Estudar com a classe média, jogar bola com a periferia.

Algumas pessoas me chamam de extremista. Muitas não entendem de onde vem minha vontade de lutar contra injustiças. Algumas acham que não faz sentido eu estar tão revoltada. A verdade é que eu estou revoltada a muito tempo.

Fui criada na periferia de Curitiba. Apesar dos incontáveis esforços que meus pais realizaram para me manter longe de casa (e da rua) tanto quanto fosse possível, eu não fiquei imune ao que acontecia ao meu redor. Eu sabia que a vizinha da casa do lado tinha fugido do ex-marido porque ele vivia batendo nela, eu sabia que aquele piá que tinha crescido jogando bola comigo na rua já estava usando drogas, eu sabia que a filha daquela outra conhecida estava grávida e o “pai” da criança tinha sumido. Coisas cotidianas, você não precisa crescer no CIC pra saber disso. Mas eu também sabia que quando alguém estourava fogos significava que a droga tinha chegado, eu sabia que nenhum dos meus amigos ficava muito tempo na rua depois que a polícia aparecia, eu inclusive percebi que a polícia estava ali quase que o tempo todo, menos quando alguém era assassinado, menos quando roubaram a minha casa. Para conhecer isso, você tem sim que subir o morro (ou atravessar o Contorno Sul, a pé, sem passarela).

Como eu já expliquei em outro texto, faço parte da exceção negra de origem periférica: eu consegui, na segunda tentativa, sem cursinho específico, uma vaga no Colégio Militar de Curitiba. Lá estava eu, com 11 anos de idade, quebrando a regra imposta pelo racismo institucional e conquistando um espaço que não foi feito para mim. Para quem não sabe, a concorrência para entrar em Colégios Militares é devastadora, principalmente quando levada em conta a idade dos concorrentes. No meu ano de aprovação, a concorrência era maior do que quando prestei vestibular para Direito na UFPR. Não existem cotas. Juntem essas informações e criem o espaço elitista das vagas reservadas a filhos de civis (até hoje eu não entendi como funciona o acesso a vagas para filhos de militares então vou me ater a comentar sobre o que eu sei).

O recorte racial para mim não foi tão impactante: eu sou curitibana. Mas o abismo social eu senti já no começo. Eu era uma criança, eu não estava pronta. Eu lembro que meu pai foi na primeira reunião com o Comandante e voltou falando “Precisamos comprar um computador, o Comandante disse que não dá pra estudar aqui sem computador” e alguns meses depois eu tinha computador em casa. Internet discada por muitos anos, mas eu tinha como fazer pesquisas e digitar meus trabalhos.

Eu não lembro quando foi que eu contei, mas eu tenho certeza que foi na inocência e que, na época, se eu soubesse as consequências que essa informação traria, eu teria guardado para mim. O fato é que em algum momento ficaram sabendo que eu era do CIC, e até então eu não tinha consciência do que isso significava para os curitibanos, até eu ver a cara de susto que as pessoas faziam quando tomavam conhecimento. Até então eu não sabia que também ia ser tratada de forma diferente por isso (racismo eu já conhecia e já estava esperando. Sim, com 11 anos), eu não fazia ideia de que pelos próximos anos eu teria que aguentar “piadas” agravadas por esse fato, praticamente todo dia.

Como eu era criança, engoli mais do que eu era capaz a fim de me adaptar ao ambiente. Muita gente achava que eu explodia por pouco, mas a verdade é que quando eu mostrava que tinha chegado ao meu limite, eu já tinha perdido ele a muito tempo. Muitos dos meus colegas não fazem ideia de quanto eu aguentei calada para não perder amigos, para não ser a chata do grupo, para mentir pra mim mesma e me fazer acreditar que aquilo era normal, que eu tinha que aguentar.

Eu lembro de estar andando na vizinhança da casa de uma amiga, uma viatura passar, e eu tentar entender porque ninguém começou a voltar pra casa, porque ninguém ficou com medo, porque a gente ainda estava dando risada, se tinha policial se aproximando? As diferenças gritantes que eu iria começar a observar me acompanharam por todos esses anos.

