Eu, Globeleza aos 5 anos (e porque “Sexo e as Negas” não me representa)

Demorei pra escrever sobre o novo seriado racista e misógino da Globo, em parte por falta de tempo, mas principalmente porque não tenho estômago nem paciência com esse assunto, então vocês me perdoem se esse texto estiver mal escrito ou não seguir a forma de escrita que eu costumo usar. Eu lido com o racismo da Globo desde a infância, assim como as demais mulheres negras deste país, e não entendo como algo que me incomodou tanto durante o início da minha vida ainda esteja presente e possa estar influenciando a auto estima das crianças negras de hoje.

Diz minha mãe que eu comecei a sambar muito cedo. Tinha um dom e gostava de mostrar “eu sei sambar, quer ver?”. Uma tia tem um vídeo caseiro em que eu estou comandando um grupo de meninas em uma festa de aniversário, fazendo caras e bocas, com 5 anos de idade. Eu lembro de passar horas em frente a um espelho com música ligada, dançando, sendo criança, sendo uma criança negra. Eu lembro quando me chamavam de Globeleza, e eu lembro do quanto isso me custou.

Com 5 anos de idade eu sabia exatamente quem era a Globeleza, eu sabia onde e quando ela poderia ser vista e, principalmente, eu sabia que ela era eu. Todos diziam isso, com um sorriso no rosto, como se fosse uma coisa boa. Mas aquela era uma mulher pelada na TV. Aquela era eu?

Eu cheguei em um ponto em que acreditava ser aquele o meu futuro. Lembro de pensar que minha profissão, quando eu fosse adulta, seria Globeleza. Porque todos diziam que eu tinha nascido pra fazer aquilo, todos só falavam isso quando queriam me elogiar, e isso se aliava ao fato de não haver muita variedade de representações para mulheres negras. O que eu poderia ser? Médica? Não. Você, Stéphanie, nasceu pra ser Globeleza.

Eu chorava. Me olhava no espelho, nua, e falava pra mim mesma que eu tinha que me acostumar, porque aquele era meu futuro. Como que eu ia tirar a roupa pra que as pessoas me pintassem, como que eu ia sambar e exercer minha profissão “na tela da tv e no meio desse povo”, se eu sequer tinha coragem de me olhar nua no espelho? Eu me obrigava a me olhar. E eu chorava.

Eu não queria ficar pelada na TV, eu só queria sambar. Mas a mídia racista, eficaz em hiperssexualizar o corpo da mulher negra, me fez acreditar que eu não tinha outra escolha.

Em algum momento eu percebi que aquilo era mentira. Em algum momento meus pais, que me incentivaram a estudar, me disseram que eu podia ser o que eu quisesse. Mas já era tarde, eu já estava machucada e traumatizada. O tempo passou, eu cresci, e quando os assédios na rua começaram, uma das coisas que eu  mais ouvia eram homens me chamando de Globeleza.

O que eu gosto de provocar quando entro nesse assunto é a seguinte reflexão: Quando uma mulher branca vai ser elogiada, alguém tem coragem de falar pra ela “Você é tão bonita que deveria tirar a roupa e ficar pelada pra agradar aos homens”? E se falassem, qual seria a reação dessa mulher? É exatamente isso que está por trás do ato de chamar uma mulher negra de Globeleza. Era disso que eu me lembrava toda vez que um homem invadia o meu espaço e gritava com todas as letras GLOBELEZA, pra rua inteira ouvir. E é isso que a sociedade e a mídia nos faz engolir quando alimenta a imagem da “mulata” de carnaval.

Como se isso não bastasse e a Rede Globo já não tivesse acusações de racismo suficientes, surge o novo seriado, “Sexo e as Negas”. Eu não vou entrar em detalhes pra explicar o racismo no título, na descrição das personagens e na forma como elas estão sendo retratadas, muitas feministas negras escreveram sobre isso, não vejo necessidade de acrescentar análise ao que já está bem escuro: o seriado é racista e alimenta sim os esteriótipos direcionados à mulher negra, principalmente o aspecto da sexualização dos nossos corpos.

A Globo sempre prestou um desserviço à mulher negra, eu sei porque vivi isso. A retratação da nossa imagem, assim como fez mal a mim, continua afetando a mulher negra brasileira, inclusive crianças. É necessário sim que se faça barulho, é necessário que a mulher negra que não se sente a vontade com a representação do nosso corpo erga a voz e diga BASTA.

Estou cansada desse racismo onde eu ligo a TV e a branca está nos espaços de poder, enquanto a negra é a empregada. A branca é princesa, a negra é Globeleza. A branca é pra casar, a negra é pra transar. A representatividade que tanto solicitamos não vai vir da forma como o racista quer nos representar. Não aceitaremos representatividade a qualquer custo e de qualquer forma!

