Templo de $alomão: feito pra quem? – Por Lamya Rocha

O texto de hoje é uma contribuição da Lamya Rocha para o blog. A Lamya é uma pessoa que eu tenho a honra de chamar de irmã, sempre conversamos sobre questões religiosas e o impacto do cristianismo na realidade da população negra, jovem e periférica por termos esse histórico dentro da religião evangélica. Ela me enviou esse texto sobre o que ela vivenciou dentro da Igreja Universal, especificamente sobre a construção do Templo de Salomão, e eu pedi permissão para publicar aqui no blog.
Espero que gostem!

 

Sabe, não faço a linha de “falar mal” diretamente dessa ou daquela igreja, mas perante os episódios que circundam a inauguração do milionário Templo de $alomão, me sinto obrigada a expôr alguns fatos.

Bem, pra começar, falo com conhecimento de causa.

Participei da Universal durante mais ou menos 6 anos, o que corresponde a boa parte da minha adolescência.

Fiz parte do grupo de obreiros e da escola dominical – e exatamente por isso, por estar nessa “linha de frente”, é que posso discorrer os fatos sem passar por desonesta ou caluniadora.

Vou me ater aos eventos direcionados a construção do referido templo.

Não lembro exatamente em que ano começou a se falar sobre a tal construção grandiosa (2007, 2008 eu acho), mas me lembro muito bem da pressão que começou a se formar.

As campanhas, os pedidos de ofertas simplesmente saltaram.

Uma campanha específica, a Fogueira Santa – onde os fiéis são convocados a fazerem sacrifícios financeiros, que podem variar desde 500 reais até cifras milionárias, tipo milhões e milhões de reais – que ocorria regularmente 2 vezes por ano, passou a ter uma frequência de 4, 5 vezes por ano.

Agora vamos pensar o seguinte: o corpo de membros da universal é composta em sua maioria por pessoas humildes, inclusive os obreiros. Dá pra imaginar o estrago orçamentário que essas campanhas faziam?

Porque era aquele negócio: se você não participava, você era o incrédulo, o herege. Deus não ia te abençoar.

Quantas e quantas pessoas vendiam (e vendem) tudo o que tinham, pegavam todo o seu salário do mês pra pôr o dinheiro no envelope? Milhares.

Reiterando que fiz parte do grupo de obreiros, a pressão era triplicada. Éramos instigados a vender tudo, ainda que isso implicasse prejuízos financeiros e familiares, em troca de uma benção maior.

Ademais da Fogueira Santa, tinham também as campanhas menores e corriqueiras, as ofertas diárias, onde lembro claramente do pastor dizendo: “coloque aqui sua moedinha pra ajudar na construção do templo, vai ser um lugar pra todos nós”.

O templo foi erguido, com um custo aproximado de 680 milhões de reais, com tudo do bom e do melhor.

Mas e esse melhor foi construído pra quem?

Na última semana, a IURD publicou um guia de vestimentas a serem usadas no templo. Entre as muitas proibições, estão restritos o uso de calça jeans, chinelos, bermudas e mochilas.

E tem mais: o templo só pode ser visitado em excursões organizadas pela IURD, onde deve-se adquirir um ingresso, que tem o preço médio de 40 reais.

Então eu me pergunto: as moedinhas daquelas senhorinhas humildes que eu via na igreja, que muitas vezes não tinham um sapato fechado pra usar serviram pra ajudar erguer o templo, mas as mesmas senhorinhas tem de pagar se quiserem conhecer o mesmo? Não era pra ser um lugar de fé e comunhão, onde todos seriam aceitos sem distinção? Aliás, não tem versículo que diz que Deus não faz acepção de pessoas e outro onde ele diz “vinde como estás”?

Outra coisa: Jesus não era o cara rrevolucionário, que andava com os coxos, leprosos e mendigos? Então se um morador de rua passar na frente do templo e sentir-se tocado a entrar, será barrado por não estar de acordo?

Isso tudo tem um nome: desonestidade.

Desonestidade desses caras que fizeram e fazem fortuna em cima da fé alheia, mas nunca tiveram a menor consideração para com aqueles que lhes sustentam (muitos não sabem, mas pastores da universal não trabalham fora, recebem uma ajuda de custo, de acordo com seu cargo na hierarquia. E usam carro da igreja, aluguel pago pela igreja. Tudo isso sustentado com dinheiro dos fiéis).

Tive sorte de ter conhecido a verdade e ter pulado fora desse circo de horrores, mas e quantos não tiveram? Quantos ainda estão (e infelizmente vão continuar) sendo enganados?

templo

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2 comentários sobre “Templo de $alomão: feito pra quem? – Por Lamya Rocha

  1. Muito boa essa reflexão!!!
    A salvação pra quem dá mais sempre foi pregada com ênfase nesta igreja… conheço pessoas que davam salários inteiros e hoje vêem a igreja com tudo e eles continuam sem nada.
    Numa campanha destas citadas por você, lembro que ano passado o primo da minha esposa doou para ser “queimado” na fogueira santa o carro dele… gostaria de ver se o carro foi queimado ou quem será queimado no lugar do carro!

    Grande abraço e graças a Deus que você desvendou seus olhos!!!

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