Foram anos vendo supostos amigos fingindo que tinham perdido a carteira e pedindo pra revistar minha bolsa, foram anos ouvindo comentários maldosos sobre o genocídio da população negra e periférica, foram anos sabendo que toda vez que uma viatura policial passasse, alguém ia gritar pra eu me esconder.

Me recordo de uma tarde, durante a final de um campeonato de futebol que estava sendo disputada com um colégio público e periférico, estar na torcida, gritando, aproveitando o momento para torcer pelo meu colégio, quando alguém começou a gritar “VOLTA PRA FAVELA!” e quando eu me dei conta, a arquibancada inteira estava gritando proara s torcedores do outro colégio, enquanto eu estava sozinha lá na frente, balançando os braços e pedindo pra pararem. Eu fazia questão de me posicionar como negra e periférica, todos os meus amigos sabiam disso, por que eles estavam gritando uma ofensa tão absurda? Meu lugar não era aquele, e mais uma vez, o grito da classe média foi eficaz pra me recordar disso.

Mais um dia de ofensas racistas camufladas de piada na sala, eu disse “respeitem a população negra, sem ela o Brasil não seria metade do que é hoje” e um dos racistas responde “tem razão, ele seria desenvolvido”.

Um professor muito querido por todos, que tinha táticas parecidas com os de cursinho pré vestibular estava dando aula. Um dos bordões dele para nos fazer lembrar das propriedades dos logaritmos era falar “dá um tapa na nega”. Alguns colegas se levantavam e me davam um tapa.

Aula de sociologia, professor falando sobre pobrezas extremas, colegas gritando “CIC” no meio das explicações.

Uma menina me irritando por semanas, para me tirar do sério ela apelou para racismo “neguinha fedida!”. Meti a mão na cara dela e só não foi pior porque um professore interveio. Eu estava quase sendo expulsa por comportamento, mas como o caso foi de racismo praticamente passaram a mão na minha cabeça, e eu acabei não levando o preconceito da filha de um oficial para as autoridades.

Aula sobre período escravocata, colegas dizendo “Téfi, você lembra disso???”. Passei o dia todo ouvindo cantarem Xica da Silva para mim.

Um namorado me conta “Antes de te conhecer a gente costumava dizer que você usa pó de feijão no lugar de pó de arroz”.

Entrando na sala de aula, colega se esconde atrás do outro e grita “Ai socorro a Téfi vai me assaltar”.

Eu acredito que vivenciar os extremos das duas realidades foi importante de certa forma, acredito que eu talvez não estivesse no lugar de militância no qual me encontro hoje se não tivesse passado por situações onde os extremos opostos se manifestavam. Mas lembrem-se, eu tinha 11 anos quando isso começou. Eu perdi a conta de quantas vezes eu engoli meu orgulho, minha raiva e até o meu choro. Muitos dos meus amigos mais próximos da época não fazem ideia de que eu me recordo desses episódios e que eles me causam dor até hoje.

A importância de expôr casos tão pessoais e que me causam profunda dor:

1) Não existe fim do racismo com ascensão social ou conquista de espaços até então reservados à população branca.

Ninguém vai te tratar como branco se você conseguir vaga em um colégio disputado, ninguém vai te tratar como branco se você for no shopping pela primeira vez com suas amigas brancas de classe média, nem os seus amigos brancos de classe média vão te tratar como branco. Porque raça não some com status social, e as relações de poder não vão te possibilitar exigir tratamento igual se você for negrx. E, principalmente, quando você ocupa um espaço que historicamente não é seu, as pessoas vão fazer de tudo (como fizeram comigo) pra te lembrar de que aquele não é o seu lugar.

2) Ignorar o racismo não faz com que ele seja menos doloroso. Muito menos com que ele desapareça.

Aos amantes do discurso Morgan Freeman eu posso dizer com propriedade: todas as vezes em que eu fingi que não estava sendo vítima de racismo, eu sofri em dobro. Sofri por saber que estava sendo discriminada e mesmo assim me obrigar a ficar quieta, sofri por ver pessoas que eu considerava como irmãos me inferiorizando pela minha raça, sofri porque eu sabia que era inteligente o suficiente para calar a boca deles, e mesmo assim, guardei minha opinião para mim.

