Tragédia em Charleston – O diabo nunca foi o nosso problema

Quando nossos antepassado foram feitos escravos, uma das justificativas para que nações cristãs e que teoricamente exaltavam a liberdade do proletariado em vender sua força de trabalho pudessem usar mão de obra escrava seria que negros não tem alma e que são pessoas amaldiçoadas. Várias distorções bíblicas e sermões foram realizados para espalhar as boas novas (Deus aprova a escravidão de negros!), e versões contemporâneas da falácia podem ser observadas em discursos do Feliciano (aqui e aqui, pra quem tiver estômago).

Após espalhar a notícia de que africanos são amaldiçoados e desprovidos de uma alma para ser salva, a Igreja achou importante obrigá-los a se converter ao cristianismo. Não como uma forma de salvá-los da maldição (salvar como se a gente não tem alma né?), mas sim como uma forma de dizimar qualquer vestígio das religiões africanas que chegaram à América junto com as pessoas que agora eram escravos. Enquanto no Brasil a tentativa acabou frustrada (apesar de ser grande a intolerância e a perseguição aos praticantes, o Candomblé e a Umbanda não desapareceram e seguem firmes na luta pelo respeito e pela igualdade), nos Estados Unidos é visível que quase não restaram traços da religiosidade africana, e a maioria da população negra aderiu ao cristianismo.

O ato terrorista e racista que culminou na tragédia de Charleston com a morte de 9 pessoas negras me fez pensar em muitas coisas, mas a que mais me incomodou foi o histórico sangrento e intolerante dos Estados Unidos (e sim, do Brasil também) com relação à liberdade religiosa dos negros em situação de escravidão e de seus descendentes após a abolição.

Primeiro eles nos dizem: Vocês não tem alma! Vocês são amaldiçoados!

Depois nos dizem: Ainda há chance, vocês precisam se converter ao cristianismo e deixar para trás “o culto ao diabo”.

Não somente utilizando-se do pressuposto de que o indivíduo branco é o normal e o protegido de um deus igualmente branco, como também ligando a cultura africana ao demoníaco, enquanto o que vem do europeu é o divino.

Hoje em dia ainda é comum ouvir em cultos que as pessoas negras precisam ainda mais do deus cristão, por tudo de ruim que nosso povo já passou. É praticamente como se dissessem “Vocês precisam aderir à nossa religião e nós vamos usar a tragédia que fizemos contra vocês para provar isso”.

Quando ouvi o áudio da filha de uma das vítimas da tragédia dizendo para o terrorista branco “Eu te perdoo e tenho misericórdia da sua alma”, tudo que eu conseguia pensar é que nós só estamos no lugar em que estamos porque eles sequer acreditaram que nós tivéssemos alma. Eles não teriam capacidade de ter misericórdia pela alma dos mortos de Charleston, ou pela menina candomblecista de 11 anos que foi apedrejada na semana passada.

E que não importa quanta expiação nos convençam que precisamos para nos comparar à população branca com sua cultura divina, no final do dia não vai ser o diabo que vai entrar armado na reunião de orações para tirar nossas vidas.
O diabo nunca foi o nosso problema.

Descansem em paz:

Tywanza Sanders

Sharonda Coleman-Singleton

Clementa Pinckney

Cynthia Hurd

Myra Thompson.

Ethel Lee Lance 

Daniel Simmons 

Rev. Depayne Middleton-Doctor

Susie Jackson

Redução da maioridade penal: prevenção ou punição?

Após uma longa pausa decidi retornar com os textos do blog na data de hoje, dia 31 de março de 2015, data em que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou projeto favorável à PEC que diminui a maioridade penal de 18 para 16 anos. O texto abaixo é adaptado de um trabalho acadêmico de minha autoria, por isso peço desculpas caso ainda esteja de difícil entendimento, e me comprometo a adaptá-lo da melhor maneira assim que possível, para garantir que o maior número possível de pessoas tenha acesso a ele. No momento estou com pouco tempo, mas o assunto é urgente. Nossos jovens gritam pelo fim de um genocídio, e nossos políticos, assim como boa parte da população, comemoram medidas que colocam esses mesmos jovens como autores da violência contra a qual eles lutam diariamente. Não é hora de nos calarmos. É hora de falarmos, gritarmos se preciso for, mesmo que sem permissão.

Não é de hoje que eu digo: discursos que dizem ter como objetivo o fim da violência, mas propõem ações que somente podem ser colocadas em prática após o acontecimento do ato violento, deixam evidente que o foco dessas falas não é a prevenção, mas somente a punição.

