Não lute por um país sem cotas, lute por um país que não precise de cotas!

Alô Folha de São Paulo.

Aqui quem fala é uma mulher negra, criada na periferia de Curitiba, que aprendeu a ler e fazer contas em escola pública. Filha de uma mulher negra, que conseguiu ser aprovada e se formar em Administração pela UFPR, e algum tempo depois, conquistou uma vaga em um cargo público de nível federal. Filha de um homem negro, que veio do interior do Mato Grosso, concluiu o Ensino Médio e embora não tenha consigo terminar a faculdade que iniciou, também conseguiu uma vaga em um concurso público, de nível estadual.

Essa mulher negra, quando ainda era menina, perdeu 2 anos de sua infância estudando para conseguir uma vaga no Colégio Militar de Curitiba. Sem cursinho especializado, estudando em escolas públicas, usando os livros antigos dos seus pais que lhes davam aulas de matemática e português. Ela consegui a vaga na segunda tentativa: 36ª colocação.

Quando essa menina entrou em contato com as pessoas que eram aprovadas naquele tipo de concurso, ela levou um choque. Foi naquele momento, com 11 anos de idade, que ela percebeu que ser pobre e negro é injusto. Quem conquista a vaga de uma forma esmagadoramente assustadora são os brancos que só conhecem o CIC, bairro periférico onde ela foi criada, pelos noticiários.

Ela conquistou sua vaga em um dos melhores colégios do Estado do Paraná. Seus pais conseguiram um emprego estável e, consequentemente, ascensão social. Ela se lembra de quando sua mãe não tinha dinheiro pra comprar coxinha e coca cola que ela tanto pedia. Hoje ela tem um cartão e pode ir ao mercado comprar quantas garrafas de refrigerante quiser. Ela se lembra de quando seu pé doía no tênis apertado. Hoje ela tem dois guarda roupas dentro do quarto pra dar conta de tanta roupa que ela pode comprar. Ela se lembra de dormir em uma casinha construída no terreno do avô com 3 cômodos. Hoje ela mora em uma casa com 5 banheiros.

Seria fácil pra essa mulher negra, Folha de São Paulo, dizer que ela é contra as cotas raciais. Ela é exceção. Ela ganhou na loteria.

Mas não, essa mulher negra sabe olhar para além da sua realidade. Essa mulher negra sabe que enquanto ela estava aprendendo álgebra na cadeira almofadada do Colégio Militar, o racismo institucional estava aprovando o homicídio de mais um menor de idade negro. Essa mulher negra sabe que enquanto ela tinha aulas de ginástica rítmica no contra turno, uma menina negra menor de idade estava começando a limpeza na casa de uma família branca. Essa mulher negra sabe que enquanto ela aprendia biologia em um laboratório equipado, um desempregado negro estava saindo do RH da empresa que ele tanto sonhava em trabalhar, porque não se encaixava no perfil da companhia.

Muito além disso, essa mulher negra também sabe que o racismo é tão eficaz que mesmo negros que vivenciam ascensão social, continuam sendo vítimas do racismo. Ninguém precisou contar. Ela vive isso todo dia.

Essa mulher negra sabe o quão desonesto é utilizar a imagem de outra mulher negra para se dizer ser contra cotas raciais. Essa mulher negra está tentando não pensar que, se não fosse uma campanha desse cunho, os responsáveis provavelmente não teriam feito questão de ter uma pessoa negra  para essa foto e esse video.

Eu não precisei de cotas. Meus pais não precisaram de cotas. Mas nada disso importa, porque cotas raciais não dizem respeito a mim ou aos meus pais, dizem respeito à população negra. E a população negra, ela precisa de medidas para reparar as feridas históricas que foram feitas séculos atrás e que ainda não fecharam.

Aqui quem fala é uma exceção. Todos nós sabemos que a vida não é feita delas.

E o recado dessa exceção, não somente à Folha de São Paulo, mas a todos aqueles que se posicionam contra medidas afirmativas de inclusão racial: NÃO LUTE POR UM PAÍS SEM COTAS, LUTE POR UM PAÍS QUE NÃO PRECISE DE COTAS!

 

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10 comentários sobre “Não lute por um país sem cotas, lute por um país que não precise de cotas!

  1. Texto emocional mas mesmo assim coeso Téfi parabéns… O mundo não pode ser medido somente pela nossa história pessoal, o que a Folha esqueceu de notar foi isso. A ferida é mais embaixo.São séculos de opressão e as cotas na minha visão ainda são muito pouco para tudo o que nós foi feito e continua sendo feito nos dias de hoje mas é um começo e ah como os burgueses racistas se doem quando a pirâmide social comece a se mover né? hahahaha adoro ❤
    Bjão e continue na luta 😉

  2. Oi Sttephanie, me identifiquei muito com o seu texto. Eu vivo o mesmo que vc, outro dia estava comentando com meu pai sobre isso. Estava no banco na área de atendimento van gogh e reparei que nunca encontrei outro negro lá, por isso que acho que precisamos sim de cotas e tento me lembrar que casos como o seu e o meu, infelizmente, são regras e não exceção.

    Só senti falta de uma coisa no seu texto, o link para a publicação da FOlha que vc menciona. Vc pode me passar, por favor? =)

  3. Pingback: Estudar com a classe média, jogar bola com a periferia. | Falando sem permissão

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