3) O combate ao racismo nas escolas é de extrema importância, mas não está sendo realizado.

A escola, como instituição fundamental na formação do caráter do indivíduo (inclusive os Colégios Militares, que se orgulham muito de ensinar a moral e os bons costumes) deve exercer seu papel no combate à discriminação racial e de origem social. Não apenas com a implementação da Lei 10.639, mas também com capacitação dos profissionais, para que diante de casos como os que eu citei, haja atividades no sentido de combater efetivamente a ideologia racista tão presente entre a sociedade brasileira.

4) Estabelecer cotas para alunos negros e de escola pública é só o primeiro passo para resolver o problema.

Não adianta apenas garantir vaga para esses estudantes se o ambiente no qual eles terão que estudar é tóxico e irá apresentar casos de violência psicológica com tanta frequência. Apenas a implementação de cotas não é suficiente, é necessário um trabalho pesado para garantir que esses estudantes darão conta de continuar na instituição, desconstruir a naturalização do racismo e do preconceito de classe, garantir condições materiais para que o acesso à Internet, por exemplo, não seja mais uma forma de exclusão social.

5) A periferia me ensinou mais do que o colégio.

Em partes porque quando estava em sala de aula muitas vezes eu tinha que lidar com essas situações, mas eu posso garantir que letras de Rap me ensinaram mais sobre as consequências da divisão social do trabalho do que qualquer aula sobre teoria marxista. Presenciar a violência policial me fez aprender qual a origem e a função dessa instituição sem precisar pesquisar no computador que meu pai comprou. E jogar bola com o pé descalço na rua me fez muito mais resistente do que treinos de atletismo em uma pista com instrutor. É irônico, quando eu olho pra trás, perceber que a cultura periférica e o local onde eu morava eram motivo de riso para aquelas pessoas. Qualquer morador da periferia sabe muito mais da vida do que meus colegas que hoje se encontram em Universidades Federais, ou em algum país da Europa recebendo bolsa do Ciência Sem Fronteiras.

6) Discriminação nunca é inofensiva.

Talvez levem alguns anos para as vítimas se manifestarem, como eu fiz, algumas nunca terão a coragem de abrir a boca e afrontar seus agressores, sejam eles conscientes da violência que lhe estão impondo ou não.  Sempre restam sequelas, e as sequelas não estão nos olhos de quem vê.

7) Se considerar amigo de uma pessoa negra não te torna imune de ser racista. 

Dispensa explicações.

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30 comentários sobre “Estudar com a classe média, jogar bola com a periferia.

  1. Olá! Vou dar minha opinião aqui. Semana passada fiz um post sobre o racismo. Sou loira, tenho olhos claros, descendente de alemães. E aí, já vem alguém e fala: o que que essa branquela entende de racismo? Entendo sim, e acho um grande absurdo, é um dos comportamentos que mostra o quanto o ser humano precisa evoluir. No meu post falei sobre autoapreciação, autovalorização e autoaceitação. Creio que uma criança que recebe dentro de casa estímulos que a façam perceber o quanto ela é linda e especial, o quanto a cor da sua pele é maravilhosa, e que ouça elogios sinceros como estes diariamente, vai desenvolver uma autoestima altíssima. E é impossível comprar a ideia de que possa haver algo de negativo na cor da sua pele se você a ama verdadeiramente. Lembro que quando criança eu (como a maioria das crianças com baixa autoestima) também sofria bulling (é assim que escreve?), e lembro que muitas piadinhas doiam, mas quando falavam da cor da minha pele “branquela azeda” “mandioca descascada” “enferrujada(eu tenho sardas)”, isso não era ruim, e era porque, mesmo eu não tendo os pais mais carinhosos do mundo, eu não recebendo todos esses elogios diários que acho importante pra que uma criança se fortaleça, a cor da pele ser branca era uma característica positiva aos olhos da minha família. Tenho uma filha de 12 anos, ela tbm é loira, mas tem traços de negros e índios, que vieram do pai (ela é linda), sempre elogiei muito minha filha, desde o seu promeiro instante de vida. Quando ela foi transferida para o CEP, começaram a chamar o cabelo dela de “cabelo de miojo”. Resolvi isso em pouco tempo, e hoje ela usa o cabelo ainda mais volumoso, ele é seu motivo de orgulho, principalmente a parte da frente que já nasce enroladíssima. O racismo tem que ser combatido sim, mas sem o ódio, a mágoa, o ressentimento, não se combate negatividade com mais negatividade. Traumas de infância e adolescência precisam ser tratados e curados, sanados. O mundo precisa se tornar mais amoroso. Autoconhecimento. Chega de sentimento de separação. Somos todos Um, independente de raça, credo, gênero. Sem sangue nos olhos. Vamos ensinar ao mundo e principalmente às nossas crianças, que o simples gesto de se posicionar, firme e objetivo, opinar com clareza e defender suas características já é o suficiente e muito mais efetivo. Não precisamos de mais hostilidade, o mundo já está saturado de energias negativas. Vamos Ser Amor! Grande abraço