Essa argumentação, além de ser extremamente genérica (quem é que não deseja o fim da violência ???) deixa de analisar pontos importantes sobre como a violência se dá no Brasil, e, principalmente, sobre como o encarceramento em massa é ineficaz tanto para a ressocialização da população carcerária quanto para a diminuição da incidência de crimes.

Primeiro ponto importante: De acordo com o Estatuo da Criança e do Adolescente (ECA), adolescentes não cometem crimes e sim atos infracionais. Para que uma conduta seja tipificada como crime ou contravenção, é necessário que o agente ativo tenha plena consciência das consequências sociais de seu ato, o que exclui indivíduos com menos de 18 anos. Na verdade, as medidas estabelecidas pelo ECA para casos de ato infracional por si só derrubam a falácia de que menores em conflito com a lei se beneficiam de impunidade, já que a inimputabilidade apenas significa que os adolescentes que cometerem ato infracional não serão imputados pelas penas previstas no Código Penal, o que não significa que sairão impunes. A realidade dos jovens que cumprem medidas socioeducativas de internação já é muito próxima à realidade dos presídios brasileiros.

Quando partimos para esse, que é o assunto favorito dos justiceiros de plantão (CADEIA!), nos deparamos com mais uma situação que não sustenta o argumento de “prender para diminuir os crimes”: Entre 1990 e 2012 a população carcerária brasileira apresentou um aumento de 508%. Enquanto isso, a realidade fora das celas piorou: o crescimento de morte violenta por homicídio foi de 148,5% entre o período de 1980 a 2011. A terceira maior população carcerária do mundo apresenta hoje um índice de 70% de reincidência. Como se explica que queiram jogar adolescentes de 16 anos nesse ambiente, com o objetivo de melhor a situação de violência no país?

Mas se você ainda não se convenceu e está iludidx e cegx de raiva pelas notícias veiculadas pelos meios de comunicação, que afirmam ser muito grande o crescimento de crimes contra a vida praticados por jovens em conflito com a lei, essa é a parte onde eu quero chegar: de todos os casos de homicídio ocorridos no Brasil durante o ano de 2013, 0,5% tiveram adolescentes como autores.

De acordo com a Associação Brasileira de Magistrados e Promotores da Infância e da Juventude, os crimes cometidos por menores de idade não chegam a 10% da criminalidade geral e 90% deles não são hediondos (Jornal do Advogado, 2003, p. 16; e Folha de S.Paulo, 2007 p. A2). Conforme a SEDH (2010) uma pesquisa da ONU revelou que, em 55 países, os atos infracionais representam 11,6% do total dos crimes, enquanto no Brasil estão em torno de 10%. ¹

Na realidade, os adolescentes brasileiros são mais vítimas do que autores de homicídios. Segundo o Mapa da Violência de 2014, “considerando o longo período – 1980/2012 –, entre os jovens, 62,9% das mortes devem-se a causas externas. Na população não jovem, esse percentual representa só 8,1% das mortes acontecidas”.

Quando se tem em mente que o perfil da principal vítima de homicídios no Brasil é um jovem negro e periférico, e que a autoria de 97% dos homicídios nos últimos 20 anos é de não jovens, nós conseguimos visualizar um cenário onde a principal vítima está sendo acusada de autoria da violência que lhe mata.

Nós todos sabemos que “na medida em que a criminalização seletiva etiqueta certas condutas e deixa passar outras, configura-se um sistema onde uma clientela torna-se vulnerável ao cometimento de delitos e uma outra parcela torna-se imune”². Nós todos sabemos muito bem quem é o adolescente infrator que irá parar em penitenciárias caso a redução da maioridade penal seja aprovada. Esse adolescente tem cor, tem classe social, mas não tem acesso à educação, à saúde ou á moradia digna.

Até que ponto o Estado e a sociedade podem cobrar o cumprimento de normas por uma criança, se o que essas mesmas instituições determinam como indispensável para o desenvolvimento dela não lhe é garantido?

Sou contra a redução da maioridade penal porque não se responsabiliza adolescentes pela violência que lhes é imposta. Sou contra a redução da maioridade penal porque o sistema penitenciário já está superlotado e não é capaz de garantir a correta aplicação da Lei de Execução Penal para adultos, muito menos para crianças. Sou contra a redução da maioridade penal porque o genocídio da juventude negra já é assustadoramente eficaz sem essa garantia institucional.

Nós não precisamos de mais jovens negros e pobres em cadeias, precisamos de políticas públicas, distribuição de renda, oportunidades de emprego formal, mas antes de tudo precisamos admitir que nossa juventude está morrendo (e sendo ameaçada de encarceramento), porque o Estado é falho e omisso, e não porque essa juventude seja uma ameaça.

