Quando foi que ser chamado de racista passou a ser mais grave do que sofrer racismo?

Hoje pela manhã quando liguei o notebook li essa matéria sobre racismo evangélico. Nada novo, não é muito comum esse nível de manifestação racista em cultos, geralmente é algo que passa mais despercebido, mas eu não fiquei surpresa. Dando uma olhada rápida nos comentários da matéria publicada na Página do Geledés li algumas manifestações de desagrado com a generalização, que não é todo evangélico que é racista, não pode falar assim. 

Dito isso, vamos ao cenário de algumas semanas atrás, quando rolou uma briga no meu Facebook envolvendo racismo evangélico (inclusive já comentei sobre isso aqui). Depois de quase 200 comentários de muita briga e absurdos passíveis de prisão sem direito a fiança eu percebi que os únicos evangélicos que apareceram na briga o fizeram a fim de defender os outros evangélicos (que estava destilando racismo em uma rede social, usando a Bíblia como escudo e a unção de deus como justificativa para serem imunes a críticas e até mesmo à Constituição Federal). Fiz um post exigindo posicionamento dos cristãos com quem tenho contato, que não são poucos já que passei apenas 18 anos da minha vida frequentando igrejas. Com exceções que ficaram bem definidas (e tenho certeza que essas pessoas sabem que estou falando delas porque deixei claro que entendi e apoiei suas palavras), a maioria dos comentários alimentavam uma série de esteriótipos e alguns até tentavam se defender ao atacar outras minorias. Alguns postaram comentários públicos, outros me mandaram mensagens inbox. Do total, acredito que as pessoas que responderam ao meu questionamento não correspondiam sequer a 10% dos cristãos que eu conheço. E não, não conseguiram me convencer que o mundo cristão está menos racista do que no período em que eu fazia parte dele.

Existe uma situação que é rotineira dentro de igrejas. O pastor, pastora, missionário, dirigente do louvor, o responsável por pedir o dízimo e as ofertas ou seja lá quem for que esteja com o microfone na mão fala uma besteira, faz um comentário discriminatório, todos ficam quietos. Eu sei que é difícil fazer um questionamento durante o culto, a passividade ensinada pelo cristianismo chega a impossibilitar interrupções enquanto a “autoridade de deus” está falando, mas existem várias maneiras e vários momentos em que uma contestação é possível. Acho que me recordo de uma única situação em que uma pessoa se posicionou contra uma liderança, foi convidada a se retirar da igreja. 

Mas e quando a manifestação discriminatória (supostamente baseada no livro sagrado do cristianismo) é feita em uma roda de conversas? E quando é feita com alguém da sua família? Quando está escancarada em redes sociais? O que impossibilita que um cristão se manifeste? 

Eu já cansei de ler reclamações sobre a generalização que existe hoje em dia com relação ao cristianismo, principalmente a evangélicos. Já presenciei muitos evangélicos se defendendo, se sentindo ofendidos, como quando alguém diz “racismo evangélico”. Mas o que eu não vejo com nenhuma frequência (e posso contar nos dedos as situações em que vi algo do tipo acontecer) são exatamente esses evangélicos que se dizem não racistas posicionando-se e repudiando atos de racismo baseados no “ensinamento cristão”. Quando existe uma conversa pública com expressões totalmente perceptíveis de racismo apoiado em uma leitura distorcida da Bíblia aparecendo na sua página inicial do Facebook, silêncio. Quando a pessoa que foi atacada por tais expressões generaliza pela maioria dos evangélicos que conhece dizendo “evangélicos são racistas”, aí tem barulho, aí tem ofensa. Quando está acontecendo um culto em que a pregadora se utiliza da ridicularização de fenótipos negros, a consequência é não apenas silêncio de alguns, mas o riso de muitos. Quando uma pessoa que estava nesse mesmo culto se manifesta ao transcrever em um texto toda a “depressão gerada por um mundo evangélico adoecido”, reclamação, ataques, que absurdo!

Isso não é exclusividade do meio cristão e me lembra de outro caso, o da Stephanie Ribeiro, que publicou um texto expondo as situações racistas que vem ocorrendo com ela na PUC de Campinas. A resposta para o trauma, a dor e o racismo institucional? Alunos da instituição reclamando de racismo reverso, generalização e vitimização. Vale lembrar que os casos citados pela Stephanie aconteceram de forma pública, vários alunos sabiam das situações as quais ela foi submetida, muitos deles quando eram expostos aos casos ridicularizavam-na ainda mais. Outros ficaram quietos. A faculdade disse que não podia fazer nada. E quando ela exige respeito ele bradam “NÃO GENERALIZE, NÃO SOMOS TODOS RACISTAS”. Onde estavam os não racistas quando ela encontrou seu armário pixado? Onde estavam os não racistas quando ela era atacada em redes sociais? Onde estavam os não racistas quando uma das alunas disse em alto e bom som que negro fede mais que branco? 

É importante frisar que a generalização existe quando a maior parte daquele grupo apresenta determinado comportamento. E ela é necessária para definir como esse grupo se apresenta e como ele está atuando. Exceções existem e sempre irão existir. Mas nenhuma vítima de racismo deve deixar de denunciar as violências – físicas ou psicológicas – as quais foi submetido só porque uma ou outra pessoa daquela instituição não agiu assim. Vale ressaltar que o silêncio não é uma boa forma de dizer que você é contra uma atitude, principalmente em situações nas quais a ação discriminatória de um indivíduo está relacionada com o ambiente que você frequenta e, consequentemente, irá atingir a você mesmo e a todos os membros dessa instituição (no caso do cristianismo isso é ainda mais grave porque muitos racistas fazem uso da própria religião e da Bíblia para justificar seus preconceitos). 

Se a maioria dos evangélicos não fosse racista, não haveria conivência em discriminar indivíduos negros dentro de um culto. Se a maioria dos evangélicos não fosse racista, não teria sido necessário que eu exigisse um posicionamento dos meus colegas com relação a declarações racistas que vários deles já estavam cientes, a manifestação e a defesa seria algo natural (e até cristão).

Se a maioria dos estudantes de Arquitetura e Urbanismo não fosse racista, eles estariam mais preocupados em cobrar punição aos autores do crime do que em se defender, ficariam mais chocados com o fato de uma estudante ser discriminada por motivações raciais do que em serem identificados como uma instituição que é sim racista. 

Aos indivíduos não racistas que pertencem às instituições que comumente são identificadas como racistas, acredito que a generalização não se apresenta como uma ofensa, mas sim uma possibilidade de expôr uma realidade que precisa ser modificada. Inclusive essas são as pessoas que são favoráveis a exposição desse tipo de situação, com a esperança de que algum dia apareça uma mudança.

Aos indivíduos que se dizem não racistas (lembram que 90% dos brasileiros afirmam existir racismo no Brasil, mas somente 10% se assumem como tal?): onde estão esses indivíduos quando a manifestação discriminatória está acontecendo? Se a instituição da qual você faz parte realmente não for racista, não é tão difícil assim calar a voz de quem não representa a maioria, certo? Até lá, vamos continuar generalizando pelas manifestações mais comuns. Se no meio do caminho você se assustar e perceber que sim, as acusações e as generalizações estão corretas, a caixa de mensagens está aberta para um pedido de desculpas.

E lembre-se: ser acusado de racismo não é mais grave do que ser vítima dele. 

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