    • Oi Beatriz.
      A questão aqui é que se você é contra racismo e quer se posicionar contra ele, sua função não é falar para indivíduos negros como eles devem agir. Isso inclui tanto o seu texto sobre autovalorização (você não é negra, como vai falar pra mim que eu tenho que me valorizar?) quanto o seu comentário de que o racismo tem que ser combatido desse ou daquele jeito. A função do branco na luta contra o racismo é conscientizar outros brancos em espaços onde nós, negros e índios, não temos voz. Use seu espaço para conscientizar, não tente colocar regras sobre uma opressão que você não vivencia.
      Sobre os apelidos com relação à sua pele: sim, é bullying, e deve ser combatido. Mas não foi sobre bullying que eu falei no texto, eu falei sobre como o racismo institucional legitima o tratamento que indivíduos negros e de origem periférica sofrem quando ocupam espaços reservados para a população branca. Quando uma criança branca sofre com essas piadas, ela precisa de acompanhamento psicológico e de atuação da escola em conjunto com os pais, mas ela nunca vai perder vagas de emprego por causa dessas piadas, não vai ser confundida com bandido por causa dessas piadas, e não vai passar a ganhar salário inferior ao de pessoas negras por causa dessas piadas. Não existe espaço para comparar seu caso de auto aceitação com o processo de mulheres negras, são coisas totalmente diferentes e sim, para uma mulher branca é muito fácil dizer que “é impossível comprar a ideia de que possa haver algo de negativo na cor da sua pele se você a ama verdadeiramente.” quando crianças negras sequer se vêem representadas nos principais veículos de comunicação e, nos poucos casos em que isso acontece, é de forma pejorativa. Esses são só alguns dos motivos porque você não poderia falar sobre racismo da forma como fez, consegue perceber que por mais que você se esforce pra entender, nunca vai saber o que é estar no lugar de uma pessoa negra?
      “Vamos ensinar ao mundo e principalmente às nossas crianças, que o simples gesto de se posicionar, firme e objetivo, opinar com clareza e defender suas características já é o suficiente e muito mais efetivo.” Gostaria muito que a solução fosse simples assim, mas não é. Se o fosse, eu já estaria hoje livre do racismo. De novo, não tente falar sobre uma opressão que você não vivencia. Principalmente porque quem sofre com o racismo diariamente tem que ouvir dos outros para não ser violento, mas nós nunca ouvimos essas mesmas pessoas dizerem isso para o racista.
      Vamos combinar uma coisa? No seu posicionamento contra o racismo, toda vez que você for falar, fale PARA OS RACISTAS. Nunca pelas vítimas.

      • Nao posso agregar quase nada ao texto da Téfi, a explicacao foi perfecta. Beatriz, sugiro vc ler a definiçao de racismo do prof. Carlos Moor. Tambem precisa saber historia, sociologia etc.

      • Não separo as pessoas em grupos. Os racistas, os não racistas, os brancos, os negros, os amarelos… Quando falo, falo para todos, e creio que esse espaço está aberto ao público, então meu texto foi para todos. Como assim eu não posso falar com uma negra sobre autovalorização? Qual é o mal? Isso serve para todos. Separação, esse é o grande problema do sistema mecanicista que domina nosso mundo. Uns contra os outros. Divisão, grupos, egos… Não é nessa linha que acharemos a solução.