De que adianta uma representatividade que me diz que as crianças brancas podem dançar, enquanto eu tinha que chorar porque não queria ficar pelada?

Sexo e as Negas não nos representa! - Grupo Afrocultural Ka-Naombo

Sexo e as Negas não nos representa! – Grupo Afrocultural Ka-Naombo

Mulher E negra. Negra E mulher.

Quando eu conheci o feminismo não sabia que ia precisar reivindicar espaço dentro de um movimento que se propõe a lutar por emancipação. O mesmo ocorreu dentro do Movimento Negro. Mas não precisei de muito tempo para perceber que dentro do movimento feminista, eu sou negra, e dentro do movimento negro, eu sou mulher. 

O que nós mulheres negras tentamos explicar dia após dia dentro dos movimentos sociais é que enquanto não houver conscientização sobre privilégios individuais, não irá existir sororidade, nem Poder Para o Povo Preto. Opressões não são unilaterais, elas se somam. Enquanto integrante do movimento feminista eu não posso nunca esquecer que sou negra. E enquanto integrante do movimento negro eu não posso nunca esquecer que sou mulher. Eu não posso me dar a esse luxo, porque todo dia, quando eu saio de casa, minha pele e meu gênero estão sendo jogados na minha cara para me inviabilizar.

Sabe quem pode esquecer a cor da própria pele? Pessoas brancas. Na verdade, pessoas brancas raramente são obrigada a sequer pensar que elas são brancas. Por isso é muito fácil para uma mulher branca me dizer que eu não preciso fazer recorte racial em debates feministas. Mas esse luxo é dela, não meu.

Sabem quem pode esquecer o próprio gênero? Homens. Homens não são lembrados constantemente que são homens, eles não são assediados unicamente por serem homens, não são menosprezados em debates por serem homens e não são vulneráveis a estupro por serem homens. Esquecer meu gênero eu não posso, porque ele é usado para determinar onde eu posso andar, quando eu posso falar e quanto (des)crédito eu vou ganhar por estar dando minha opinião sobre determinado assunto.

Nós, mulheres negras, não podemos nunca nos esquecer de que somos mulheres, nem de que somos negras. A sociedade nunca nos permitiu esse luxo. Porque então, dentro de movimentos sociais, muitas vezes somos cobradas a deixar uma das opressões de lado?

Onde quer que eu esteja, estarei reivindicando meu espaço como mulher. E onde quer que eu esteja estarei reivindicando meu espaço como negra. 

Eu não faço parte somente de um desses grupos, mas estou nas piores estatísticas de ambos! Pedir para que uma mulher negra deixe de lado um dos grupos do qual ela faz parte é o mesmo que dizer: eu não me importo que as duas opressões se somem no seu cotidiano, aqui você só pode falar sobre uma.

Hoje, dia 25 de julho de 2014, Dia Internacional da Mulher Negra Latina e Caribenha, eu venho através desse texto, não pedir permissão, mas avisar: Somos mulheres negras e não vão nos silenciar por sexismo e nem por racismo!

Não me importo se você é mulher e sofre opressão por isso, se você usar seu privilégio racial para me silenciar eu vou me defender. Não me importo se você é negro e sofre opressão por isso, se você usar seu privilégio de ser homem para me silenciar eu vou me defender igualmente.

Que esse texto seja usado para todas as opressões que se interseccionam e que nunca tentem te inviabilizar de modo algum! Que nós possamos juntas derrubar todas as amarras que nos seguram e romper todas as barreiras que nos foram impostas.

Mulher negra, somos irmãs, e é como irmãs que venceremos!

SALVE MULHER NEGRA! SALVE MULHER GUERREIRA!

Luciana e Andressa Tavares

Nega maluca: black face é racismo!

O país do Carnaval é o país da brincadeira. E durante o Carnaval a brincadeira mais aclamada é a “Nega Maluca”. Um homem branco, se veste de mulher negra, pra que as pessoas possam dar risada dele. Sim, porque ser mulher e negra deve ser muito engraçado.

Mas no país do Carnaval, onde eu estou acostumada a ver a versão brasileira do black face “apenas” durante o Carnaval e talvez durante algumas festas a fantasia, eis que me deparo com a versão extravagante da chacota no meio da Marcha das Vadias, em Curitiba. O responsável me disse se tratar de uma homenagem, uma representação. E é aqui que eu, enquanto mulher negra quero ensinar uma coisa a todos os homens brancos que acreditam serem capazes de me representar.

Você sabe o que é ser mulher? Você sabe o que é ser mulher negra?

