Tragédia em Charleston – O diabo nunca foi o nosso problema

Quando nossos antepassado foram feitos escravos, uma das justificativas para que nações cristãs e que teoricamente exaltavam a liberdade do proletariado em vender sua força de trabalho pudessem usar mão de obra escrava seria que negros não tem alma e que são pessoas amaldiçoadas. Várias distorções bíblicas e sermões foram realizados para espalhar as boas novas (Deus aprova a escravidão de negros!), e versões contemporâneas da falácia podem ser observadas em discursos do Feliciano (aqui e aqui, pra quem tiver estômago).

Após espalhar a notícia de que africanos são amaldiçoados e desprovidos de uma alma para ser salva, a Igreja achou importante obrigá-los a se converter ao cristianismo. Não como uma forma de salvá-los da maldição (salvar como se a gente não tem alma né?), mas sim como uma forma de dizimar qualquer vestígio das religiões africanas que chegaram à América junto com as pessoas que agora eram escravos. Enquanto no Brasil a tentativa acabou frustrada (apesar de ser grande a intolerância e a perseguição aos praticantes, o Candomblé e a Umbanda não desapareceram e seguem firmes na luta pelo respeito e pela igualdade), nos Estados Unidos é visível que quase não restaram traços da religiosidade africana, e a maioria da população negra aderiu ao cristianismo.

O ato terrorista e racista que culminou na tragédia de Charleston com a morte de 9 pessoas negras me fez pensar em muitas coisas, mas a que mais me incomodou foi o histórico sangrento e intolerante dos Estados Unidos (e sim, do Brasil também) com relação à liberdade religiosa dos negros em situação de escravidão e de seus descendentes após a abolição.

Primeiro eles nos dizem: Vocês não tem alma! Vocês são amaldiçoados!

Depois nos dizem: Ainda há chance, vocês precisam se converter ao cristianismo e deixar para trás “o culto ao diabo”.

Não somente utilizando-se do pressuposto de que o indivíduo branco é o normal e o protegido de um deus igualmente branco, como também ligando a cultura africana ao demoníaco, enquanto o que vem do europeu é o divino.

Hoje em dia ainda é comum ouvir em cultos que as pessoas negras precisam ainda mais do deus cristão, por tudo de ruim que nosso povo já passou. É praticamente como se dissessem “Vocês precisam aderir à nossa religião e nós vamos usar a tragédia que fizemos contra vocês para provar isso”.

Quando ouvi o áudio da filha de uma das vítimas da tragédia dizendo para o terrorista branco “Eu te perdoo e tenho misericórdia da sua alma”, tudo que eu conseguia pensar é que nós só estamos no lugar em que estamos porque eles sequer acreditaram que nós tivéssemos alma. Eles não teriam capacidade de ter misericórdia pela alma dos mortos de Charleston, ou pela menina candomblecista de 11 anos que foi apedrejada na semana passada.

E que não importa quanta expiação nos convençam que precisamos para nos comparar à população branca com sua cultura divina, no final do dia não vai ser o diabo que vai entrar armado na reunião de orações para tirar nossas vidas.
O diabo nunca foi o nosso problema.

Descansem em paz:

Tywanza Sanders

Sharonda Coleman-Singleton

Clementa Pinckney

Cynthia Hurd

Myra Thompson.

Ethel Lee Lance 

Daniel Simmons 

Rev. Depayne Middleton-Doctor

Susie Jackson

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Templo de $alomão: feito pra quem? – Por Lamya Rocha

O texto de hoje é uma contribuição da Lamya Rocha para o blog. A Lamya é uma pessoa que eu tenho a honra de chamar de irmã, sempre conversamos sobre questões religiosas e o impacto do cristianismo na realidade da população negra, jovem e periférica por termos esse histórico dentro da religião evangélica. Ela me enviou esse texto sobre o que ela vivenciou dentro da Igreja Universal, especificamente sobre a construção do Templo de Salomão, e eu pedi permissão para publicar aqui no blog.
Espero que gostem!

 

Sabe, não faço a linha de “falar mal” diretamente dessa ou daquela igreja, mas perante os episódios que circundam a inauguração do milionário Templo de $alomão, me sinto obrigada a expôr alguns fatos.

Bem, pra começar, falo com conhecimento de causa.

Participei da Universal durante mais ou menos 6 anos, o que corresponde a boa parte da minha adolescência.

