Nega maluca: black face é racismo!

O país do Carnaval é o país da brincadeira. E durante o Carnaval a brincadeira mais aclamada é a “Nega Maluca”. Um homem branco, se veste de mulher negra, pra que as pessoas possam dar risada dele. Sim, porque ser mulher e negra deve ser muito engraçado.

Mas no país do Carnaval, onde eu estou acostumada a ver a versão brasileira do black face “apenas” durante o Carnaval e talvez durante algumas festas a fantasia, eis que me deparo com a versão extravagante da chacota no meio da Marcha das Vadias, em Curitiba. O responsável me disse se tratar de uma homenagem, uma representação. E é aqui que eu, enquanto mulher negra quero ensinar uma coisa a todos os homens brancos que acreditam serem capazes de me representar.

Você sabe o que é ser mulher? Você sabe o que é ser mulher negra?

A origem do black face é facilmente encontrada em qualquer site de busca, o retrato caricato do indivíduo negro, com reforço de esteriótipos criados e perpetuados pelo homem branco. A tentativa de padronização dos nossos corpos, do nosso cabelo, da nossa pele. Além da forma pouco sutil e muito eficaz de manter atores negros longe dos palcos. As peças eram geralmente de chacota. O foco da risada: o personagem “negro”. O público alvo: sulistas estadunidenses em sua maioria, ex escravistas

Vou ressaltar que o objetivo original do black face era não somente a ridicularização do ser negro através de uma caricatura exagerada, mas também impossibilitar que indivíduos negros fossem capazes de representar a si mesmos.

Quando trazemos esse contexto para o cenário brasileiro e fazemos uma analogia à personagem carnavalesca Nega Maluca temos um agravante na história: a caricatura de uma mulher negra, hiperssexualizada, encarada como moeda de troca para o turismo sexual. O black face dos Estados Unidos reforça o esteriótipo do negro ridicularizado, a Nega Maluca do Brasil reforça o esteriótipo da “mulata exportação”.

Dentro dessa análise, como é possível que um homem branco, vestido de mulher e com tinta preta no rosto (exceto em volta dos olhos e da boca, qualquer semelhança é mero reforço de esteriótipo) seja capaz de estar fazendo uma homenagem a nós, mulheres negras, no meio de uma manifestação que pede o fim da violência contra a mulher e a liberdade sobre os nossos corpos?

Black face não é homenagem em contexto algum! Black face é racismo! E se vestir de mulher enquanto pratica o black face é dar voz ao patriarcado racista que ridiculariza nossos traços étnicos, que nos paga menos pelos mesmos serviços, que nos negligencia em atendimentos médicos, que vende nossos corpos como atrativo turístico e depois nos impede de realizar abortos.

Eu não quero homenagem racista e muito menos quero que um homem branco diga que está me representando. Nós somos capazes de nos representar. A mulher negra é força, a mulher negra é garra, a mulher negra é resistência. E nenhum homem branco com o rosto pintado será capaz de representar o que minha ancestralidade carrega dentro da minha pele. Nenhum homem branco nunca vai entender o que é o peso do machismo e do racismo tentando me levar pra baixo dia após dia. Nenhum homem branco vai me dizer que está me representando enquanto se utiliza de uma ferramenta racista histórica.

Ser mulher não é vestir saia uma vez por ano. Ser mulher negra não é pintar a cara com tinta preta.

Eu sou a mão que lava as feridas que não são mais causadas por açoite, mas por coronhada.

Eu sou a música que alegra o teu samba, esquenta tua cama, mas é trocada pela loira na hora de ser apresentada pra família.

Eu sou o grito da mãe que perdeu o filho pra guerra no morro.

Eu sou o choro da esposa que clama pelo retorno seguro do marido até em casa.

Eu sou a voz que reza por justiça para todos os meus que, apenas por serem negros, são tratados como inferiores.

Eu sou a mão que vai pesar na tua consciência toda vez que você pensar em ridicularizar minha raça.

Racistas não passaram, racistas nunca passarão!

E sai da frente com sua tinta guache preta, que EU to passando com a minha cor!

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10 comentários sobre “Nega maluca: black face é racismo!

  1. Na boa… você está MUITO doente mentalmente. E não foi o patriarcado, o homem branco, o caralho a quatro que criaram isso. Perceba o quanto ódio e burrice existe nos seus conceitos, e vá se tratar. Idiota.