A origem do black face é facilmente encontrada em qualquer site de busca, o retrato caricato do indivíduo negro, com reforço de esteriótipos criados e perpetuados pelo homem branco. A tentativa de padronização dos nossos corpos, do nosso cabelo, da nossa pele. Além da forma pouco sutil e muito eficaz de manter atores negros longe dos palcos. As peças eram geralmente de chacota. O foco da risada: o personagem “negro”. O público alvo: sulistas estadunidenses em sua maioria, ex escravistas

Vou ressaltar que o objetivo original do black face era não somente a ridicularização do ser negro através de uma caricatura exagerada, mas também impossibilitar que indivíduos negros fossem capazes de representar a si mesmos.

Quando trazemos esse contexto para o cenário brasileiro e fazemos uma analogia à personagem carnavalesca Nega Maluca temos um agravante na história: a caricatura de uma mulher negra, hiperssexualizada, encarada como moeda de troca para o turismo sexual. O black face dos Estados Unidos reforça o esteriótipo do negro ridicularizado, a Nega Maluca do Brasil reforça o esteriótipo da “mulata exportação”.

Dentro dessa análise, como é possível que um homem branco, vestido de mulher e com tinta preta no rosto (exceto em volta dos olhos e da boca, qualquer semelhança é mero reforço de esteriótipo) seja capaz de estar fazendo uma homenagem a nós, mulheres negras, no meio de uma manifestação que pede o fim da violência contra a mulher e a liberdade sobre os nossos corpos?

Black face não é homenagem em contexto algum! Black face é racismo! E se vestir de mulher enquanto pratica o black face é dar voz ao patriarcado racista que ridiculariza nossos traços étnicos, que nos paga menos pelos mesmos serviços, que nos negligencia em atendimentos médicos, que vende nossos corpos como atrativo turístico e depois nos impede de realizar abortos.

Eu não quero homenagem racista e muito menos quero que um homem branco diga que está me representando. Nós somos capazes de nos representar. A mulher negra é força, a mulher negra é garra, a mulher negra é resistência. E nenhum homem branco com o rosto pintado será capaz de representar o que minha ancestralidade carrega dentro da minha pele. Nenhum homem branco nunca vai entender o que é o peso do machismo e do racismo tentando me levar pra baixo dia após dia. Nenhum homem branco vai me dizer que está me representando enquanto se utiliza de uma ferramenta racista histórica.

Ser mulher não é vestir saia uma vez por ano. Ser mulher negra não é pintar a cara com tinta preta.

Eu sou a mão que lava as feridas que não são mais causadas por açoite, mas por coronhada.

Eu sou a música que alegra o teu samba, esquenta tua cama, mas é trocada pela loira na hora de ser apresentada pra família.

Eu sou o grito da mãe que perdeu o filho pra guerra no morro.

Eu sou o choro da esposa que clama pelo retorno seguro do marido até em casa.

Eu sou a voz que reza por justiça para todos os meus que, apenas por serem negros, são tratados como inferiores.

Eu sou a mão que vai pesar na tua consciência toda vez que você pensar em ridicularizar minha raça.

Racistas não passaram, racistas nunca passarão!

E sai da frente com sua tinta guache preta, que EU to passando com a minha cor!

Feminismo contra o racismo – Dia Internacional da Mulher Negra

Foi cedo que eu aprendi que meu cabelo não era o mesmo que o da mulher poderosa que aparecia na novela. Foi mais cedo ainda que eu percebi que as poucas mulheres parecidas comigo que surgiam na minha TV estavam sempre com pouca roupa, rebolando, sempre com um sorriso no rosto. Foi cedo de mais que eu vi no rosto da empregada doméstica brasileira o meu reflexo. Ainda era cedo quando eu escutei a primeira observação em voz alta sobre a minha “bunda de negra”. Também era cedo quando eu ouvi um “preta gostosa” do pai de família (branca) que passou por mim naquele dia. Era cedo, na minha vida amorosa, quando um namoradinho qualquer deixou claro que eu ficava feia com o cabelo crespo. O mesmo namoradinho que ria da minha boca grande. O mesmo que achava engraçado eu ser negra, mas ser tão magra desse jeito (mas ela tem bunda, né cara?).

Do que exatamente eu estou falando? Você ficou confusx e não conseguiu definir se esse texto é sobre machismo ou sobre racismo? Eu também. Eu estou confusa desde muito cedo.

Ser mulher no Brasil significa que o machismo está presente todo dia, jogado na sua cara, claro como os olhos lindos daquela modelo famosa que representa o Brasil nas passarelas internacionais do mundo da moda, ser mulher negra no Brasil significa passar a vida inteira tentando descobrir se você está sendo inferiorizada por ser mulher, ou por negra. Já era tarde quando eu percebi que o motivo era uma união dos dois.