Fiz parte do grupo de obreiros e da escola dominical – e exatamente por isso, por estar nessa “linha de frente”, é que posso discorrer os fatos sem passar por desonesta ou caluniadora.

Vou me ater aos eventos direcionados a construção do referido templo.

Não lembro exatamente em que ano começou a se falar sobre a tal construção grandiosa (2007, 2008 eu acho), mas me lembro muito bem da pressão que começou a se formar.

As campanhas, os pedidos de ofertas simplesmente saltaram.

Uma campanha específica, a Fogueira Santa – onde os fiéis são convocados a fazerem sacrifícios financeiros, que podem variar desde 500 reais até cifras milionárias, tipo milhões e milhões de reais – que ocorria regularmente 2 vezes por ano, passou a ter uma frequência de 4, 5 vezes por ano.

Agora vamos pensar o seguinte: o corpo de membros da universal é composta em sua maioria por pessoas humildes, inclusive os obreiros. Dá pra imaginar o estrago orçamentário que essas campanhas faziam?

Porque era aquele negócio: se você não participava, você era o incrédulo, o herege. Deus não ia te abençoar.

Quantas e quantas pessoas vendiam (e vendem) tudo o que tinham, pegavam todo o seu salário do mês pra pôr o dinheiro no envelope? Milhares.

Reiterando que fiz parte do grupo de obreiros, a pressão era triplicada. Éramos instigados a vender tudo, ainda que isso implicasse prejuízos financeiros e familiares, em troca de uma benção maior.

Ademais da Fogueira Santa, tinham também as campanhas menores e corriqueiras, as ofertas diárias, onde lembro claramente do pastor dizendo: “coloque aqui sua moedinha pra ajudar na construção do templo, vai ser um lugar pra todos nós”.

O templo foi erguido, com um custo aproximado de 680 milhões de reais, com tudo do bom e do melhor.

Mas e esse melhor foi construído pra quem?

Na última semana, a IURD publicou um guia de vestimentas a serem usadas no templo. Entre as muitas proibições, estão restritos o uso de calça jeans, chinelos, bermudas e mochilas.

E tem mais: o templo só pode ser visitado em excursões organizadas pela IURD, onde deve-se adquirir um ingresso, que tem o preço médio de 40 reais.

Então eu me pergunto: as moedinhas daquelas senhorinhas humildes que eu via na igreja, que muitas vezes não tinham um sapato fechado pra usar serviram pra ajudar erguer o templo, mas as mesmas senhorinhas tem de pagar se quiserem conhecer o mesmo? Não era pra ser um lugar de fé e comunhão, onde todos seriam aceitos sem distinção? Aliás, não tem versículo que diz que Deus não faz acepção de pessoas e outro onde ele diz “vinde como estás”?

Outra coisa: Jesus não era o cara rrevolucionário, que andava com os coxos, leprosos e mendigos? Então se um morador de rua passar na frente do templo e sentir-se tocado a entrar, será barrado por não estar de acordo?

Isso tudo tem um nome: desonestidade.

Desonestidade desses caras que fizeram e fazem fortuna em cima da fé alheia, mas nunca tiveram a menor consideração para com aqueles que lhes sustentam (muitos não sabem, mas pastores da universal não trabalham fora, recebem uma ajuda de custo, de acordo com seu cargo na hierarquia. E usam carro da igreja, aluguel pago pela igreja. Tudo isso sustentado com dinheiro dos fiéis).

Tive sorte de ter conhecido a verdade e ter pulado fora desse circo de horrores, mas e quantos não tiveram? Quantos ainda estão (e infelizmente vão continuar) sendo enganados?

templo

Tentou ser “só” homófobico mas acabou sendo racista.

Eu queria escrever sobre isso há algum tempo, mas acabei deixando de lado. A declaração, que parece ser uma das preferidas do polêmico em questão e de alguns conservadores que possuem uma opinião bem parecida, foi novamente feita há poucos dias atrás, em um evento que protestava contra o casamento gay, contra a criminalização da homofobia e a favor do Estatuto do Nascituro. O pastor Silas Malafaia soltou a seguinte frase:

Tentam comparar com racismo, mas raça é condição, não se pede para ser negro, moreno ou branco. Homossexualidade é comportamento. Ninguém nasce homossexual.¹

Uma declaração bem parecida foi feita pelo atual presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, que foi alvo de duras críticas e muitos protestos após assumir o cargo, porém com um agravante, citando negros e índios.