Na realidade, como diria Renato, advogado negro, cotista e periférico: “A ameaça tem outra idade, tem outra cor, e está de terno e gravata matando crianças com uma caneta.” 

¹ SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. 7ª ed. São Paulo: Cortez, 2014. p. 249

² ALMEIDA, Michele Faise de. Expansionismo penal: exame das velocidades do direito punitivo. Publicações da Escola da AGU, Brasília, n. 17, p. 211-231, abril de 2012.

Eu, Globeleza aos 5 anos (e porque “Sexo e as Negas” não me representa)

Demorei pra escrever sobre o novo seriado racista e misógino da Globo, em parte por falta de tempo, mas principalmente porque não tenho estômago nem paciência com esse assunto, então vocês me perdoem se esse texto estiver mal escrito ou não seguir a forma de escrita que eu costumo usar. Eu lido com o racismo da Globo desde a infância, assim como as demais mulheres negras deste país, e não entendo como algo que me incomodou tanto durante o início da minha vida ainda esteja presente e possa estar influenciando a auto estima das crianças negras de hoje.

Diz minha mãe que eu comecei a sambar muito cedo. Tinha um dom e gostava de mostrar “eu sei sambar, quer ver?”. Uma tia tem um vídeo caseiro em que eu estou comandando um grupo de meninas em uma festa de aniversário, fazendo caras e bocas, com 5 anos de idade. Eu lembro de passar horas em frente a um espelho com música ligada, dançando, sendo criança, sendo uma criança negra. Eu lembro quando me chamavam de Globeleza, e eu lembro do quanto isso me custou.

Com 5 anos de idade eu sabia exatamente quem era a Globeleza, eu sabia onde e quando ela poderia ser vista e, principalmente, eu sabia que ela era eu. Todos diziam isso, com um sorriso no rosto, como se fosse uma coisa boa. Mas aquela era uma mulher pelada na TV. Aquela era eu?

Eu cheguei em um ponto em que acreditava ser aquele o meu futuro. Lembro de pensar que minha profissão, quando eu fosse adulta, seria Globeleza. Porque todos diziam que eu tinha nascido pra fazer aquilo, todos só falavam isso quando queriam me elogiar, e isso se aliava ao fato de não haver muita variedade de representações para mulheres negras. O que eu poderia ser? Médica? Não. Você, Stéphanie, nasceu pra ser Globeleza.

Eu chorava. Me olhava no espelho, nua, e falava pra mim mesma que eu tinha que me acostumar, porque aquele era meu futuro. Como que eu ia tirar a roupa pra que as pessoas me pintassem, como que eu ia sambar e exercer minha profissão “na tela da tv e no meio desse povo”, se eu sequer tinha coragem de me olhar nua no espelho? Eu me obrigava a me olhar. E eu chorava.

Eu não queria ficar pelada na TV, eu só queria sambar. Mas a mídia racista, eficaz em hiperssexualizar o corpo da mulher negra, me fez acreditar que eu não tinha outra escolha.

Em algum momento eu percebi que aquilo era mentira. Em algum momento meus pais, que me incentivaram a estudar, me disseram que eu podia ser o que eu quisesse. Mas já era tarde, eu já estava machucada e traumatizada. O tempo passou, eu cresci, e quando os assédios na rua começaram, uma das coisas que eu  mais ouvia eram homens me chamando de Globeleza.

O que eu gosto de provocar quando entro nesse assunto é a seguinte reflexão: Quando uma mulher branca vai ser elogiada, alguém tem coragem de falar pra ela “Você é tão bonita que deveria tirar a roupa e ficar pelada pra agradar aos homens”? E se falassem, qual seria a reação dessa mulher? É exatamente isso que está por trás do ato de chamar uma mulher negra de Globeleza. Era disso que eu me lembrava toda vez que um homem invadia o meu espaço e gritava com todas as letras GLOBELEZA, pra rua inteira ouvir. E é isso que a sociedade e a mídia nos faz engolir quando alimenta a imagem da “mulata” de carnaval.

Como se isso não bastasse e a Rede Globo já não tivesse acusações de racismo suficientes, surge o novo seriado, “Sexo e as Negas”. Eu não vou entrar em detalhes pra explicar o racismo no título, na descrição das personagens e na forma como elas estão sendo retratadas, muitas feministas negras escreveram sobre isso, não vejo necessidade de acrescentar análise ao que já está bem escuro: o seriado é racista e alimenta sim os esteriótipos direcionados à mulher negra, principalmente o aspecto da sexualização dos nossos corpos.