Na minha rotina é muito complicado perceber até onde vai o machismo e onde começa o racismo (e vice-versa), porque a forma como ambas as discriminações são direcionadas a mim é entrelaçada. Não é comum casos onde a distinção é clara, eu mesma tenho um único exemplo (que vai ser copiado de uma publicação do meu Facebook):

Estava na frente do shopping onde eu trabalho esperando pelo meu namorado. Um carro passou pela minha frente com um cachorrinho lindo latindo pra um grupo de pessoas. Eu dei risada, para o cachorro é claro. Acontece que as pessoas que estavam atrás de mim era um grupo de homens. Os primeiros passaram por mim normalmente mas o último da fila continuou dando risada e passou a mão no meu braço. Quando ele virou pra trás pra falar alguma coisa eu nem deixei ele abrir a boca e falei bem alto pra ele tirar a mão de mim porque eu não tinha dado essa liberdade pra ele e nem pra ninguém. Ele realmente tirou a mão, mas soltou a seguinte frase: “Sua macaca nojenta! Você acha que alguém aqui vai olhar pra você sua pretinha?”

Neste dia foi possível não somente diferenciar de forma clara até onde o cara foi apenas machista e o momento exato em que ele passou a usar um discurso racista, como também ouvir em alto e bom som “SOU RACISTA”, sem rodeios, sem se esconder atrás de “é só uma piada, relaxa”, coisa que não é comum vermos no Brasil. Aqui o racismo não é explícito porque é mais importante combater a ideia de que racismo existe, do que combater o racismo propriamente dito (vou falar melhor sobre isso em outro texto).

O que realmente me fez escrever esse texto hoje foi a leitura rápida de alguns comentários em uma publicação que fazia referência ao Dia Internacional da Mulher Negra. Coisas do nível “e o dia da mulher branca???“. Era uma página feminista.

A primeira coisa que eu quero que fique claro para qualquer pessoa que se identifique como feminista é: se você luta pela igualdade de gênero mas não luta contra o racismo, você não é feminista!

marcha das vadias CuritibaDeixar o problema racial de lado significa deixar de lado mais da metade da população brasileira, inclusive as mulheres que fazem parte desse grupo. Significa deixar de lado a dupla opressão que mulheres negras tem de suportar todo dia. Significa, inclusive, deixar de lado a hiper-sexualização que não só a mulher negra, mas também o homem negro sofre dentro da nossa sociedade (não preciso explicar que feminismo é IGUALDADE, que feminismo também atua no sentido de anular qualquer face do machismo que oprima os homens e que hiper-sexualização é algo que ocorre de forma naturalizada com as mulheres e todxs nós conhecemos suas consequências devastadoras).

Se você decide ser feminista simplesmente ignorando que existem disparidades enormes entre as mulheres nesse país e fingindo que tais disparidades não influenciam na maneira pela qual o machismo irá atingi-las, você não é feminista. Você não me representa. Você não vê que meu choro é mais sofrido e muito mais longo que o da mulher branca.

Esse é o choro da africana que foi comprada e jogada dentro de um navio, da sobrevivente que chegou a um pais desconhecido após uma longa viagem da qual quase todos os seus compatriotas morreram, da escrava que servia à sinhazinha de dia e ao senhor de engenho à noite. Esse é o choro das brasileiras que nasceram de estupros dentro das senzalas, das mães de santo que viram sua religião sendo marginalizada, da quilombola que também quis aprender capoeira para se defender. Esse é o choro da ex-escrava passando fome, da lavadeira que lava para sobreviver, da negra que não é morena, é negra. Esse é o choro da negra morrendo porque não pode fazer um aborto, o choro da negra parindo porque foi estuprada de novo, o choro da mãe que vê seu filho preto ser só mais um nas estatísticas da “bala perdida”.

Não, o machismo que eu sofro não é o mesmo que o seu.

As mulheres negras choraram por muito tempo, mas agora começamos a gritar. Gritamos por espaço no feminismo! Gritamos por sororidade real e sincera! Ponham-se no nosso lugar, vejam o mundo com os nossos olhos. Nós sequer somos consideradas mulheres. Somos mulheres negras, e isso faz toda a diferença. 

Quero deixar registrado todo meu amor à organização da Marcha das Vadias em CWB, que fez questão de ter um ato todo voltado no combate ao racismo. VAMOS ENEGRECER O FEMINISMO!

Culpando a vítima e ensinando a vítima a se culpar.

Aconteceu em uma tarde dessas de verão, no meio das férias, um dia preguiçoso.

