Por que eu raspei meu cabelo

Eu não sei como começar esse texto. Porque palavras digitadas não fazem justiça ao sentimento que toma conta de mim agora.

Meu nome é Stéphanie, e eu passei anos sendo escrava de imposições estéticas.

Ser uma mulher negra tem dessas coisas. Você não é mulher, é uma mulher negra. E para se encaixar no mundo das “mulheres” algumas imposições são definidas. A imposição que mais me afetou nesses meus 20 anos de vida foi a imposição sobre o meu cabelo.

Alisei, estiquei e prejudiquei meus fios por cerca de 5 anos. Neguei quem eu era, escondi minha ancestralidade, busquei o elogio daqueles que insistem em não nos ver como a beleza padrão.

É necessário dizer que por eu não ter um cabelo tão crespo, aquele cabelo MARAVILHOSO que cresce para cima, para os lado e chama a atenção de todxs com sua magnitude, eu tive sim certos privilégios. Já falei sobre isso nesse post aqui. Mas não vamos esquecer de que sou negra, meu cabelo não é liso, e embora eu tenha recebido algum “amor branco” pelo meu embranquecimento, eu nunca fui tratada como branca. Sofri discriminações sim com meu cabelo cheio de cachos, discriminação suficiente para me fazer escondê-los por tanto tempo.

Quando eu me libertei e decidi que não iria mais ceder a essa imposição estética, eu consegui finalmente descobrir o quanto eu me amava.

Por anos eu alisei meu cabelo, e de tanto alisá-los eu cheguei a esquecer de como eu realmente era. De quem eu era. Do que eu representava. Eu sequer lembrava da textura do meu cabelo, ou de como minha mãe me sentava em uma cadeira após o banho para penteá-los. Eu não lembrava mais de como era poder entrar em uma piscina ou tomar chuva sem me preocupar de como os outros (ou, pior, eu mesma) pudessem ver quem eu era por trás da chapinha. E quando eu finalmente tive coragem de me olhar no espelho, natural, cacheada, NEGRA, eu amei o que vi.

Eu passei a usar meu cabelo como resistência, como símbolo político, como representação de quem eu era. E lá se foram mais 5 anos.

Há aproximadamente 1 ano, após passar por um episódio traumático de machismo e assédio sexual, eu tive um vislumbre de mim mesma. De quem eu era e de quem o machismo dizia para eu ser. Eu me achava tão dona de mim, tão liberta, mas na verdade existem tantas amarras invisíveis segurando mulheres negras que no momento me parecia quase que impossível me libertar de todas. Aquele homem branco, tentando ser dono de meu corpo, tentando me dizer o que eu poderia ou não fazer enquanto ele passava a mão em mim, fazendo com que as pessoas que estavam ao redor dessem risada da minha tentativa angustiada e frustrante de gritar para ele que eu era dona de mim mesma e que ele não poderia me tocar, isso tudo explodiu dentro de mim e eu tive vontade de gritar CHEGA!

Eu já era ativa dentro do feminismo negro, eu já lutava contra opressão, contra assédios dentro de transporte público, contra toda essa droga de injustiça que recai sobre nossos corpos. Mas eu queria mais! Eu queria gritar para o mundo ESSE CORPO É MEU! TIREM SUAS MÃOS DE CIMA DE MIM!

Eu encontrei minha solução ao entender que a maior referência estética para definir como uma mulher deve ser na sociedade brasileira se expressa em transferir nossa “feminilidade” para o nosso cabelo. E assim eu decidi que iria raspar o meu.

Precisei de quase um ano para criar coragem, pesquisei, li histórias de mulheres que passaram pela mesma decisão (site MARAVILHOSO aqui pra quem sabe inglês, e aqui o Tumblr de uma brasileira), descobri que dava pra doar cabelo para mulheres com câncer, para mulheres escalpeladas, para limpar vazamento de petróleo do mar, conversei com o noivo, com amigas, com parceirxs de movimentos sociais, e a cada dia eu tinha mais certeza de que queria ficar careca.