      • De novo, você não pode participar da luta por igualdade porque você sequer é capaz de respeitar o que indivíduos negros colocam como imprescindível para acabar com o racismo.
        Se você não consegue entender e respeitar o que eu, como mulher negra, estou te dizendo que é falta de empatia, então eu dispenso seu apoio. Sua atitude esta atrapalhando mais do que ajudando. Nosso movimento não foi feito pra branco dar ordens, vocês já fizeram isso por tempo demais e as consequências (algumas delas) estão expostas no texto. A luta é nossa, nós somos protagonistas, nós damos as diretrizes.

    • Oi Beatriz,

      Desde muito cedo meus pais me ensinarem que minha cor, cabelo, pele, e tudo eram lindos. Sempre um lar e pais extremamente acolhedores e tentaram me dar toda autoconfiança possivel.
      Passei pela mesma situação da Stephanie, sempre fui a menina negra que estudava na escola dos brancos. Eu até então não via nada de errado em ser negra ou crespa, por que sempre fui ensinada que isso era lindo, mas isso não impediu de que eu sofresse racismo, que me mostrassem que tinha algo errado em ser negra, que se eu cometesse um erro não era pela minha falta de capacidade, e sim pela minha cor. Não impediu que eu tivesse que sofrer com as mesmas piadinhas que ela, por que da mesma forma eu moro na favela. Não me impediu de perder oportunidade de empregos, de ser mal olhada na rua, de pedir pra verem minha bolsa pelo simples fato de eu ter entrado numa loja, de ser vigiada na loja tambem. Posso ser muito sincera, você nunca vai entender o que é sofrer racismo, mesmo que você se coloque no lugar de um negro, pelo simples fato de você ser branca. E sinceramente, gostaria de que o mundo fosse simples e amor vencesse tudo, acredito que é possivel, mas é necessario nomear sim. Concordo em genero numero e grau com ela no sentido de que vocês brancos que querem lutar contra o racismo, comecem dialogando em lugares que nós não temos espaço contra isso, não nos ensinado como reagir a isso.
      Bejios

  2. Excelente texto “Téfi” :-), particularmente não gosto muito e acho “perigoso” e por vezes ineficiente utilizar casos pessoais no combate ao racismo, mas o fizeste de forma tão serena e bem colocada que vejo como extremamente positivo o reflexo em quem tiver contato com ele. Parabéns !

    • É assim que eu alcanço as pessoas. No meu meio de convívio falar sobre o racismo de forma geral é menos eficiente do que usar casos pessoas.
      Só acho perigoso nesse caso frisar que eu fiz “de forma serena”, alguns negros reagem ao racismo de outras formas, e não quero correr o risco de deslegitimar suas reações dizendo que esta ou aquela é mais correta.
      Abraço!

      • 🙂 O “serena” não foi em relação a reações…,foi no sentido de saber dosar a emoção no relato, pois não ficou piegas e nem extremado ou “revoltado espumante”, ficou firme, contundente e efetivo…, essa “serenidade” é importante seja qual for o tipo de abordagem, cada um tem seu estilo, mas infelizmente muit@s companheir@s “erram a mão” e acabam dando “tiro no pé” (próprio e da causa) e isso no trabalho de conscientização não é interessante.

      • comparar o racismo e a exclusao que sofrem as crianças negras com o bulling que sofrem as crianças brancas por ter pecas ou “cabelo de miojo” nao é outra coisa que minimizar ou invisibilisar o racismo, ou seja, que é uma das formas mas perversas de ser racista.