Estava com uma amiga, minha vizinha, conversando na sacada de casa. Não vou recordar o assunto agora, mas estávamos muito concentradas. Uma falava, a outra respondia. Provavelmente a conversa ainda ia durar muito. Acho até que eu tinha dado umas risadas naquele dia.

Um carro parou na frente da minha casa e o motorista ficou olhando. Minha amiga estranhou e ficou inquieta (a gente morava em uma região complicada, ela ainda não tinha se livrado do trauma de ver dois motoqueiros atirarem contra um motorista em uma rua deserta) mas eu a tranquilizei. “Não tem problema, a casa está à venda. Olha o tamanho da placa com o número da imobiliária. Tomara que seja um comprador, meu pai quer se mudar logo”.

13 ano de idade. Ingênua de mais.

Continuamos conversando, voltamos a rir (será que eu ri naquele dia?), mas depois de alguns minutos eu comecei a achar estranho também. O carro parado, o motorista olhando. Decidi encarar, meu gênio é forte e estoura rápido. Olhei nos olhos daquele homem. Ele usava óculos e cavanhaque. Percebi que ele já estava me encarando antes. Percebi que aquele olhar não era de um psicopata que queria matar alguém, aquele era o olhar de desejo e tesão de um homem. Ele estava dentro daquele carro, parado na frente da minha casa, olhando para duas crianças durante 5 minutos e se masturbando compulsivamente.

Engraçado como eu descobri o olhar de tesão de um homem. Primeiro veio a dúvida, depois o susto. Depois eu percebi o movimento dos braços e minha vontade era de me jogar daquela sacada, fechar os olhos e não abrir nunca mais. Nojo, repulsa, medo, dúvidas. Tudo passou muito rápido pela minha cabeça. Olhei para a minha amiga, ela estava com uma cara de assustada. Deve ter percebido o mesmo que eu, ao mesmo tempo.

Sem combinar, viramos as costas e fomos para dentro da casa. Sem combinar, mudamos de assunto. Sem combinar, ela foi embora. Sem combinar, nunca mais falamos sobre isso para ninguém. Nem mesmo uma semana depois, quando minha mãe comentou que muitas meninas da vila reclamaram de um motorista em um carro qualquer, e disse para que eu ficasse longe da rua enquanto a polícia não achasse o novo tarado do bairro. Eu podia ter dito “Mãe, ele já me achou, ele já me fez mal. Você pode me dar um abraço e me proteger? Eu estou com medo de sair na rua”, mas eu não disse.

Eu me culpei pelo que aconteceu por anos. Eu podia ter dito para minha vizinha que aquilo estava estranho na primeira vez que ela reclamou, entrado e achado aquele CD de funk que a gente amava, tirado ela da sacada e ensinado o novo passo que eu aprendi com minha amiga carioca. Eu podia ter gritado alto pro meu pai que tinha um tarado na rua. Eu podia não estar usando um shorts e parada naquela posição, apoiada na sacada. Acho que homens pensam que isso é atraente, talvez se eu estivesse sentada no chão como eu sempre fazia, ele não ficasse com aqueles desejos incontroláveis que os homens sentem.

Não posso falar por ela, perdemos contato e mesmo se ainda tivéssemos não sei se conseguiríamos falar sobre aquela tarde na sacada da minha casa. Mas em mim esse episódio gerou um misto de medo e revolta. Eu tinha 13 anos e não sabia o que significava “cultura de estupro” ou “culpabilização da vítima”, mas quantas vezes eu tinha ouvido que existem roupas decentes e roupas que denigrem, que existem mulheres direitas e mulheres que não se valorizam, que homem é assim mesmo e a gente tem que aprender a não provocar? É óbvio que eu ia achar que a culpa era minha. Foi por isso que eu não contei pra ninguém, foi por isso que eu perdi a chance de ir até uma delegacia identificar o sujeito. Como que eu ia chegar pro delegado e falar “A gente tava conversando, ele ficou se masturbando por 5 minutos mas eu juro que não percebi. E eu estava de shorts porque estava com calor, não queria provocar ele”. Na minha cabeça, ninguém ia entender isso, porque na minha cabeça a responsabilidade de evitar esse tipo de assédio era minha. E eu havia falhado. Que direito eu tinha de reclamar agora?

Um ano depois minha dúvida se confirmou quando eu fui até uma delegacia prestar depoimento sobre a ligação de uma amiga que tinha acabado de ser estuprada. O delegado fez de tudo para que eu dissesse que ela estava inventando, perguntou quantos namorados ela teve, se ela era virgem, e me deu os parabéns quando eu disse que ainda era, como se isso fosse relevante nessa situação. Eu sabia que não era, eu era virgem e já havia sido violentada (embora nada comparado ao que minha amiga passou), por que eu iria querer os parabéns dele? Que tipo de sociedade doente admite um delegado especializado em crimes contra a mulher que age desse jeito? A sociedade doente que pensa como esse delegado.