Malafaia gosta de repetir os mesmos argumentos furados, e eles são vários, mas quero falar especificamente sobre este: o direito que ele diz ter de discriminar homossexuais, simplesmente por acreditar que a homossexualidade é uma escolha (ele diz ter outros motivos igualmente absurdos para lutar pela garantia de que pode ter preconceito, mas este, particularmente, me incomoda um pouco mais). Existem argumentos para derrubar esse papo furado de “não existe ordem cromossômica homossexual”. Eu não sou especialista no assunto e não vou me arriscar a falar sobre genética, então aqui tem o link  com a resposta do geneticista Eli Vieira à entrevista que Malafaia deu no programa da Marília Gabriela.

Meu objetivo aqui não é nem o de derrubar essa ideia (que eu discordo totalmente) de que as pessoas escolhem ser homossexuais. Supondo que a explicação do video acima não tenha feito sentido e você continue achando que homossexualidade é opção, vamos agora falar sobre a declaração que relaciona homofobia e racismo.

Entrando na cabeça de Malafaia, Feliciano e seus seguidores, o racismo não pode ser comparado com a homofobia porque negros não escolhem ser negros, já homossexuais tem o poder de escolha, e mesmo assim escolhem o lado “””errado“””. Eu vou usar essa mesma linha de pensamento para uma situação hipotética: imagine que o mundo fosse diferente do que nós conhecemos, imagine que as pessoas tivessem mesmo a chance de escolher a própria cor de pele. Na sua frente aparecem várias opções, do tom de pele mais claro ao mais escuro, passando pelos tons avermelhados e amarelados. Você escolhe a sua cor, ganha um corpo e é encaminhado à Terra para viver. Se essa situação fosse realidade hoje, seguindo a linha de raciocínio dessas pessoas, qualquer um teria o direito de discriminar pessoas negras. Afinal, você tinha a opção de ser da cor que você quisesse e mesmo assim quis ser da cor preta. As opções foram dadas, você não escolheu a cor certa, agora aguente as consequências. Eu posso sim pregar na minha igreja que quem escolhe ser negro não herdará os reinos dos céus, eu posso sim dizer que essas pessoas escolheram ser assim por algum trauma de infância, eu posso sim dizer que é errado quando eu vejo um negro na rua, posso inclusive proibir que eles tenham os mesmos direitos que eu tenho, porque é uma ESCOLHA.

Absurdo? É exatamente assim que a comunidade LGBT é tratada por pessoas que pensam desse jeito. Não há justificativa nenhuma para discriminar homossexuais baseado simplesmente na falácia de que “eles são assim porque querem, eles escolheram o caminho da perdição”, porque em NENHUMA situação em que uma pessoa pudesse escolher ser diferente do que você é, você teria a liberdade de julgá-la, condená-la e/ou persegui-la por isso.

Essa menção ao racismo, feita dessa forma, coloca o negro como alguém que só é assim porque não teve opções. Não é permitido discriminar negros porque não é culpa deles terem nascido assim. Se eles pudessem escolher, não seriam negros e não seriam alvo de preconceito. Esses pastores esqueceram de mencionar que não é permitido discriminar nenhuma pessoa, em nenhuma situação. E agora não estou falando da lei dos homens (que eles, apesar de abominarem, querem ter uma pontinha de participação também), estou falando da “lei de Deus”. Eu ouvi tantas vezes que Deus não faz acepção de pessoas (aqui, aqui e aqui), por que não colocam esses versículos lindos em prática?