A Globo sempre prestou um desserviço à mulher negra, eu sei porque vivi isso. A retratação da nossa imagem, assim como fez mal a mim, continua afetando a mulher negra brasileira, inclusive crianças. É necessário sim que se faça barulho, é necessário que a mulher negra que não se sente a vontade com a representação do nosso corpo erga a voz e diga BASTA.

Estou cansada desse racismo onde eu ligo a TV e a branca está nos espaços de poder, enquanto a negra é a empregada. A branca é princesa, a negra é Globeleza. A branca é pra casar, a negra é pra transar. A representatividade que tanto solicitamos não vai vir da forma como o racista quer nos representar. Não aceitaremos representatividade a qualquer custo e de qualquer forma!

De que adianta uma representatividade que me diz que as crianças brancas podem dançar, enquanto eu tinha que chorar porque não queria ficar pelada?

Sexo e as Negas não nos representa! - Grupo Afrocultural Ka-Naombo

Sexo e as Negas não nos representa! – Grupo Afrocultural Ka-Naombo

Estudar com a classe média, jogar bola com a periferia.

Algumas pessoas me chamam de extremista. Muitas não entendem de onde vem minha vontade de lutar contra injustiças. Algumas acham que não faz sentido eu estar tão revoltada. A verdade é que eu estou revoltada a muito tempo.

Fui criada na periferia de Curitiba. Apesar dos incontáveis esforços que meus pais realizaram para me manter longe de casa (e da rua) tanto quanto fosse possível, eu não fiquei imune ao que acontecia ao meu redor. Eu sabia que a vizinha da casa do lado tinha fugido do ex-marido porque ele vivia batendo nela, eu sabia que aquele piá que tinha crescido jogando bola comigo na rua já estava usando drogas, eu sabia que a filha daquela outra conhecida estava grávida e o “pai” da criança tinha sumido. Coisas cotidianas, você não precisa crescer no CIC pra saber disso. Mas eu também sabia que quando alguém estourava fogos significava que a droga tinha chegado, eu sabia que nenhum dos meus amigos ficava muito tempo na rua depois que a polícia aparecia, eu inclusive percebi que a polícia estava ali quase que o tempo todo, menos quando alguém era assassinado, menos quando roubaram a minha casa. Para conhecer isso, você tem sim que subir o morro (ou atravessar o Contorno Sul, a pé, sem passarela).

Como eu já expliquei em outro texto, faço parte da exceção negra de origem periférica: eu consegui, na segunda tentativa, sem cursinho específico, uma vaga no Colégio Militar de Curitiba. Lá estava eu, com 11 anos de idade, quebrando a regra imposta pelo racismo institucional e conquistando um espaço que não foi feito para mim. Para quem não sabe, a concorrência para entrar em Colégios Militares é devastadora, principalmente quando levada em conta a idade dos concorrentes. No meu ano de aprovação, a concorrência era maior do que quando prestei vestibular para Direito na UFPR. Não existem cotas. Juntem essas informações e criem o espaço elitista das vagas reservadas a filhos de civis (até hoje eu não entendi como funciona o acesso a vagas para filhos de militares então vou me ater a comentar sobre o que eu sei).

O recorte racial para mim não foi tão impactante: eu sou curitibana. Mas o abismo social eu senti já no começo. Eu era uma criança, eu não estava pronta. Eu lembro que meu pai foi na primeira reunião com o Comandante e voltou falando “Precisamos comprar um computador, o Comandante disse que não dá pra estudar aqui sem computador” e alguns meses depois eu tinha computador em casa. Internet discada por muitos anos, mas eu tinha como fazer pesquisas e digitar meus trabalhos.

Eu não lembro quando foi que eu contei, mas eu tenho certeza que foi na inocência e que, na época, se eu soubesse as consequências que essa informação traria, eu teria guardado para mim. O fato é que em algum momento ficaram sabendo que eu era do CIC, e até então eu não tinha consciência do que isso significava para os curitibanos, até eu ver a cara de susto que as pessoas faziam quando tomavam conhecimento. Até então eu não sabia que também ia ser tratada de forma diferente por isso (racismo eu já conhecia e já estava esperando. Sim, com 11 anos), eu não fazia ideia de que pelos próximos anos eu teria que aguentar “piadas” agravadas por esse fato, praticamente todo dia.

