Eu, Globeleza aos 5 anos (e porque “Sexo e as Negas” não me representa)

Demorei pra escrever sobre o novo seriado racista e misógino da Globo, em parte por falta de tempo, mas principalmente porque não tenho estômago nem paciência com esse assunto, então vocês me perdoem se esse texto estiver mal escrito ou não seguir a forma de escrita que eu costumo usar. Eu lido com o racismo da Globo desde a infância, assim como as demais mulheres negras deste país, e não entendo como algo que me incomodou tanto durante o início da minha vida ainda esteja presente e possa estar influenciando a auto estima das crianças negras de hoje.

Diz minha mãe que eu comecei a sambar muito cedo. Tinha um dom e gostava de mostrar “eu sei sambar, quer ver?”. Uma tia tem um vídeo caseiro em que eu estou comandando um grupo de meninas em uma festa de aniversário, fazendo caras e bocas, com 5 anos de idade. Eu lembro de passar horas em frente a um espelho com música ligada, dançando, sendo criança, sendo uma criança negra. Eu lembro quando me chamavam de Globeleza, e eu lembro do quanto isso me custou.

Com 5 anos de idade eu sabia exatamente quem era a Globeleza, eu sabia onde e quando ela poderia ser vista e, principalmente, eu sabia que ela era eu. Todos diziam isso, com um sorriso no rosto, como se fosse uma coisa boa. Mas aquela era uma mulher pelada na TV. Aquela era eu?

Eu cheguei em um ponto em que acreditava ser aquele o meu futuro. Lembro de pensar que minha profissão, quando eu fosse adulta, seria Globeleza. Porque todos diziam que eu tinha nascido pra fazer aquilo, todos só falavam isso quando queriam me elogiar, e isso se aliava ao fato de não haver muita variedade de representações para mulheres negras. O que eu poderia ser? Médica? Não. Você, Stéphanie, nasceu pra ser Globeleza.

Eu chorava. Me olhava no espelho, nua, e falava pra mim mesma que eu tinha que me acostumar, porque aquele era meu futuro. Como que eu ia tirar a roupa pra que as pessoas me pintassem, como que eu ia sambar e exercer minha profissão “na tela da tv e no meio desse povo”, se eu sequer tinha coragem de me olhar nua no espelho? Eu me obrigava a me olhar. E eu chorava.

Eu não queria ficar pelada na TV, eu só queria sambar. Mas a mídia racista, eficaz em hiperssexualizar o corpo da mulher negra, me fez acreditar que eu não tinha outra escolha.

Em algum momento eu percebi que aquilo era mentira. Em algum momento meus pais, que me incentivaram a estudar, me disseram que eu podia ser o que eu quisesse. Mas já era tarde, eu já estava machucada e traumatizada. O tempo passou, eu cresci, e quando os assédios na rua começaram, uma das coisas que eu  mais ouvia eram homens me chamando de Globeleza.

O que eu gosto de provocar quando entro nesse assunto é a seguinte reflexão: Quando uma mulher branca vai ser elogiada, alguém tem coragem de falar pra ela “Você é tão bonita que deveria tirar a roupa e ficar pelada pra agradar aos homens”? E se falassem, qual seria a reação dessa mulher? É exatamente isso que está por trás do ato de chamar uma mulher negra de Globeleza. Era disso que eu me lembrava toda vez que um homem invadia o meu espaço e gritava com todas as letras GLOBELEZA, pra rua inteira ouvir. E é isso que a sociedade e a mídia nos faz engolir quando alimenta a imagem da “mulata” de carnaval.

Como se isso não bastasse e a Rede Globo já não tivesse acusações de racismo suficientes, surge o novo seriado, “Sexo e as Negas”. Eu não vou entrar em detalhes pra explicar o racismo no título, na descrição das personagens e na forma como elas estão sendo retratadas, muitas feministas negras escreveram sobre isso, não vejo necessidade de acrescentar análise ao que já está bem escuro: o seriado é racista e alimenta sim os esteriótipos direcionados à mulher negra, principalmente o aspecto da sexualização dos nossos corpos.

A Globo sempre prestou um desserviço à mulher negra, eu sei porque vivi isso. A retratação da nossa imagem, assim como fez mal a mim, continua afetando a mulher negra brasileira, inclusive crianças. É necessário sim que se faça barulho, é necessário que a mulher negra que não se sente a vontade com a representação do nosso corpo erga a voz e diga BASTA.

Estou cansada desse racismo onde eu ligo a TV e a branca está nos espaços de poder, enquanto a negra é a empregada. A branca é princesa, a negra é Globeleza. A branca é pra casar, a negra é pra transar. A representatividade que tanto solicitamos não vai vir da forma como o racista quer nos representar. Não aceitaremos representatividade a qualquer custo e de qualquer forma!