Realmente, eu não entendo a implicância que as pessoas tem com quem é diferente. Existem saídas muito mais cristãs para a questão do homossexual no Brasil. Se você acha que certa atitude é errada, a única coisa que você pode fazer é não praticá-la, você não pode obrigar todas as pessoas a pensarem como você pensa, principalmente porque você não é dono da razão. Não adianta falar que está na Bíblia, porque a Bíblia também não é a dona da razão, é um livro enorme com várias histórias e carregado de sabedoria, o mesmo livro que foi usado para justificar atrocidades cometidas pela humanidade (atrocidades justificadas pela Igreja), Bíblia não é lei. Pode ser para você, e nesse caso voltamos ao meu primeiro conselho: viva o que você acredita, mas nunca limite a vida de outras pessoas baseado na sua opinião pessoal. Impedir homossexuais de se casarem, impedir que eles tenham filhos, impedir que possam demonstrar afeto (sim, AMOR, lembra de Jesus?) em público e o pior, impedir que eles possam se defender (quem é contra a PLC 122 faz justamente isso). Onde é que vocês querem chegar com tudo isso? Vocês sinceramente acham que Deus fica anotando todas as atrocidades que vocês defendem num bloquinho pra dar os parabéns no “dia do juízo”? “Parabéns Malafaia. Você perdeu horas dizendo em rede nacional que um grupo de pessoas não deve ter os mesmos direitos que você sempre teve, porque isso seria privilégio, apesar de até então o privilégio ser todo seu. Não tem problema distorcer informações, pesquisas científicas e incitar o ódio em escala tão grande, o que importa é que você chamou bastante atenção ao problema e trouxe muito orgulho ao seu Pai. Pode entrar, as portas do céu estão abertas para você, ao contrário dos afeminados, aqueles ali eu já mandei pro inferno com dor e sofrimento eterno, é realmente um absurdo o mal que essa gente fez”. É esse o deus que essas pessoas seguem? Elas acreditam mesmo estar lutando por uma causa justa, uma causa cristã, de pessoas boas, que vão ser exaltadas perante o Criador e receberão a vida eterna? Esse não é nem de perto o Deus que eu conheço.

O que eu vejo é gente agindo de má fé. Eu conheço a Bíblia, sei que existem coisas maravilhosas escritas nesse livro, ensinamentos preciosos que podem ser usados para fazer muita coisa boa, e quando eu vejo um grupo de pessoas e -pior- pastores pegando trechos dessa mesma Bíblia para gerar segregação, ódio, tratamento diferenciado e condenação eu tenho certeza de que a verdadeira escolha que existe aqui é a de ser intolerante.

Afinal, vocês tiveram a opção de fazer o bem, mas escolheram fazer o mal. A única diferença é que eu não vou discriminá-los pela opção errada que vocês escolheram. Vou tentar praticar o amor ao próximo que eu aprendi com o meu Deus, e falar sem permissão com todo o carinho, que vocês não são cristãos, vocês são apenas disseminadores de ódio.

¹ Fonte

Por que eu saí da Igreja?

Eu não gosto de ficar me justificando (e realmente não imaginei que nesse caso fosse preciso) mas acho que quem precisa falar sobre isso sou eu, apesar de muitos estarem me cobrando. Aproveitando o embalo de que algumas pessoas precisam ler o que eu vou dizer, vai ficar tudo gravado por aqui mesmo.

Então tá: EU NÃO SOU MAIS EVANGÉLICA.

O que isso significa? Que eu sou uma pessoa livre e tomei uma decisão por conta própria

Onde você quer chegar com isso? Em lugar nenhum, é só mais uma entre tantas escolhas que a gente faz na vida.

Você virou ateia? Não.

Você virou inimiga da Igreja? Não.

Então por que fica atacando a Igreja no seu blog? É bem aí que eu quero chegar.

Basta fazer uma leitura atenta aos poucos textos que eu postei sobre influências religiosas para ficar claro que eu não estou atacando a Igreja ou a religião, estou atacando ideias. As mesmas ideias que me fizeram virar as costas para a religião dos meus pais e deixar de frequentar o local físico da Igreja com o qual eu estava acostumada desde sempre.

Sempre mesmo. Não existiu um dia na minha vida anterior à essa decisão que eu não tenha feito parte da comunidade evangélica. Eu nasci na Igreja, fui apresentada à Igreja, e nunca havia “conhecido o mundo”. Eu fui praticamente criada dentro de Igrejas. Foi na Igreja que eu descobri meu amor por música, aprendi que é possível mudar vidas, conheci as pessoas que mais marcaram a minha vida, aprendi a ver além das aparências, vivi experiências maravilhosas e inexplicáveis. Não foi fácil deixar para trás uma parte enorme da minha história, mas é bem simples explicar o motivo que me levou a fazer isso.

Ideias.

Um dia eu percebi que não concordava com tudo do que era dito, pregado e espalhado pelos meus irmãos. Eu percebi que aquela não era a minha visão de amor, que aquela não era a minha batalha. Não é impossível continuar congregando após perceber isso, eu mesma prossegui por mais alguns anos e conheço muita gente que é ativa na Igreja mas tem ideais bem parecidos com os meus, e a verdade é que é muito difícil que alguém concorde com 100% do que é pregado pela própria Igreja, mas mesmo assim eles estão lá. Por que foi então que eu não consegui?