Quando eu finalmente criei coragem, falei com algumas pessoas e me trouxeram o contato de uma mulher com câncer de mama que iria fazer sua própria peruca (MUITO AMOR <3) para que eu pudesse fazer a doação, esperei uma semana para me despedir dos fios que fizeram parte da minha vida, e finalmente consegui abrir mão da maior imposição estética na vida de uma mulher.

EU NUNCA ME SENTI TÃO BEM EM TODA A MINHA VIDA.

Não apenas porque eu estou gritando “quem manda nesse corpo sou eu”, não apenas porque eu pude ajudar uma pessoa em um momento de dificuldade, não apenas porque todo mundo gostou e disseram que eu estou linda. Eu ME sinto bonita. Eu ME sinto plena. Eu ME sinto livre. E não existem palavras suficientes para explicar o quanto isso me mudou. É quase como a incrível sensação de usar meus cachos após anos de alisamento outra vez. É como decidir que meus cabelos tem dona, e ninguém pode me ensinar o que fazer com eles. Eu me sinto livre, me sinto feliz, me sinto uma nova mulher.

Após raspar meu cabelo eu me olhei no espelho, natural, careca, NEGRA, eu amei o que vi.

Meu nome é Stéphanie, e eu sou uma mulher livre.

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ps 1: Se alguma de vocês lendo esse texto está cogitando em fazer o mesmo, meu conselho é: faça! Liberte-se! Reinvente-se! Seja quem você quer ser! Seja feliz!

ps 2: Texto atualizado com fotinhas novas porque eu to simplesmente me amando!

 

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22 comentários sobre “Por que eu raspei meu cabelo

  1. Corajosa téfi, texto inspirador, enfrento esse mesmo problema, todos descritos em seu texto Hei de criar essa coragem que está adormecida por imposição do modelo perfeito de mulher…sempre tive vontade de gritar minha negritude, mas com medo da maneira com que a sociedade vai me aceitar. Um beijo sinto saudade

  2. Meus parabéns pelo texto!! Achei maravilhoso! Parabéns também pela sua força, força essa que infelizmente faltam a tantas de nós que ainda nos dias de hoje acreditam que as mulheres devem ser subjugadas. Parabéns de novo!!! Sensacional! Com certeza hoje vc conquistou mais uma leitora e fã…. Hahhaha sempre te achei muito bonita, mas concordo que os cachos combinam muito mais com vc do que o cabelo liso. Mas sem cabelo vc continua uma boneca!

  3. Parabéns pelo pela decisão de se liberta de toda a química do seu cabelo. E tbm pela sua atitude linda de doa seus cabelos pra que tanto prescisa. amei sua história. Eu tbm fiz meu bc por solidariedade a minha irmã que estava com câncer de mama, e tbm pra me libertar de vez de toda a química. Parabéns mais uma vez e muitas felicidades na sua nova caminhada bjosss fica com Deus

  4. Olá Stéphanie, meu nome é Adriana, sou de Taubaté, interior de SP. Bom, pesquisando na internet sobre mulheres negras que rasparam a cabeça, amei a sua história e também decidi raspar a minha. Beijos e obrigada.

  5. Pingback: Brazilian hair? Good hair? How beauty aesthetics enslave and why I shaved my head | Black Women of Brazil

  6. Parabéns pelo texto e pelo blog, já li uns 10 textos e adorei todos!
    Também raspei o cabelo há quase dois anos, por alguns motivos pessoais e depois que fiz isso vi que foi libertador para mim e ao mesmo tempo fiquei triste, pois muitas amigas e conhecidas falavam: ” Poxa, queria ter essa coragem, acho lindo, mas meu namorado/marido gostam de cabelo comprido”. Muitas vezes ficava quieta, mas algumas vezes respondia: “Ué, se ele gosta porque ele não deixa o cabelo dele crescer?”
    É triste saber que muitas mulheres deixam de fazer coisas ou fazem coisas que não gostam só para agradar um namorado ou até a sociedade em geral.
    Você ganhou mais uma fã! 😀
    E desculpa se por acaso comentei algo que não era pertinente ao post.

    • Olá Kátia. Obrigada pelo comentário, outras experiências sempre são bem vindas (:
      Eu também ouvi muitos comentários assim, e uso eles para desconstruir essa ideia de que a aparência da mulher tem que se limitar ao que um homem acha bonito. Raspar a cabeça acaba sendo um ato político no final das contas.

