Por que eu raspei meu cabelo

Eu não sei como começar esse texto. Porque palavras digitadas não fazem justiça ao sentimento que toma conta de mim agora.

Meu nome é Stéphanie, e eu passei anos sendo escrava de imposições estéticas.

Ser uma mulher negra tem dessas coisas. Você não é mulher, é uma mulher negra. E para se encaixar no mundo das “mulheres” algumas imposições são definidas. A imposição que mais me afetou nesses meus 20 anos de vida foi a imposição sobre o meu cabelo.

Alisei, estiquei e prejudiquei meus fios por cerca de 5 anos. Neguei quem eu era, escondi minha ancestralidade, busquei o elogio daqueles que insistem em não nos ver como a beleza padrão.

É necessário dizer que por eu não ter um cabelo tão crespo, aquele cabelo MARAVILHOSO que cresce para cima, para os lado e chama a atenção de todxs com sua magnitude, eu tive sim certos privilégios. Já falei sobre isso nesse post aqui. Mas não vamos esquecer de que sou negra, meu cabelo não é liso, e embora eu tenha recebido algum “amor branco” pelo meu embranquecimento, eu nunca fui tratada como branca. Sofri discriminações sim com meu cabelo cheio de cachos, discriminação suficiente para me fazer escondê-los por tanto tempo.

Quando eu me libertei e decidi que não iria mais ceder a essa imposição estética, eu consegui finalmente descobrir o quanto eu me amava.

Por anos eu alisei meu cabelo, e de tanto alisá-los eu cheguei a esquecer de como eu realmente era. De quem eu era. Do que eu representava. Eu sequer lembrava da textura do meu cabelo, ou de como minha mãe me sentava em uma cadeira após o banho para penteá-los. Eu não lembrava mais de como era poder entrar em uma piscina ou tomar chuva sem me preocupar de como os outros (ou, pior, eu mesma) pudessem ver quem eu era por trás da chapinha. E quando eu finalmente tive coragem de me olhar no espelho, natural, cacheada, NEGRA, eu amei o que vi.

Eu passei a usar meu cabelo como resistência, como símbolo político, como representação de quem eu era. E lá se foram mais 5 anos.

Há aproximadamente 1 ano, após passar por um episódio traumático de machismo e assédio sexual, eu tive um vislumbre de mim mesma. De quem eu era e de quem o machismo dizia para eu ser. Eu me achava tão dona de mim, tão liberta, mas na verdade existem tantas amarras invisíveis segurando mulheres negras que no momento me parecia quase que impossível me libertar de todas. Aquele homem branco, tentando ser dono de meu corpo, tentando me dizer o que eu poderia ou não fazer enquanto ele passava a mão em mim, fazendo com que as pessoas que estavam ao redor dessem risada da minha tentativa angustiada e frustrante de gritar para ele que eu era dona de mim mesma e que ele não poderia me tocar, isso tudo explodiu dentro de mim e eu tive vontade de gritar CHEGA!

Eu já era ativa dentro do feminismo negro, eu já lutava contra opressão, contra assédios dentro de transporte público, contra toda essa droga de injustiça que recai sobre nossos corpos. Mas eu queria mais! Eu queria gritar para o mundo ESSE CORPO É MEU! TIREM SUAS MÃOS DE CIMA DE MIM!

Eu encontrei minha solução ao entender que a maior referência estética para definir como uma mulher deve ser na sociedade brasileira se expressa em transferir nossa “feminilidade” para o nosso cabelo. E assim eu decidi que iria raspar o meu.

Precisei de quase um ano para criar coragem, pesquisei, li histórias de mulheres que passaram pela mesma decisão (site MARAVILHOSO aqui pra quem sabe inglês, e aqui o Tumblr de uma brasileira), descobri que dava pra doar cabelo para mulheres com câncer, para mulheres escalpeladas, para limpar vazamento de petróleo do mar, conversei com o noivo, com amigas, com parceirxs de movimentos sociais, e a cada dia eu tinha mais certeza de que queria ficar careca.

Quando eu finalmente criei coragem, falei com algumas pessoas e me trouxeram o contato de uma mulher com câncer de mama que iria fazer sua própria peruca (MUITO AMOR <3) para que eu pudesse fazer a doação, esperei uma semana para me despedir dos fios que fizeram parte da minha vida, e finalmente consegui abrir mão da maior imposição estética na vida de uma mulher.