Vamos encarar os fatos: A gente gosta de pôr a culpa na mulher.

Comentário do meu facebook em uma foto sobre o tema: “EH,MAS INFELIZMENTE TEM MULHERS Q SE VESTEM COMO QUEM GOSTARIA DE SER (estuprada)!O MEU RESPEITO A TODAS ELAS!!”

Comentário de Danuza Leão em texto publicado na Folha de S. Paulo sobre a onda de estupros recente: “É claro que o ideal é que as meninas sejam respeitadas, mas, para isso, é preciso também que elas ajudem. As famílias devem orientar os filhos a serem seres civilizados, claro, e ao mesmo tempo ensinar às filhas a não usarem shortinhos, minissaias de um palmo, jeans que mal cobrem a virilha, tops mínimos, camisetas em cima da pele, e por aí vai. Se aos 13, 14 anos, a sexualidade dos meninos está exacerbada, não deve ser só a deles; a delas também. Desde que o mundo é mundo as mulheres gostam de provocar, de se exibir, de se sentir desejadas. Faz parte do jogo. Mas a sexualidade masculina é mais violenta e é aí que mora o perigo.” (para tentar entender o motivo de uma mulher colocar a culpa em outra em casos de estupro clique aqui)

Comentário de Gerald Thomas sobre o episódio em que enfiou a mão debaixo do vestido da mulher que tentava entrevistá-lo: “Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de ‘fuck me’, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO […] Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas! A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal”

Só alguns exemplos para ilustrar. Quem quiser mais é só jogar no google. Ou abrir qualquer reportagem que fale sobre estupro, descer a página até os comentários e se banquetear com o show de horrores. “Bebeu de mais”, “tava na rua de madrugada”, “tava com saia curta”, “não tentou se defender”, “prostituta reclamando de estupro???”.

Para começar: ninguém pede para ser estuprado. Como comentou uma amiga minha esses dias no facebook, se pedisse não seria estupro. Eu não coloquei meu shorts e fui correndo pra varanda pensando “Tomara que hoje apareça um desequilibrado sexual e que ele me veja de shorts e se masturbe me olhando, vou ganhar meu dia” e muito menos a Nicole Bahls vestiu o figurino dela torcendo para que um escritor mal educado e extremamente vulgar enfiasse a mão no meio de suas pernas.

Outro ponto importante é que a sexualidade masculina não é mais violenta. Homens são violentos porque são educados para serem violentos. Nossa sexualidade pode ser despertada tanto quanto a de qualquer homem. E acreditem, existem muitas coisas que vocês fazem ou falam que acabam nos provocando. A única diferença é que a gente não sai por aí colocando a culpa em vocês.

Mulher não é objeto e ponto. Não importa o que a mulher faça, fale ou vista, ela continua sendo um ser humano dotado de vontade própria. Então, não importa se é uma prostituta semi-nua que está parada na sua frente, se ela disse “não” você não tem permissão para tocar nela e se mesmo assim o fizer, sua atitude vai ser sim classificada como crime. Ou agora a profissão de uma pessoa impede que ela possa decidir com quem quer ou não fazer sexo? Achei que todo mundo tivesse liberdade para escolher.

Esse post não é sobre o meu trauma de infância nem sobre o estupro da minha amiga. É sobre a responsabilidade que nós ganhamos -ou acreditamos ter- quando sofremos abusos. É sobre tirar o foco do criminoso e colocar na vítima. É sobre como nós estamos ensinando nossas crianças que homens são bichos com instintos incontroláveis e mulheres devem se comportar de forma a não incomodá-los, ou sofrerão as consequências sem direito nenhum de reclamar.

Eu não fui a única criança do mundo a esconder um abuso sexual por acreditar que a culpa era minha e eu acabaria sendo castigada. Minha amiga não foi a única mulher do mundo a sofrer com o machismo de um delegado e ter que provar (mesmo depois de um exame médico) que havia sido estuprada. A Nicole Bahls não é a única mulher com auto-estima e orgulho do próprio corpo que é tocada sem permissão e depois chamada de vadia porque quis reclamar. Isso é comum, assustadoramente comum. E só acontece com tanta frequência porque existe consentimento. De que lado você está? Do lado que repudia qualquer violência sexual, ou do lado que pensa “Tudo bem, essa aí tava pedindo“? Do lado que cria filhas que “sabem se proteger”, ou que cria filhos que sabem respeitar? E se você começou a pensar que são os dois lados que precisam ser educados, precisa voltar ao começo do texto e ler tudo de novo. Não queremos ter a liberdade limitada para termos respeito, queremos ter respeito e ponto. Parece absurdo? Para mim parece óbvio.