Como eu era criança, engoli mais do que eu era capaz a fim de me adaptar ao ambiente. Muita gente achava que eu explodia por pouco, mas a verdade é que quando eu mostrava que tinha chegado ao meu limite, eu já tinha perdido ele a muito tempo. Muitos dos meus colegas não fazem ideia de quanto eu aguentei calada para não perder amigos, para não ser a chata do grupo, para mentir pra mim mesma e me fazer acreditar que aquilo era normal, que eu tinha que aguentar.

Eu lembro de estar andando na vizinhança da casa de uma amiga, uma viatura passar, e eu tentar entender porque ninguém começou a voltar pra casa, porque ninguém ficou com medo, porque a gente ainda estava dando risada, se tinha policial se aproximando? As diferenças gritantes que eu iria começar a observar me acompanharam por todos esses anos.

Foram anos vendo supostos amigos fingindo que tinham perdido a carteira e pedindo pra revistar minha bolsa, foram anos ouvindo comentários maldosos sobre o genocídio da população negra e periférica, foram anos sabendo que toda vez que uma viatura policial passasse, alguém ia gritar pra eu me esconder.

Me recordo de uma tarde, durante a final de um campeonato de futebol que estava sendo disputada com um colégio público e periférico, estar na torcida, gritando, aproveitando o momento para torcer pelo meu colégio, quando alguém começou a gritar “VOLTA PRA FAVELA!” e quando eu me dei conta, a arquibancada inteira estava gritando proara s torcedores do outro colégio, enquanto eu estava sozinha lá na frente, balançando os braços e pedindo pra pararem. Eu fazia questão de me posicionar como negra e periférica, todos os meus amigos sabiam disso, por que eles estavam gritando uma ofensa tão absurda? Meu lugar não era aquele, e mais uma vez, o grito da classe média foi eficaz pra me recordar disso.

Mais um dia de ofensas racistas camufladas de piada na sala, eu disse “respeitem a população negra, sem ela o Brasil não seria metade do que é hoje” e um dos racistas responde “tem razão, ele seria desenvolvido”.

Um professor muito querido por todos, que tinha táticas parecidas com os de cursinho pré vestibular estava dando aula. Um dos bordões dele para nos fazer lembrar das propriedades dos logaritmos era falar “dá um tapa na nega”. Alguns colegas se levantavam e me davam um tapa.

Aula de sociologia, professor falando sobre pobrezas extremas, colegas gritando “CIC” no meio das explicações.

Uma menina me irritando por semanas, para me tirar do sério ela apelou para racismo “neguinha fedida!”. Meti a mão na cara dela e só não foi pior porque um professore interveio. Eu estava quase sendo expulsa por comportamento, mas como o caso foi de racismo praticamente passaram a mão na minha cabeça, e eu acabei não levando o preconceito da filha de um oficial para as autoridades.

Aula sobre período escravocata, colegas dizendo “Téfi, você lembra disso???”. Passei o dia todo ouvindo cantarem Xica da Silva para mim.

Um namorado me conta “Antes de te conhecer a gente costumava dizer que você usa pó de feijão no lugar de pó de arroz”.

Entrando na sala de aula, colega se esconde atrás do outro e grita “Ai socorro a Téfi vai me assaltar”.

Eu acredito que vivenciar os extremos das duas realidades foi importante de certa forma, acredito que eu talvez não estivesse no lugar de militância no qual me encontro hoje se não tivesse passado por situações onde os extremos opostos se manifestavam. Mas lembrem-se, eu tinha 11 anos quando isso começou. Eu perdi a conta de quantas vezes eu engoli meu orgulho, minha raiva e até o meu choro. Muitos dos meus amigos mais próximos da época não fazem ideia de que eu me recordo desses episódios e que eles me causam dor até hoje.

A importância de expôr casos tão pessoais e que me causam profunda dor:

1) Não existe fim do racismo com ascensão social ou conquista de espaços até então reservados à população branca.

Ninguém vai te tratar como branco se você conseguir vaga em um colégio disputado, ninguém vai te tratar como branco se você for no shopping pela primeira vez com suas amigas brancas de classe média, nem os seus amigos brancos de classe média vão te tratar como branco. Porque raça não some com status social, e as relações de poder não vão te possibilitar exigir tratamento igual se você for negrx. E, principalmente, quando você ocupa um espaço que historicamente não é seu, as pessoas vão fazer de tudo (como fizeram comigo) pra te lembrar de que aquele não é o seu lugar.

2) Ignorar o racismo não faz com que ele seja menos doloroso. Muito menos com que ele desapareça.