  3. Primeiramente, parabéns pelo ótimo texto, precisamos de mais pessoas que façam isso, externem e opinem, se posicionem, na luta contra o racismo e qualquer forma de violação temos que utilizar todas as armas, e principalmente a arma do conhecimento.
    Me identifiquei fortemente com seu relato, assim como você, sou Curitibano, da periferia, e assistente social, obviamente não sou mulher e negro, mas trabalho e vivo essa realidade com meus usuários. Cursei uma universidade privada, com a burguesada em peso, meu bloco era o mais rançoso da universidade, e cotidianamente ouvíamos piadinhas de cunho racistas, machistas e conservadoras dos representantes da elite!!!
    E tem gente que acha que com piadinhas de qualquer natureza não reproduz o machismo, o racismo e as violências, por andarem com “pretos” estão longe de quaisquer crítica no que tange ao racismo.
    É muito importante reconhecer que o racismo existe sim, mais forte do que nunca, que ele mata diariamente, sem dó e nem piedade, que a maioria das pessoas mortas (e que vivem) nas periferias, são negras, que como diz nosso finado Sabotagem “não tem sorte com o meritíssimo”.
    Uma coisa que devemos pensar e fazer é punir veementemente esse tipo de gente, com exemplo vamos dissipando, mesmo que vagarosamente. Existe uma dívida histórica a ser paga,e que em nenhum momento ela começou a ser quitada, bem pelo contrário, esta se exacerbando e ainda assim estamos como estamos!
    Se não tivermos uma educação que liberte e forme integralmente o indivíduo, de nada vai adiantar…nossa educação e técnica, que só reproduz conhecimento para o mercado, e não forma a pessoa.
    Espero muito que a classe tome consciência de classe, se identifique com sua própria causa, se una, se fortaleça, assim como as mulheres, os negros, a comunidade lgbt, e todas as maiorias injustiçadas!!!!!
    Mais uma vez parabéns, deixo um pedacinho do Bertold Brecht:
    OS QUE LUTAM
    Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
    Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
    Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
    Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.

    Então, devemos sonhar, acreditar e lutar sempre, para que no futuro nossos filhos não precisem passar o que passamos.

  4. Oi Sthéphanie! Mais uma vez aprendi muito com você, com seu relato e tenho que agradecer demais por isso. É também por conta dos seus textos que a cada dia que passa me fortaleço como mulher negra e enxergo melhor o racismo no cotidiano. Eu, que depois de tanto tempo comecei a me desfazer fortemente de amarras racistas neste ano, aos 16 anos.
    Enquanto lia lembrei que há uns 6 anos atrás também fui alvo do racismo institucionalizado que me abalou muito. Eu que na época tinha 10/11 anos, estudava numa sala onde além de mim só havia um menino negro e só andava com meninas brancas, virei alvo de piadas e pertubação por uma novata, garota branca, nessa minha turma do colégio. Ela chegou e conquistou a confiança das outras, enquanto eu era afastada do grupo que havia convivido bastante tempo por conta dessas discriminações. De uma criança que apesar de tímida falava com todos, passei a reclusa e a me afastar deles. Sei que minha mãe achou muito estranho, conversou comigo e foi tirar satisfações no colégio. Não me recordo bem o que foi acordado, mas sei que a tal da guria nunca mais me incomodou, mas eu também não tinha forças mais pra me aproximar daquele grupo. Eu só fazia rezar pra que o ano terminasse e eu mudasse de escola, até porque não haveriam mais séries lá.
    Mudei, pra terminar o ensino fundamental, mas nem por isso a discriminação acabou (é claro! isso só no dia em que o racismo não existir mais!). Hoje estou no ensino médio desse novo colégio, preenchido pela classe média branca, sendo eu mais uma vez a única preta do ambiente, sem me ver representada nem pelos professores em geral, que não abrem espaço para discussão sobre racismo, e muito menos pelos comentários racistas vindos no meio de “piadas” de colegas. Porém, mais do que nunca, eu venho entendendo a minha a luta e já me posiciono, o que eu não fazia, tanto por mim, quanto pelas outras crianças negras naquela instituição. E a você, mais uma vez obrigada por me ajudar a abrir os olhos. Até mais! 😉

  5. Querida Beatriz sou branca, milito no movimento negro com toda dedicação que posso… Mas a verdade é: Nenhum branco jamais vai saber de verdade, o que é a dor do racismo por mais que se indignem com a violência do racismo… mas só os negros e negras saberão… Hoje eu entendo demais a importância dessa frase…

  6. Sim, Ana, dessa vez foi bom ler os comentários.
    Sou branca, pelo acaso genético, já que meu pai era o loiro em uma família que tem negros e índios numa mesma geração. Sempre entendi que minha cor é um privilégio. Em minha família mesmo a diversidade étnica brasileira não era por si e naturalmente motivo para não haver discriminação. Não existe um caminho “natural” de combate ao racismo, que é uma forma de violência e não apenas um “modo de pensar”. Portanto, esse combate se trava na educação, mas também na oposição e no antagonismo.