    • O único doente aqui é você, que perde tempo destilando ódio em cima dos outros. Pra que tanto ódio no coração? Doeu alguma coisa que eu eu falei? Porque se a carapuça serviu eu fico muito feliz que minha mensagem esteja chegando a quem precisa.
      Quem define o que é racismo somos nós negros. Não gostou entra na fila.

      • Não sou eu quem tem um blog pra destilar ódio em cima dos outros… “Quem define o que é racismo somos nós negros”. Pfff, caraca, o que é racismo pra um negro pode não ser pra outro. Mas dificilmente terei sucesso em argumentar com você – cega numa ideologia paranoica.

      • Você é tão problemático que se preocupa mais com uma mulher negra SE DEFENDENDO do que com as violências que eu denuncio aqui pelos meus textos. Não estou atacando, estou me defendendo.
        Agora, seria ótimo se pessoas como você parassem para pensar qual é o motivo que os leva a se irritar mais com uma vitima de racismo criando ferramentas de defesa do que com todos os indivíduos que já praticaram racismo contra a minha pessoa e contra diversos negrxs por aí.
        Você tá perdendo o seu tempo, escrevendo mensagem de ódio para alguém que além de consciente está se esforçando para conscientizar outras pessoas. Não to vendo você escrevendo mensagem de ódio pra racista. Por que será?

    • Concordo, a maioria dos brasileiros não entende o problema por trás disso, ainda tem muito trabalho a ser feito por aqui.
      Sempre quando falam em black face a primeira personagem que me vem à cabeça é a Adelaide mesmo.
      Obrigada por compartilhar os textos!

  2. Concordo totalmente com você, Stephanie. Apesar de ter descendência negra por parte de pai, não tenho a pele e não carrego nas costas como você e como todas as negras, a dor de um passado escravo e racismo até nos dias atuais.
    Fico extremamente ofendida quando os humoristas brasileiros tentam “caricaturizar” toda uma raça, uma cultura com maquiagem escura e ridicularizar os traços étnicos.
    Outra coisa que ando percebendo na televisão (não só brasileira) é essa mania de colocarem pessoas que não se encaixam num determinado perfil pra interpretar um personagem totalmente diferente deles. Quem interpreta uma mulher negra na novela? Uma mulher branca pintada. Quem interpreta uma mulher trans* no filme? Um homem cis vestido de mulher. Quem interpreta uma mulher gorda na série? Um homem com enchimento na barriga.
    Por que não colocar pessoas cabíveis e compatíveis com os personagens? Por que tanto preconceito? Por que tanta desvalorização de outros artistas que estão fora do padrão Hollywood? Essas perguntas, confesso que não sei e nunca vou saber responder e nem entender.

    • Pois é Carolina, parece que o preconceito é tão grande, que nem quando a personagem exige um indivíduo negro, trans, gay, as emissoras conseguem dar visibilidade para eles. É melhor contratar um branco e pintar a cara, um cis e “caricaturizar”, um hetero e pedir pra “efeminar”.
      Nesses momentos em que há o espaço perfeito para representatividade e visibilidade, mais silenciamento. Tá feio isso.

  3. Muito obrigada pelo texto!
    Ser mulher nesse país machista não é fácil, disso eu sei e posso falar.
    Sobre o racismo, eu só tenho a aprender, pois quem realmente sabe é quem sofre.
    E a voz de quem sofre não pode ser calada, você faz bem em rasgar esse silêncio que nossa sociedade empurra.
    Todo o tipo de preconceito deve ser desconstruído!
    Eu não sei como ajudar a destruir o racismo, mas toda vez que leio textos que me fazem ver o quão importante é lutar dentro de mim para não ser hipócrita de ser feminista, mas perpetuar outros tipos de preconceito e discriminação, vejo que existe esperança.
    Não sei se me fiz entender. Eu luto todos dias comigo mesma para não perpetuar as doenças culturais que são passadas de geração em geração e o racismo é uma delas.
    Como eu posso lutar contra o racismo sem vivenciá-lo? É possível?

    • Olá Georgia, obrigada pelo comentário. Se você é uma pessoa branca eu acredito que seu lugar na luta contra o racismo é usando seus espaços de fala pra desconstruir o racismo de outras pessoas brancas. Vocês tem privilégios que nós não possuímos e dessa forma acho importante que se usem deles para passar a mensagem anti racismo.
      Abraço!

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