EU NUNCA ME SENTI TÃO BEM EM TODA A MINHA VIDA.

Não apenas porque eu estou gritando “quem manda nesse corpo sou eu”, não apenas porque eu pude ajudar uma pessoa em um momento de dificuldade, não apenas porque todo mundo gostou e disseram que eu estou linda. Eu ME sinto bonita. Eu ME sinto plena. Eu ME sinto livre. E não existem palavras suficientes para explicar o quanto isso me mudou. É quase como a incrível sensação de usar meus cachos após anos de alisamento outra vez. É como decidir que meus cabelos tem dona, e ninguém pode me ensinar o que fazer com eles. Eu me sinto livre, me sinto feliz, me sinto uma nova mulher.

Após raspar meu cabelo eu me olhei no espelho, natural, careca, NEGRA, eu amei o que vi.

Meu nome é Stéphanie, e eu sou uma mulher livre.

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ps 1: Se alguma de vocês lendo esse texto está cogitando em fazer o mesmo, meu conselho é: faça! Liberte-se! Reinvente-se! Seja quem você quer ser! Seja feliz!

ps 2: Texto atualizado com fotinhas novas porque eu to simplesmente me amando!

 

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Eu não quero ser aceita, quero ser respeitada!

Depois de uma longa pausa para focar em assuntos pessoais (principalmente a faculdade, que está me dando muita bagagem para postagens futuras, aguardem!), a reclamona volta. Não tinha como não me indignar, não tinha como não comentar, não dá pra fingir que nada aconteceu.

Há alguns meses eu fiz uma denúncia sobre racismo ligada diretamente ao cabelo crespo no meu facebook, relacionei uma matéria sobre o caso a episódios pessoais (nada diferente do que eu faço por aqui). Um indivíduo ficou extremamente preocupado com a situação, me xingou, disse que eu era louca, que ninguém chamava cabelo crespo de bombril e que quem estava de segregação era eu (eu!).

Pois bem, eis que em um dos poucos momentos que tenho para usar a internet me deparo com a seguinte reportagem: http://www.geledes.org.br/racismo-preconceito/21584-acusado-de-racismo-autor-ameaca-tirar-menino-negro-da-novela

Existem momentos específicos em que o racismo brasileiro fica extremamente evidente, é o caso da matéria. E existem momentos em que cidadãos negros comuns denunciam seus episódios particulares e são chamados de loucos. Vamos esclarecer bem onde está a loucura aqui.

Somos fruto de uma nação racista. Somo criados dentro de uma cultura racista. O histórico do Brasil é racista. Onde está a loucura em denunciar o racismo cotidiano que atinge a população negra? Não sei de onde surgiu essa ideia de que com o “fim da escravidão” o racismo se diluiu no ar, todo mundo deixou de ser racista, ninguém mais ensina racismo em casa nem nas escolas. Séculos de cultura racista desapareceram, pra que lutar contra o racismo?

Louco é quem acredita nessa mentira. Não existe democracia racial. Não existe igualdade nesse país. Não existe mesmo tratamento e mesmo respeito. Seria impossível que de uma hora para outra o preconceito impregnado na cultura brasileira desaparecesse. Não desapareceu! De quantas provas os iludidos da igualdade racial vão precisar?

Walcyr Carrasco quer um personagem bem aceito? Eu não quero ser aceita, quero ser respeitada! E não quero ter que raspar a cabeça de um menino negro para isso. Não quero ter que tirar meu turbante da cabeça. Não quero ter que explicar para ninguém que “cabelo de bombril” ainda é uma ofensa comum nas escolas brasileira, e que fingir que racismo não existe não vai fazer com que ele desapareça. Precisamos de políticas públicas! Precisamos empoderar a população negra! Precisamos de representatividade nas mídias!

Não acompanho novelas, mas percebi que a discussão abriu o espaço perfeito para jogar na cara do brasileiro todo o seu racismo. Sim, porque o primeiro passo é assumir que somos racistas. Lutar contra o preconceito, para Carrasco, é colocar uma mulher negra como protagonista de uma novela escravocata, mas quando uma nova oportunidade aparece, ele ameaça tirar o personagem da novela.