Aos amantes do discurso Morgan Freeman eu posso dizer com propriedade: todas as vezes em que eu fingi que não estava sendo vítima de racismo, eu sofri em dobro. Sofri por saber que estava sendo discriminada e mesmo assim me obrigar a ficar quieta, sofri por ver pessoas que eu considerava como irmãos me inferiorizando pela minha raça, sofri porque eu sabia que era inteligente o suficiente para calar a boca deles, e mesmo assim, guardei minha opinião para mim.

3) O combate ao racismo nas escolas é de extrema importância, mas não está sendo realizado.

A escola, como instituição fundamental na formação do caráter do indivíduo (inclusive os Colégios Militares, que se orgulham muito de ensinar a moral e os bons costumes) deve exercer seu papel no combate à discriminação racial e de origem social. Não apenas com a implementação da Lei 10.639, mas também com capacitação dos profissionais, para que diante de casos como os que eu citei, haja atividades no sentido de combater efetivamente a ideologia racista tão presente entre a sociedade brasileira.

4) Estabelecer cotas para alunos negros e de escola pública é só o primeiro passo para resolver o problema.

Não adianta apenas garantir vaga para esses estudantes se o ambiente no qual eles terão que estudar é tóxico e irá apresentar casos de violência psicológica com tanta frequência. Apenas a implementação de cotas não é suficiente, é necessário um trabalho pesado para garantir que esses estudantes darão conta de continuar na instituição, desconstruir a naturalização do racismo e do preconceito de classe, garantir condições materiais para que o acesso à Internet, por exemplo, não seja mais uma forma de exclusão social.

5) A periferia me ensinou mais do que o colégio.

Em partes porque quando estava em sala de aula muitas vezes eu tinha que lidar com essas situações, mas eu posso garantir que letras de Rap me ensinaram mais sobre as consequências da divisão social do trabalho do que qualquer aula sobre teoria marxista. Presenciar a violência policial me fez aprender qual a origem e a função dessa instituição sem precisar pesquisar no computador que meu pai comprou. E jogar bola com o pé descalço na rua me fez muito mais resistente do que treinos de atletismo em uma pista com instrutor. É irônico, quando eu olho pra trás, perceber que a cultura periférica e o local onde eu morava eram motivo de riso para aquelas pessoas. Qualquer morador da periferia sabe muito mais da vida do que meus colegas que hoje se encontram em Universidades Federais, ou em algum país da Europa recebendo bolsa do Ciência Sem Fronteiras.

6) Discriminação nunca é inofensiva.

Talvez levem alguns anos para as vítimas se manifestarem, como eu fiz, algumas nunca terão a coragem de abrir a boca e afrontar seus agressores, sejam eles conscientes da violência que lhe estão impondo ou não.  Sempre restam sequelas, e as sequelas não estão nos olhos de quem vê.

7) Se considerar amigo de uma pessoa negra não te torna imune de ser racista. 

Dispensa explicações.

Viver buscando a verdade não é fácil – Por Vera Paixão

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O texto de hoje é de autoria da Vera Paixão. A Vera tem um histórico de militância no movimento negro em Curitiba de cerca de 27 anos, ajudou a fundar a ACNAP (Associal Cultural de Negritude e Ação Popular), assim como o Grupo Afro Cultural Ka-Naombo, do qual hoje eu faço parte como dançarina. Tenho um carinho especial por ela, não só pelo seu histórico mas também pelo papel que ela representa como mulher negra e me dói muito ver alguém que eu admiro tanto passar por situações racistas dentro de sala de aula. O espaço foi pedido para divulgação do desabafo e está sendo concedido com muito amor. Força Vera! Axé!