Porque as pessoas são diferentes, simples assim. Em determinado momento, eu não conseguia mais escutar uma pessoa influente passando para centenas de criaturas uma ideia que, na minha visão, não tinha nada de cristã. E não existe um espaço aberto para discutir esses assuntos. Não dá pra simplesmente chegar pro seu líder e falar “Oi, você poderia por favor parar de falar assim das religiões de matriz africana? É preconceito, preconceito que chegou até nós como herança do racismo explícito de centenas de anos atrás. Eu falei com Deus ontem e Ele me disse que eu tenho razão em me sentir ofendida já que você está ofendendo a minha origem. Tem como parar? Vamos conversar sobre as diversas formas de Deus se manifestar?”. A conversa podia até rolar, mas no final não tem outra saída. “Não se discute princípio Bíblicos”, fim.

Eu comecei me afastando aos poucos. E quanto mais eu me afastava da Igreja, mais eu me aproximava de Deus.

Eu levei anos para entender quem era Deus. Porque eu me obrigava a ver o deus que a religião me apresentava e não deixava que Ele se manifestasse de nenhuma maneira diferente das quais eu já conhecia. Eu levei anos para reconhecer que Deus é muito mais. E eu demorei porque me ensinaram a limitá-lo.

Desmond Tutu, arcebispo anglicano e Nobel da Paz, diz que é impossível que uma única religião possa apresentar a totalidade de Deus aos seus fieis. Porque Deus representa o infinito, e nenhuma mente humana, limitada, é capaz de compreender isto. Eu não conheço a Deus somente quando estou na Igreja, Deus está em tudo e em todos. Deus está em uma ação, em um gesto, em um olhar. Ele está na música que sai da minha boca, nos movimentos que me fazem dançar, na lágrima que rola pelo meu rosto. Está na natureza, no meu próximo e dentro de mim. Deus é e não deixa nunca de ser. Deus é Deus independente do nome que você dê a Ele, independente da forma como escolheu se comunicar com Ele, independente de quem você seja ou quem você ame. Deus é Deus independente de você acreditar nEle, independente da sua religião (ou da falta dela). Deus se manifesta para mim de forma diferente da qual Ele se manifesta para você, porque nossas necessidades são diferentes, nossas lutas são diferentes, nossos caminhos são diferentes. E Ele sempre vai arranjar um jeitinho especial de estar presente e te manter firme, mesmo que você não perceba, mesmo que você não acredite.

Hoje eu não deixo que ninguém tente me ensinar quem é Deus e o que Ele quer de mim. Eu O conheço desde o ventre da minha mãe, Ele esteve presente em toda a minha existência. Ele me conhece e entende as motivações que me levam a agir.

Mesmo que eu não tivesse uma trajetória de quase 18 anos dentro da Igreja Evangélica, Ele estaria aqui. “Eu sou o que sou” agora tem um significado diferente para mim. Mesmo que eu não tivesse um nome específico para Lhe dar, que eu não reconhecesse Sua presença, mesmo que negasse a Ele todos os dias, Ele estaria aqui.

“Eu sou o que sou” fez de mim quem eu sou. E isso inclui minhas opiniões consideradas “radicais”, meu temperamento explosivo, meu gênio meio difícil de lidar, minha compaixão sem limites, minha forma de amar exagerada e meu otimismo em um mundo em que todos os Seus filhos possam viver em harmonia e igualdade. Para lutar por esta ideia, eu abri mão da minha religiosidade. E quanto mais eu luto pelo que eu acredito, mais eu me aproximo de Deus.

Eu me sinto mais plena do que nunca, mais viva do que nunca e mais amada do que nunca. Talvez não seja tão herético assim, ser quem eu sou.

Aprendi na Igreja: Não defraudarás

Eu devia ter uns 15 anos e estava em um culto de sábado. Cultos de sábados geralmente são direcionados para os jovens da igreja, são mais animados, a galera pula e dança durante o louvor inteiro, a linguagem usada é mais atual e sempre tem umas carinhas novas querendo conhecer “aquela igreja que toca rock, reggae e rap”. Enfim, cultos de sábado estão sempre cheios de gente nova, jovem e curiosa.

