorando que existem disparidades enormes entre as mulheres nesse país e fingindo que tais disparidades não influenciam na maneira pela qual o machismo irá atingi-las, você não é feminista. Você não me representa. Você não vê que meu choro é mais sofrido e muito mais longo que o da mulher branca.

Esse é o choro da africana que foi comprada e jogada dentro de um navio, da sobrevivente que chegou a um pais desconhecido após uma longa viagem da qual quase todos os seus compatriotas morreram, da escrava que servia à sinhazinha de dia e ao senhor de engenho à noite. Esse é o choro das brasileiras que nasceram de estupros dentro das senzalas, das mães de santo que viram sua religião sendo marginalizada, da quilombola que também quis aprender capoeira para se defender. Esse é o choro da ex-escrava passando fome, da lavadeira que lava para sobreviver, da negra que não é morena, é negra. Esse é o choro da negra morrendo porque não pode fazer um aborto, o choro da negra parindo porque foi estuprada de novo, o choro da mãe que vê seu filho preto ser só mais um nas estatísticas da “bala perdida”.

Não, o machismo que eu sofro não é o mesmo que o seu.

As mulheres negras choraram por muito tempo, mas agora começamos a gritar. Gritamos por espaço no feminismo! Gritamos por sororidade real e sincera! Ponham-se no nosso lugar, vejam o mundo com os nossos olhos. Nós sequer somos consideradas mulheres. Somos mulheres negras, e isso faz toda a diferença. 

Quero deixar registrado todo meu amor à organização da Marcha das Vadias em CWB, que fez questão de ter um ato todo voltado no combate ao racismo. VAMOS ENEGRECER O FEMINISMO!

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8 comentários sobre “Feminismo contra o racismo – Dia Internacional da Mulher Negra

  1. Pqp que texto doído de ler pq simplesmente me fez olhar pro meu passado, lembrar dos meus ancestrais e dos momentos onde sofri racismo/machismo…
    Maravilhoso texto , mas necessário dizer que infelizmente até no feminismo sinto que nossas vozes não são ouvidas, são silenciadas e de vez em quando dá um desânimo enorme de continuar militando mas esperança é a ultima que morre.Avante!

    • Também senti isso muito forte quando comecei meu ativismo no feminismo, mas estou bastante otimista, pelo menos com a situação em Curitiba. As organizadoras da Marcha das Vadias vieram conversar comigo e com meu namorado meses antes do evento, explicando que queriam a presença do movimento negro, que queriam mulheres negras participando da organização, e foi exatamente o que fizeram. Fiquei muito feliz!
      Infelizmente é preciso difundir a ideia, muitas “feministas” acham desnecessário o feminismo pautado no combate ao racismo porque “todas as mulheres são iguais”. Não somos, precisamos usar nossas vozes, contar nossas histórias e mostrar que não é a mesma coisa, combater o machismo não vai livrar a mulher negra da opressão.
      Não desanime! Foco e força, vamos construir um futuro melhor para todxs!

    • Olá Rafael!
      Fico feliz que continue acompanhando os textos!
      E obrigada, não sei qual é a sua dúvida, mas esse elogio serviu muito bem (:

      Já tinha lido esse texto, na verdade foi através dele que eu fiquei sabendo do incidente.
      Ela escreve muito bem, eu concordo com tudo que foi dito, é exatamente nesse ponto que o feminismo falhou por muito tempo.
      Espero que situações como esta sirvam para trazer o debate racial para dentro do movimento feminista de forma definitiva.

  2. Eu amei o texto, achei que a forma como você escreve é intensa, forte e prende, mas além disso, o texto trata de um assunto tão forte quanto a sua escrita, um assunto que para alguns ainda é tabu. Parabéns! 🙂

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