MEUS ALUNOS E MEUS AMIGOS! VIVER BUSCANDO A VERDADE NÃO É FÁCIL…
O mundo conhece o racismo brasileiro como racismo velado, o incrível é que para nós ele não existe, mesmo com tantas pesquisas e documentários afirmando como ele procede. Uma das formas é a negação da sua existência, baseados em senso comum, mas estamos em uma escola e o correto seria a busca de conhecimento, de saberes. Se passamos hoje por este momento talvez não seria a hora de conhecermos melhor para entender porque ocorreu?
Me pergunto, se não existe racismo, o que ocorre então se Curitiba e Região Metropolitana, segundo o IBGE, tem 23% da sua população sendo negra e ao andar nos corredores e olhar nos cursos encontramos apenas um ou dois representantes desta população?
O que ocorre quando vamos aos hospitais e seus funcionários em sua maioria não faz parte desta população? O que ocorre quando olhamos a mídia e não encontramos a mesma quantidade de representantes das populações brancas e negras?
Várias perguntas que só podem ser respondidas com conhecimento, é no que acredito. Mas parece que a responsabilidade é minha, porque estou me sentindo sozinha, pelo que estou passando neste momento.
Tudo que olho é contra mim, e o pior é que dizem que não, que é coisa da minha cabeça. As brincadeiras discriminatórias, as risadas e gargalhadas direcionadas, mas querem que eu acredite que eu que sou a inventora. Uma pessoa que todos conhecem a história, que nunca tive problemas em salas de aula, em Coordenar o Cursinho Pré Vestibular, em meu trabalho Cultural, em meu trabalho na defesa de Gênero. Parece que agora que estou buscando o conhecimento de uma nova profissão, com muita dificuldade, de um espaço que conquistei, não me querem lá.
Isso por causa da indelicadeza, pela forma que me tratam, estou psicologicamente abalada, hoje pensei em desistir de meu sonho, porque é tão forte os conflitos e fiquei tão sozinha, mesmo falando a verdade. Então porque falar a verdade se somos condenados, me diz! Será que é verdade que o sol brilha para todos? Então tem muita gente no escuro.
Será que mesmo estando estraçalhada dentro de uma sala de aula é melhor ir a luta em busca de dias melhores? Ou será melhor desistir e me tornar pobre de espírito, que não luta, mas também não vence?
É difícil a escolha, pois desistir do que se ama não é fácil, o mesmo acontece quando não se tem mais condições de sofrer, mas não pense que é por falta de coragem. Então, eu que sempre fui de ter bom senso, de ajudar, de aconselhar, agora estou nesta situação, eu rezo para que eu escolha a primeira opção, decida por me reestruturar e voltar na segunda feira.

Mulher E negra. Negra E mulher.

Quando eu conheci o feminismo não sabia que ia precisar reivindicar espaço dentro de um movimento que se propõe a lutar por emancipação. O mesmo ocorreu dentro do Movimento Negro. Mas não precisei de muito tempo para perceber que dentro do movimento feminista, eu sou negra, e dentro do movimento negro, eu sou mulher. 

O que nós mulheres negras tentamos explicar dia após dia dentro dos movimentos sociais é que enquanto não houver conscientização sobre privilégios individuais, não irá existir sororidade, nem Poder Para o Povo Preto. Opressões não são unilaterais, elas se somam. Enquanto integrante do movimento feminista eu não posso nunca esquecer que sou negra. E enquanto integrante do movimento negro eu não posso nunca esquecer que sou mulher. Eu não posso me dar a esse luxo, porque todo dia, quando eu saio de casa, minha pele e meu gênero estão sendo jogados na minha cara para me inviabilizar.

Sabe quem pode esquecer a cor da própria pele? Pessoas brancas. Na verdade, pessoas brancas raramente são obrigada a sequer pensar que elas são brancas. Por isso é muito fácil para uma mulher branca me dizer que eu não preciso fazer recorte racial em debates feministas. Mas esse luxo é dela, não meu.

Sabem quem pode esquecer o próprio gênero? Homens. Homens não são lembrados constantemente que são homens, eles não são assediados unicamente por serem homens, não são menosprezados em debates por serem homens e não são vulneráveis a estupro por serem homens. Esquecer meu gênero eu não posso, porque ele é usado para determinar onde eu posso andar, quando eu posso falar e quanto (des)crédito eu vou ganhar por estar dando minha opinião sobre determinado assunto.

Nós, mulheres negras, não podemos nunca nos esquecer de que somos mulheres, nem de que somos negras. A sociedade nunca nos permitiu esse luxo. Porque então, dentro de movimentos sociais, muitas vezes somos cobradas a deixar uma das opressões de lado?

Onde quer que eu esteja, estarei reivindicando meu espaço como mulher. E onde quer que eu esteja estarei reivindicando meu espaço como negra. 

Eu não faço parte somente de um desses grupos, mas estou nas piores estatísticas de ambos! Pedir para que uma mulher negra deixe de lado um dos grupos do qual ela faz parte é o mesmo que dizer: eu não me importo que as duas opressões se somem no seu cotidiano, aqui você só pode falar sobre uma.

Hoje, dia 25 de julho de 2014, Dia Internacional da Mulher Negra Latina e Caribenha, eu venho através desse texto, não pedir permissão, mas avisar: Somos mulheres negras e não vão nos silenciar por sexismo e nem por racismo!

Não me importo se você é mulher e sofre opressão por isso, se você usar seu privilégio racial para me silenciar eu vou me defender. Não me importo se você é negro e sofre opressão por isso, se você usar seu privilégio de ser homem para me silenciar eu vou me defender igualmente.