      Fica a vontade pra ler e comentar.
      Abraço!

  7. Eu cortei meu cabelo nesta semana,não raspei mas foi na lamina 4 da maquina, mais precisamente dia 23/09/2014. Amadureci a ideia por uns tres meses, mas era algo que eu queria fazer de verdade. Eu negra e escrava da quimica pra deixar meus cabelos lisos por mais de 10 anos, mais já não queria mais ter os gastos mensais e tambem o trabalho diariao com eles. Tenho mais coisas importantes com que me ocupar, minhas filhas, minha casa, trabalho e estudo… enfim! Dei uma basta, tenho 31 anos, e hj dizem que represento ter uns 20 anos o que me deixa muito feliz, rejuveneci me libertei e to feliz e isso é o que realmente importa.

    bjokas

    Paula Machado

  8. 1 ano atrás cortei cabelo é bem baixinho e até hoje eu uso ele assim, que liberação!! Adeus alisamento e vergonha de mim mesma 🙂 e para quem tem medo de perder namorado… besteira homem olha outras coisas :))) e depois é até melhor se os perebas que olham só cabelo e bun** se afastem para a PQP.

  9. Olá Stephanie,
    Adorei seu texto! Estava pesquisando sobre mulheres negras carecas e o seu texto foi o primeiro que li.
    Já faz um tempo que ando com vontade de raspar a cabeça, porem, não tenho essa coragem ainda. Mas cortei praticamente careca(1 dedo de cabelo ou menos apena)s! rs
    Olha vou te dizer, é libertador! Me sinto mais feminina, mais dona de mim, mais eu!
    Eu também era vitima da imposição sobre cabelos. E corta-los para assumir a “verdadeira Camila” foi a melhor coisa que já fiz por mim!
    Linda sua postagem….espero raspar meu cabelo um dia!

  10. Sensacional!!! Cara, você me descreveu por completo nesse belo texto. Sou filha de mãe branca e pai negro que faleceu com câncer. A gente dá valor pra cada futilidade imposta à nós, futilidades tão enraizadas em nossa cultura de preconceitos e padronizações. Estou como você na fase de consultar amigas, namo, e quase iniciando o voluntariado. A primeira que se apaixonar pelos meus cachos, os mesmos serão da apaixonada! Obrigada pela beleza e veracidade de suas palavras!

  11. Ah Stephanie, vc é linda e feminina mesmo sem cabelo! Eu sou gorda, feia e mesmo com cabelo pareço uma “mulher macho”. Admito que não me aceito, mas é realmente muito mais fácil pra uma mulher agraciada com traços femininos tomar uma decisão assim e ser aceita que uma desgraça como eu! Eu sou filha de negra com ‘uma pessoa que se diz caucasiana’, então sou mulata. Mas nem as pessoas negras me aceitam como tal, me chamam de fogoió!! Os brancos dizem que sou feia (por trás, pq pela frente só dizem q não penteio o cabelo). Meus motivos pra raspar os cabelos são mais por desistir de algo que nunk vai dar certo (eu me fazer bonita) do que por motivos nobres como defesa do direito de ser livre.

    • Olá queria. Desculpe pela demora, não estava acompanhando o blog por algum tempo. Eu gostaria de te dizer que toda nossa percepção de beleza é distorcida, é tudo construído e moldado pela sociedade em que estamos inseridas. Sei que isso talvez não mude sua auto estima ou sua forma de se olhar no espelho de um dia para o outro, mas espero realmente que você entenda que você não é menos que ninguém por ser gorda, por ser negra, ou por ter características que como você diz são consideradas feias pela sociedade. Espero que você tome a decisão que seja melhor pra você com relação ao seu cabelo, leia alguns relatos, converse com alguém que você possa confiar, e não se esqueça nunca que você é mais do que a sociedade diz. Todo meu carinho e muita paz pra você!
      Asé!

  12. Olá, vc é linda demais! como está seu cabelo agora? estou criando coragem e o grande dia de cortar todo meu cabelo é amanhã, queria saber como vai o seu! Ainda preciso de forças, tenho medo de muitos n me aceitarem, mas continuo na luta! Atualiza, posta mais! Abraços.

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