O grito feminista de Kelly Rowland

UAU. Após ouvir o terceiro single do mais novo CD da ex Destiny’s Child, Kelly Rowland, eu fiquei alguns minutos sem reação, digerindo aquilo tudo. Depois de entender sobre o que ela estava falando, ouvi de novo, de novo e de novo. Que coragem, que força, que mulher.

Também sou compositora e é muito comum que eu use a música para extravasar sentimentos, desabafar, mas também sei o quanto é difícil se expôr em algumas situações, então é fácil entender que a maioria das minha composições continuem anônimas, escondidas, podem até chegar a ir pro lixo dependendo do nível de intimidade. Conhecendo essas situações, entendo que a atitude da cantora requer muita coragem. Eu sou só uma artista anônima que canta as próprias músicas para os amigos, ela é uma cantora famosa no mundo todo. Expôr um relacionamento abusivo, nesse último caso, é mais do que simplesmente transformar dor em arte, é uma ação política.

Antes de falarmos sobre a letra polêmica, aqui está o vídeo e um link com a tradução:

Tradução

Sista, que música!

No começo achei que era sobre inveja, Beyoncé arrasando e ela sofrendo (aliás, tem algumas pessoas que insistem em dizer que a música é sobre isso mesmo, o resto é só detalhe), mas depois de ouvir a música inteira eu percebi que era sobre dor. E amor.

Nunca imaginei que uma das minhas cantoras preferidas tenha passado por uma situação tão delicada. Eu sou APAIXONADA por Destiny’s Child, acompanho os passos das integrantes mesmo após o lançamento do último CD que oficializou o rompimento do trio. Para mim, ficar sabendo de uma notícia dessas é como ouvir a mesma história da boca de uma amiga, de alguém que tenha me ensinado a ser uma mulher forte e independente (que foi exatamente o que Kelly, Beyoncé e Michelle me ensinaram com suas letras. Pra quem não se lembra, digitem Independent Women, Survivor e Through With Love  no google). Estou em choque. Mas o primeiro passo é entender que é exatamente isso o que acontece. Violência doméstica e relacionamentos abusivos aparecem, mesmo na vida de pessoas muito próximas e que pareçam muito improváveis de viver tal situação. Ninguém está imune.

O que eu achei interessante nessa história toda foi justamente a menção à amizade de Beyoncé durante todo o período em que a violência aconteceu:

“Depois de ‘Survivor’, ela estava pegando fogo, quem iria querer ouvir minhas besteiras?”

“Ele me puxa e diz ‘Ninguém te ama além de mim. Nem sua mãe, nem seu pai e muito menos Bey’ Ele fez eu me virar contra minha irmã, eu sentia sua falta.”

É importante perceber aqui aquela nossa velha conhecida: competição feminina. Não preciso falar sobre como isso funciona, enquanto nós mulheres nos viramos umas contra as outras e achamos que precisamos ser as melhores em tudo, não nos preocupamos em entender como essa atitude é maléfica e inviabiliza a sororidade (texto perfeito sobre isso aqui). Em um caso especifico como esse, é normal que o agressor queira isolar sua vítima do mundo, e faça com que a mulher (que na sua cabeça doentia não passa de uma propriedade) se vire contra as pessoas mais próximas. Não é coincidência que essas mesmas pessoas seriam provavelmente as únicas capazes de oferecer ajuda e uma saída a um relacionamento doentio e possessivo. É a partir desse ponto de entendimento que eu consegui ver que a menção à Bey não tinha nada a ver com inveja pelo seu sucesso, Kelly estava tentando dizer que, ao fazer com que ela se virasse contra sua amiga, seu agressor estava não só seguindo o comportamento padrão desse tipo de violência ao tentar isolá-la do mundo, como também impedindo que ela achasse um ponto de apoio capaz de lhe dar entendimento para perceber a situação na qual estava vivendo e coragem para dizer chega.

Depois dessa música eu consigo entender melhor essas duas, lançadas próximas ao período citado na letra de Dirty Laundry:

A violência física e psicológica é comum nesses casos, o isolamento, o medo constante, a negação. A roupa suja foi lavada em público, Kelly não foi só corajosa em expôr sua vida dessa forma, ela deu força e fé para que milhares de mulheres que hoje vivem nessa situação percebam que não é normal ser tratada com inferioridade e que é possível sair dessa situação.