Que esse texto seja usado para todas as opressões que se interseccionam e que nunca tentem te inviabilizar de modo algum! Que nós possamos juntas derrubar todas as amarras que nos seguram e romper todas as barreiras que nos foram impostas.

Mulher negra, somos irmãs, e é como irmãs que venceremos!

SALVE MULHER NEGRA! SALVE MULHER GUERREIRA!

Luciana e Andressa Tavares

Nega maluca: black face é racismo!

O país do Carnaval é o país da brincadeira. E durante o Carnaval a brincadeira mais aclamada é a “Nega Maluca”. Um homem branco, se veste de mulher negra, pra que as pessoas possam dar risada dele. Sim, porque ser mulher e negra deve ser muito engraçado.

Mas no país do Carnaval, onde eu estou acostumada a ver a versão brasileira do black face “apenas” durante o Carnaval e talvez durante algumas festas a fantasia, eis que me deparo com a versão extravagante da chacota no meio da Marcha das Vadias, em Curitiba. O responsável me disse se tratar de uma homenagem, uma representação. E é aqui que eu, enquanto mulher negra quero ensinar uma coisa a todos os homens brancos que acreditam serem capazes de me representar.

Você sabe o que é ser mulher? Você sabe o que é ser mulher negra?

A origem do black face é facilmente encontrada em qualquer site de busca, o retrato caricato do indivíduo negro, com reforço de esteriótipos criados e perpetuados pelo homem branco. A tentativa de padronização dos nossos corpos, do nosso cabelo, da nossa pele. Além da forma pouco sutil e muito eficaz de manter atores negros longe dos palcos. As peças eram geralmente de chacota. O foco da risada: o personagem “negro”. O público alvo: sulistas estadunidenses em sua maioria, ex escravistas

Vou ressaltar que o objetivo original do black face era não somente a ridicularização do ser negro através de uma caricatura exagerada, mas também impossibilitar que indivíduos negros fossem capazes de representar a si mesmos.

Quando trazemos esse contexto para o cenário brasileiro e fazemos uma analogia à personagem carnavalesca Nega Maluca temos um agravante na história: a caricatura de uma mulher negra, hiperssexualizada, encarada como moeda de troca para o turismo sexual. O black face dos Estados Unidos reforça o esteriótipo do negro ridicularizado, a Nega Maluca do Brasil reforça o esteriótipo da “mulata exportação”.

Dentro dessa análise, como é possível que um homem branco, vestido de mulher e com tinta preta no rosto (exceto em volta dos olhos e da boca, qualquer semelhança é mero reforço de esteriótipo) seja capaz de estar fazendo uma homenagem a nós, mulheres negras, no meio de uma manifestação que pede o fim da violência contra a mulher e a liberdade sobre os nossos corpos?

Black face não é homenagem em contexto algum! Black face é racismo! E se vestir de mulher enquanto pratica o black face é dar voz ao patriarcado racista que ridiculariza nossos traços étnicos, que nos paga menos pelos mesmos serviços, que nos negligencia em atendimentos médicos, que vende nossos corpos como atrativo turístico e depois nos impede de realizar abortos.

Eu não quero homenagem racista e muito menos quero que um homem branco diga que está me representando. Nós somos capazes de nos representar. A mulher negra é força, a mulher negra é garra, a mulher negra é resistência. E nenhum homem branco com o rosto pintado será capaz de representar o que minha ancestralidade carrega dentro da minha pele. Nenhum homem branco nunca vai entender o que é o peso do machismo e do racismo tentando me levar pra baixo dia após dia. Nenhum homem branco vai me dizer que está me representando enquanto se utiliza de uma ferramenta racista histórica.

Ser mulher não é vestir saia uma vez por ano. Ser mulher negra não é pintar a cara com tinta preta.

Eu sou a mão que lava as feridas que não são mais causadas por açoite, mas por coronhada.

Eu sou a música que alegra o teu samba, esquenta tua cama, mas é trocada pela loira na hora de ser apresentada pra família.

Eu sou o grito da mãe que perdeu o filho pra guerra no morro.

Eu sou o choro da esposa que clama pelo retorno seguro do marido até em casa.

Eu sou a voz que reza por justiça para todos os meus que, apenas por serem negros, são tratados como inferiores.

Eu sou a mão que vai pesar na tua consciência toda vez que você pensar em ridicularizar minha raça.

Racistas não passaram, racistas nunca passarão!

E sai da frente com sua tinta guache preta, que EU to passando com a minha cor!