A programação estava ocorrendo normalmente até que uma das pastoras pediu licença e disse que tinha algo importante a falar, que ia tomar um tempo da palavra para dizer algo que, segundo ela, Deus estava querendo nos orientar. Pediu para que abríssemos nossas Bíblias no livro de Tito, capítulo 02 versículos 01 ao 10. E me apresentou pela primeira vez o termo ‘defraudar’. Defraudar, segundo o trecho lido e com uma leve declinada ao que ela queria dizer, foi explicado como o ato de causar um sentimento em alguém, de forma proposital, sabendo que você não pode ou não esta dispostx a satisfazê-lo (A definição mais próxima que eu cheguei a isso no dicionário foi: “privar dolosamente de”). Ela disse que queria falar com as moças, as jovens da igreja.

A pastora passou um tempo falando sobre como as mulheres do mundo (do mundo = quem não aceitou a Jesus) tem se comportado de maneira leviana, tem tomado atitudes e posturas que não condizem com a posição de uma mulher íntegra, como elas tem adquirido uma ‘liberdade’ que na verdade só traria coisas ruins. Por um segundo eu, com a melhor das intenções que uma mulher criada para ser machista pode ter, pensei: “Ruins para elas né, pastora?”. Mas não, ela estava dizendo sobre como aquilo era ruim para os homens.

Basicamente, ela falou sobre como o nosso jeans mais justo, a nossa blusa que está um pouco decotada, o nosso vestido que está acima do joelho, fazem mal ao homens (tadinhos). Porque, segunda ela, homens tem impulsos sexuais muito mais fortes, eles não conseguem se controlar diante de uma par de pernas desnudas. Eles tem pensamentos pecaminosos, que acabam levando a atitudes pecaminosas. Enfim, ela estava pedindo pra que nós parássemos de fazer os menininhos da igreja pecarem.

Naquela época eu concordava com tudo aquilo – mas quando não ia pra igreja e sabia que não ia encontrar nenhum conhecido eu colocava meu shorts mais curto sim, usava minha regata que deixava um decote um pouco mais ousado, até deixava uns pedaços da barriga aparecendo de vez em quando, super rebelde – mas mesmo sendo tão preconceituosa quanto a maioria da sociedade curitibana, eu fiquei esperando, depois de tão formidável (adjetivo que eu só usaria na época) discurso, que ela passasse a segunda parte da pregação dirigindo-se aos homens presentes, algo do tipo “Por outro lado…” . Fiquei só esperando, não aconteceu.

Acho que foi a primeira vez que eu detectei e fiquei extremamente brava com uma atitude machista dentro do ambiente religioso.

Claro que eu já era feminista. Não me identificava como tal porque existe uma carga de preconceito e ignorância que vem junto com o termo, mas eu sempre ficava muito incomodada quando não me deixavam jogar bola descalça com os meninos na rua (eu invadia o ‘campo’ mesmo assim), quando meu primo ficava bravo porque eu corria mais do que ele, quando não deixavam meu irmão brincar de boneca com as minhas primas, quando alguém falava ‘mocinha não senta desse jeito’ (odiava esse último mortalmente!). Mas quando minhas ideias revolucionárias entravam em conflito com o conservadorismo da igreja, eu ficava quieta.

Dessa vez eu não me aguentei. Lembro que fechei meus olhos e pedi a Deus pra me dar muita paciência, pra me perdoar por ter pensamentos que fugiam da Palavra, mas que aquilo estava muito errado. Eu não sabia explicar o motivo, mas eu sabia que não era justo. Eu nunca tinha provocado ninguém que eu não quisesse provocar. E mesmo assim já tinha perdido as contas de quantos homens, jovens ou adultos, haviam invadido meu espaço, me desrespeitado e me dando motivos para ter medo de sair de casa em certas situações. Eu sabia que esses assédios não aconteciam exclusivamente naquelas situações especiais em que eu colocava a minha roupa ousada. Acontecia o tempo todo, inclusive no caminho para a igreja. Não importava a minha roupa, eu sempre tinha que aguentar as manifestações do incontrolável impulso sexual masculino. Eu sabia que a culpa não era minha.