  7. Memórias, essas também me aprisionam a muitas fases da minha vida… (Qualquer dia eu passo para o papel.)
    Não precisei ir para uma escola privada (de negros) para viver tudo isso, só eu sei o que passei. Para amiga lá de cima, Bullyng é normal, todos passam por alguma característica mas, racismo, RACISMO não tem a ver com auto afirmação, confiança ou ser criados como anjos lindos…
    Quanto ao RACISMO só quem vive sabe o que é… É uma vontade de sumir, gritar, vomitar, chorar, matar, se matar, matar novamente, fugir de si, fugir dos outros.
    Mas agora são outros tempos, é tempo de gritar que passou da hora de acabar com essa palhaçada. Nunca mais vou me calar ao ver atos!
    Já me calaram muitas vezes, agora não mais!

  8. Amei demais o texto! Não sou negra, tenho um fenótipo branco mesmo sendo filha de uma negra! Mas por morar na periferia e ter ido estudar em um colégio um pouco melhor senti na pele muita discriminação, inclusive os Professores sempre me diziam: Conheço seu bairro pelas páginas policiais!

  9. Texto maravilhoso. Eu passei por racismo mesmo estudando em escola pública a vida toda, os brancos discriminavam e os negros reproduziam, então imagino que numa escola militar/particular deve ser muito pior. Na faculdade estudei em particular e foi um inferno os comentários implicitamente racistas por eu não ser a “negra aceitável”. As coisas que você pontuou aqui são muito válidas!

  10. Como muitos já falaram e deram opiniões sobre seu texto, vou me ater aos Colégios Militares; eu fui do CMRJ por 8 anos e interno. Sou oficial de carreira do Exército e sei como funciona as vagas para matrícula dos CMilitares. Uma das maneiras é a que vc fez, com concurso e matrícula normal; e a outra com matrícula para filhos de militares que foram transferidos no ano da matrícula, sem necessidade de exame, na série que o aluno cursava antes da transferência do pai.

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  13. Eu sou professora de educação infantil, em uma escola publica do Jardim Gabineto, que fica no Campo Cumprido…
    E realmente, mesmo em escola da periferia, é absurdo o tanto de racismo, de homofobia, de machismo, de opressões em geral, e as vezes, as crianças vem com umas frases prontas, do tipo: O cabelo dela não molha pq é muito enrolado né profe? Ou “tem que olhar mais vezes os cabelos enrolados, pq sao os que mais tem piolho, e mais difícil de achar” e se eu que sou branca, me ofendo e soa um alarme na minha cabeça ao escutar isso, imagina quem sofre isso todos os dias…
    Eu realmente não sei o que é ser oprimido assim, infelizmente, eu faço parte da massa opressora nesse caso, e sou a chata do grupo que briga pra não fazerem as piadas, pra entenderem as cotas, pra não falarem do movimento que eles não conhecem… E mesmo me policiando o tempo todo pra não destilar comentário ofensivo pra ninguém, minhas atitudes e meus privilégios infelizmente fazem isso. O seu texto é excelente, e espero que ele consiga atingir muuuiita gente, e que incomode mesmo, que faça as pessoas brancas colocarem a mão na consciência pra ver que não é só uma piadinha boba, ou só a minha opinião, é racismo sim, e tem que reconhecer, tem que se questionar e se posicionar. Obrigada e força na luta!

    • Olá Nycolly. Realmente, é alarmante como os preconceitos são passados tão cedo para as crianças. Acho importante fazer uso de sua função de educadora para desconstruir esses comentários, e continuar se posicionando. É um dos caminhos na luta contra o racismo.
      Obrigada por comentar, abraços!

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