De que adianta uma representatividade que me diz que as crianças brancas podem dançar, enquanto eu tinha que chorar porque não queria ficar pelada?

Sexo e as Negas não nos representa! - Grupo Afrocultural Ka-Naombo

Sexo e as Negas não nos representa! – Grupo Afrocultural Ka-Naombo

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8 comentários sobre “Eu, Globeleza aos 5 anos (e porque “Sexo e as Negas” não me representa)

  1. Olá stephanie. Tenho acompanhado seu blog e me identificado com vários textos seus, principalmente quando se refere a religião. tenho 16 anos, e sou obreiro da Universal.
    Sabe, no inicio eu fazia de tudo pela igreja, crendo que estava fazendo para Deus. Lutei muito para ser obreiro. Era o meu maior sonho. Mas após ser levantado, comecei a ver certas coisas que me deixaram estarrecido. Coisas que me fizeram até descrer a existência de Deus, e pensar como Deus pode permitir homens tão sujos estarem em um ambiente chamado “igreja”, e serem considerados “homens de Deus”.

    Uma fez, precisava falar com o pastor sobre uns assuntos do Grupo Jovem, e fui até a porta do escritório. Era um dia de semana a tarde, e nossa igreja é pequena. Provavelmente ele imaginava que não tinha mais ninguém na igreja. Quando estava prestes a bater na porta, ouvi ele conversando pelo nextel com um outro pastor. Meu pastor, que é viúvo, estava falando como ele não aguentava mais esperar por uma obreira pra se casar, e detalhando a forma com que ele se masturbava, pensando em uma obreira qualquer.
    Tentei não olhar pra isso. Afinal existem tomates podres em qualquer caixa. Mas só foram acumulando, mais e mais coisas que me fizeram descrer completamente na Universal.

    Conversei sobre isso com uma obreira, bastante antiga de obra, que já havia sido esposa de bispo, mas ele saiu da igreja se divorciaram. Ela me contou coisas terríveis que ela via no meio na obra. Grupos de pastores se reunindo e levando prostitutas. Inclusive pra aquela tal fazenda da igreja aqui no Rio, na qual só entram pastores. Entre outras coisas que se eu fosse citar poderia escrever um livro. Mas ela disse que procurava não olhar pra isso. Olhar apenas pra Deus. Mas não sei o que fazer

    Não tenho mais certeza se Deus existe. Ou porque Ele permite essas coisas. Meus pais não são da Igreja. Mas meus avós, meus tios, meus primos, são todos obreiros. Tenho medo que eles venham agir com indiferença comigo no caso de eu sair da obra e da igreja. Mas eu tenho sonhos e não quero ficar preso a uma religião na qual eu nem creio mais. O que eu faço?

    • Olá! Primeiro quero dizer que sinto muito que você tenha acumulado tanta decepção e tenha visto o lado mais nojento de um lugar que você provavelmente achou que seria um porto seguro.

      Infelizmente é verdade, em todo lugar existe tomate podre, mas acho que seria bom você rever se aguentar todas essas situações vale a pena, se o que você busca dentro da igreja vale a pena toda a decepção. Não existe religião perfeita, mas existe a melhor pra cada pessoa, se dentro da sua realidade o cristianismo é o melhor, talvez seja uma saída buscar outra igreja, as vezes uma igreja simples, sem tanto nome, vai te dar mais segurança e garantir que você mantenha sua espiritualidade. O que não vale a pena é continuar onde você está pelos outros.Família sempre tenta se meter, mas a vida é sua, então faça o que for melhor para você.

      Sobre a existência ou não de um deus, se você está se questionando talvez seja o momento de buscar outras fontes de sabedoria. Não sou eu quem vai te dizer que ele existe e você tem que crer, apesar de que agora eu tenha novamente uma religião, aprendi a respeitar a individualidade das pessoas. Você se decepcionou, é natural ter essas reações. Busque conversar com outras pessoas, conhecer outras igrejas e outras religiões e no final faça o que for melhor pra você.

      Principalmente: não se esqueça de resolver um problema de cada vez. Eu já passei por isso e sei que com uma dúvida surgem outras dez, tenha calma e sabedoria, uma hora tudo se ajeita.

      Espero ter ajudado. Abraço!

  2. Que fantástico que você existe, Stephanie! A tua descrição de “o que se sente” é precisa, explícita e direta. Precisamos nos confrontar com os paradigmas e com os conceitos naturalizados para podermos avançar socialmente, e você tem colocado alguns deles no seu blog.

    Parabéns!

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