Fiquei quieta. Queria falar com alguém mas já sabia onde isso ia acabar. “A Palavra de Deus diz que …”. Eu sabia o que a Biblia dizia, uma pastora tinha acabado de ler pra mim. O que eu queria poder explicar em voz alta era que, com todo o respeito, a Bíblia estava errada. Era a minha experiência de vida contra um pedaço de texto escrito há sabe Deus quantos mil anos. Era da minha dor, da minha angústia diária que eles estavam falando.

Ouvir isso saindo da boca de uma pessoa que eu tanto admirava e que, além de pastora, era psicóloga, me incomodou profundamente. Saber que ela estava fazendo aquele discurso em uma igreja cheia de jovens altamente influenciáveis me incomodou mais ainda.

O problema nunca esteve na mulher que não sabe como se comportar/vestir. O problema é o homem que não sabe respeitar. Não é muito mais fácil ensinar os meninos desde pequenos a tratarem mulheres de forma normal, explicar que elas são seres humanos e não bundas e peitos ambulantes? Não daria mais resultado subir no púlpito e falar para os homens que eles são responsáveis pelo estupro anual de mais de 40 mil brasileiras que não pediram para serem estupradas? Não seria lógico dizer para os homens que desejos sexuais são fenômenos naturais, mas que se algum deles não consegue controlar esses impulsos deveria procurar ajuda? Porque nesse caso ninguém precisaria limitar a opção de escolhas das mulheres, a gente não ia precisar ouvir que somos menos dignas e estamos provocando só porque escolhemos aquela roupa.

Seria legal, viver em um mundo onde eu pudesse usar meu shorts sem que uma pastora diga para seus fiéis “Ah meninos, aquela ali está defraudando…”.

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Aprendi na Igreja: Oferecer a outra face

Quando eu era criança, minha mãe costumava ler para mim antes de dormir. Nada diferente do que outras mães fazem com outras crianças, a não ser pelo fato de que na grande maioria das vezes Branca de Neve era trocada por Davi e Golias e Cinderela por Jonas e a Baleia. Família cristã, educação cristã.

Desde cedo aprendi a orar antes de dormir e de comer, a cantar hinos de adoração e a achar versículos na Bíblia. Nosso Natal era centrado no nascimento do Cristo, os desenhos que eu e minhas primas costumávamos assistir eram cristãos e até nosso “parabéns pra você” tinha (ainda tem) uma adaptação com relação ao tradicional. É difícil para uma pessoa criada em um ambiente assim pensar fora do padrão cristão, mas não impossível.

Eu sempre tive opinião pra tudo. Ou achava que tinha. O importante não era falar e mostrar que eu entendia do que estava sendo discutido, mas mostrar pra mim mesma que eu sabia tanto quanto os outros. Muitas vezes, enquanto os adultos discutiam assuntos de adultos, eu ficava quieta no meu canto, pensando em tudo que eu diria se houvesse espaço pra uma criança falar alguma coisa sobre aquilo. E era muito convincente comigo mesma, ás vezes me colocava em posição contrário a tudo que estava sendo dito por aqueles seres evoluídos que sabiam tudo e mandavam em tudo, só pra ver se meus argumentos eram bons.

Acontece que dentro de religiões existem assuntos proibidos. Não proibidos de serem ditos, proibidos de serem contrariados. O tal do dogma religioso. Só aprendi esse termo na escola, e na hora em que entendi o que ele representava consegui pensar em alguns muitos exemplos. Mas só por alguns segundos, porque Deus estava vigiando. Foram anos defendendo ideias que eu não entendia, mas eram a verdade. Anos atacando pessoas que eu não conhecia, mas que eram pecadores. Anos impedindo a mim mesma de pensar sobre alguns assuntos e ver até que ponto eu concordava, apenas porque Deus estava vigiando. Esses tópicos específicos que estavam proibidos para minha avaliação e opinião pessoal foram colocados de lado por bastante tempo. Falava quando tinha que falar. Não gostava de pensar porque me incomodava muito essa história de que “isso não se discute, é lei sagrada”.