Sempre admirei, hoje admiro ainda mais. Força Kelly, obrigada por mais uma lição de vida, obrigada por ser inspiração.

Para denunciar violências contra a mulher: disque 180

 

Quando ser mãe não é a única opção

Eu, particularmente, AMO bebês. Sou apaixonada, gosto de apertar, morder, tirar fotos e quero ter três para chamar de meus.

Eu, particularmente, jamais faria um aborto. Seja em situações de pura irresponsabilidade, em falha do método anticoncepcional, em risco de vida ou em uma gravidez consequente de um estupro. Acho errado, acho que nenhuma forma de vida deveria ser afetada pelos erros de outras pessoas, acho que é assassinato e acho que eu nunca me perdoaria se fizesse uma coisa dessas. Nem pílula do dia seguinte passa pelo meu filtro moral.

Eu, particularmente, não sou dona da razão.

Essa é a minha opinião pessoal – que, vamos ser sinceros, pode muito bem mudar se eu realmente me ver diante de qualquer situação dessas. Não consigo imaginar o trauma que deve ser carregar o fruto de um estupro por 40 semanas dentro de você – uma opinião válida, que deve ser respeitada, já que a pessoa que mais seria afetada em qualquer caso de gravidez indesejada seria eu mesma. Mas não é porque eu cheguei à essa conclusão, com toda a minha ética, educação e amor por bebês gordinhos, que eu tenho o direito de cobrar que toda mulher tenha a mesma atitude que eu teria.

Eu não pensava assim. Achava que porque eu seria capaz de não fazer um aborto, toda mulher deveria ser. Achava que essas mulheres que engravidam mesmo sem querer eram promíscuas e tinham que arcar com as consequências dos seus atos. Achava que a possibilidade de vida para um feto era mais importante do que a saúde física e mental da gestante. Inclusive continuei achando tudo isso mesmo depois de me assumir feminista. Até que eu encontrei este texto¹

Eu imaginava que ser contra a descriminalização do aborto era ser a favor da vida. Eu estava errada. Entendi tudo isso, procurei outros textos, mas meu orgulho demorou alguns dias para assumir que eu estava indo pelo caminho errado e que a melhor opção para salvar vidas seria legalizar o aborto e oferecer formas seguras para que as mulheres que optaram por fazê-lo tenham condições de sobrevivência.

O que o texto citado diz, de forma resumida, é que o número de abortos não aumenta com a descriminalização, continua constante. O que significa que criminalizar o aborto não impede que as mulheres continuem fazendo e que descriminalizar não vai gerar abortos descontrolados em massa.

É óbvio que mulheres ricas não são afetadas por essas mudanças, elas fazem o procedimento em clínicas particulares, não sofrem as sequelas de um aborto mal feito. Quem morre em clínicas clandestinas por procedimentos realizados por pessoas desqualificas ou com infecções por objetos introduzidas pelo orifício existente no colo do útero são as mulheres pobres. E aí o número é grande. Não vou ousar colocar dados de mortes de brasileiras causadas por abortos clandestinos porque nas minhas pesquisas os números variaram muito, mas não é novidade para ninguém que isso é uma realidade.

Quando a mulher perde a vida em abortos clandestinos, duas vidas são perdidas, mas quando o aborto é legalizado e essas mulheres tem acesso ao procedimento médico feito por um profissional qualificado, apenas uma vida se perde. Se o número de procedimentos abortivos após a descriminalização se mantém constante, isso significa que garantir assistência médica (e não cadeia) para essas mulheres de baixa renda, diminui pela metade o número de mortes.

Precisamos oferecer mais opções.

Não estamos falando de assassinas, estamos falando de mulheres. De pessoas que, como eu e você, vivem dilemas e  precisam fazer escolhas difíceis. E daí se ela não optar por fazer o que você faria? Isso justifica que você vire as costas para essas “mulheres invisíveis” e finja que elas não estão morrendo por falta de atendimento médico? Ou que percam sua liberdade, de 1 a 3 anos, porque em um momento delicado tiveram liberdade de fazer com o corpo delas o que seria melhor para elas mesmas?

Sim, é muito tristes que lindos bebês estejam perdendo a chance de viver. Mas é mais triste ainda ver milhares de pessoas perdendo a vida – ou a liberdade – porque nós achamos que podemos mandar no corpo delas.

Eu já escolhi o meu lado, o que salva mais vidas. De que lado você está?

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Imagem: Revista Isto É

¹ o blog Feminista Cansada me ajudou muito em diversas questões, mas com certeza o aborto foi a principal mudança que ele me trouxe. Aconselho a todxs que leiam o texto citado com atenção e se tiverem curiosidade deem uma olhada nos posts. Recomendo!