Um dia, estava lendo reportagens e achei um link sobre uma escritora moçambicana, Paulina Chiziane, cujo título era “Nós temos medo do Brasil”

“O título acima foi recolhido de uma resposta dada pela escritora moçambicana Paulina Chiziane, que esteve recentemente em Brasília, quando da realização da I Bienal Brasil do Livro e Leitura (…).  A resposta referia-se a pergunta feita por mim, tanto a ela quanto ao escritor angolano Ondjaki, que participavam da mesa de debate sobre a Literatura Africana Contemporânea, sobre qual a era a percepção que eles, enquanto africanos, possuíam, da imagem do Brasil no continente africano, hoje.
Inicialmente fiquei surpreso com a objetividade e veemência da resposta. Como se diz no popular, uma resposta curta e grossa. Mas ela foi adiante e disse: ‘No século XV os europeus chegaram em África com a espada em uma mão e a bíblia na outra, para nos colonizar. Hoje, os brasileiros chegam com a bíblia e suas igrejas destruindo nossas tradições, levando o medo e o desassossego ao nosso povo e querendo nos ensinar quem é Deus!’. Duro de ouvir, difícil de admitir, mas é a pura verdade.” ¹

O pouco que eu conheço sobre questões missionárias me veio à mente após ler esse texto. Evangélicos sempre ficam na defensiva nesses casos, tentam achar uma maneira de se justificar. Mas a verdade é que a grande maioria dos missionários que vão ao continente africano dão uma atenção maior à religiosidade do que aos problemas gritantes que rodeiam a vida daqueles que também são nossos irmãos. Não tinha me passado pela cabeça até então por que é que essa gente não vai pra lá simplesmente para ajudar? Por que é que o “trabalho voluntário” não é suficiente e eles tem que converter as pessoas a todo custo, abrir uma igreja e fazer quebra de maldição?

Eu, orgulhosa na luta por igualdade racial, me vi diante de uma questão delicada. De um lado, minha criação cristã e a pregação quase que semanal de que outras religiões não adoravam ao “deus verdadeiro” (como cristãos não admitem a existência de outro deus, as divindades de religiões não cristãs sempre eram apresentados como o Diabo e seus demônios). Do outro, meu anseio por igualdade racial e respeito à cultura que faz parte da minha história, aliada à vergonha de admitir que aquilo que foi dito pela entrevistada era a mais pura verdade. Não foi a primeira vez que me vi diante deste dilema, mas foi a primeira vez que eu decidi não fugir dele. Pensei, pesquisei, orei e fiquei nessa situação por um tempo. Até que um dia eu parei de lutar. Existia uma resposta óbvia para aquela questão, eu só evitei chegar nela porque eu simplesmente não queria bater de frente com os assuntos proibidos.

Igreja e religião nunca salvaram ninguém. Não importa o que os “escolhidos de Deus” pregassem, eu sempre soube que entre um crente que espanca a esposa e um pai de santo que luta contra o machismo, Deus iria “preferir” o segundo. Então, qual o motivo para todo aquele ataque gratuito às outras religiões? Até então, eu acreditava que o espiritismo, por exemplo, cultuava demônios. Mas como eu poderia afirmar que isso era a verdade se eu nunca tivera contato com a religião em questão? Falar mal de algo que eu não conhecia, naquela época, eu já considerava como preconceito. Foi então que eu me dei conta de que estava simplesmente reproduzindo coisas que algumas pessoas haviam jogado na minha cara, e me obrigado a engolir. Eu percebi que foi muito cedo que me ensinaram a ter repulsa por todo tipo de religião, incluindo as afro brasileiras, e que eu reproduzi esse discurso racista por anos. Eu, uma mulher negra, orgulhosa da minha cor, com um desejo ardente de ver igualdade racial e de acabar com qualquer discurso segregacionista, também tinha o meu lado racista e intolerante. Então eu vi: eu fazia parte da massa cristã que colaborava com a destruição da cultura africana e dava motivos para que Chiziane afirmasse ter medo da intolerância brasileira.

Não foram só as escamas que caíram dos meus olhos para me devolver a visão. Aquilo tudo foi um tapa bem dado na minha face direita. Mas se levar um tapa significava abrir minha mente e me livrar do preconceito, eu estava pronta para oferecer o outro lado.

OBS: Esta foi minha primeira vez. Parece besteira, mas é preciso muita coragem para questionar certas posicionamentos cristãos. Este é o primeiro de uma série de textos que eu pretendo publicar sobre as influências religiosas que eu sofri ao longo da vida, como identifiquei a negatividade, incoerência e/ou preconceito em algumas delas e como está sendo minha jornada para reparar erros e mudar atitudes causados por essas ideias destrutivas, que muitas igrejas insistem em pregar como divinas. Quem quiser pode acompanhar na categoria “Aprendi na igreja”. Até a próxima!