Essa é a representação perfeita de como temos de agir. Quando denunciamos, batemos de frente, não nos calamos e exigimos respeito, somo loucos e segregacionistas. Mas quando o racismo aparece, nos curvamos a ele e damos um passo pra trás, aí sim agradamos a “todos”. Afinal, ninguém quer ofender a “população brasileira”.

Mas seu cabelo é tão bonito…

eu sei que é. E só eu entendo o tempo de que precisei para me dar conta disso.

Meu cabelo é crespo. Já passou por diversas fases (mudanças naturais e, posteriormente, químicas), mas nunca deixou de ser crespo. Quando eu era criança ele fazia um cachinho bem fechado e era enorme, até a triste noite em que minha mãe, cansada após um dia de trabalho e não conseguindo desembaraçar minha pontas, pegou silenciosamente uma tesoura e cortou meus cachinhos sem me avisar.  Depois disso meu cabelo começou a mudar, não sei se pelo corte ou por influências hormonais, mas ele nunca deixou de ser o que é: crespo.

Breve resumo da minha trajetória de aceitação: quando eu era criança, sempre se referiam ao meu cabelo de forma negativa. O apelido preferido dos maldosos dessa idade é o famoso “bombril”. Eu não precisava de comentários discriminatórios para saber que eu não era regra, era exceção. Sou curitibana, a parcela negra é extremamente pequena na nossa população quando comparada com a média nacional. Eu não me reconhecia nas ruas, nem nas revistas e nem nas novelas. Eu não precisava das piadas e dos risinhos para entender que eu não era considerada “normal”. Eu era um caso a parte, e um dia eu entendi que sempre iriam me tratar como sendo um caso a parte. Aos 11 ou 12 anos de idade encontrei a solução para pelo menos um dos “problemas”: escova e chapinha. Aprendi a fazer em mim mesma e passei anos com o cabelo liso, todos os dias. Chegou um momento em que eu realmente não lembrava como era o meu cabelo natural, eu só via o reflexo de uma ilusão no espelho. Um belo dia, um tufo (não foram fiozinhos, foi um tufo mesmo) de cabelo simplesmente caiu da minha franja. Eu me vi obrigada a parar de usar os relaxamento que ajudavam a desfazer os cachos e deixar de lado secador e chapinha, ou iria ter que ver meu cabelo quebrando e caindo de tufo em tufo, até ficar careca. Depois de 3 meses sem agredir meus fios, não me lembro exatamente como, eu vi meu reflexo em um espelho e, assim, do nada, gostei do que vi. Foi assim que eu aprendi a amar meu cabelo. Foi forçado, foram necessários alguns anos de rejeição, e quando eu me dei conta de como meu cabelo era lindo, veio a revolta. Primeiro eu me revoltei comigo mesma. Como eu fui capaz de deixar que os outros fizessem isso comigo? Como deixei que a pressão e a insatisfação de outras pessoas com um cabelo que era só meu me afetasse dessa forma? Depois me revoltei com as pessoas que de alguma forma me levaram a isso e por fim me revoltei com nossa cultura racista.

Minha primeira aparição como natural depois do episódio do cabelo que caiu foi realmente forçada, eu não tinha outra opção. Mas chegou um momento em que eu decidi que iria carregar na minha cabeça, a minha resistência.

Hoje fazem 5 anos que eu assumi meu cabelo natural. Eu tenho orgulho de quem eu sou e sei que passo essa sensação para as pessoas. Hoje, chamar meu cabelo de bombril não vai me fazer ser a criança isolada no intervalo, nem me obrigar a ir rápido para casa “dar um jeito nesse cabelo”. Hoje, o racismo vem de forma diferente, quase sutil.

O que eu escuto atualmente, com uma ou outra variação é a seguinte frase: “Seu cabelo é tão bonito! Ele é cacheadinho, não é aqueles crespos feios”.

Qual é o problema dessa frase?

  1. Ao difamar uma característica fenotípica da minha raça, você está me difamando. Não importa se você pensa que porque meu cabelo tem um cacho mais aberto, ele automaticamente deixa de ser crespo. Na verdade, mesmo se meu cabelo fosse naturalmente liso, eu não deixaria de ser negra, e você não deixaria de estar me difamando.
  2. Ao exaltar uma característica que deixa claro minha miscigenação e não permite que o fenótipo negro se manifeste completamente, você está valorizando meu embranquecimento. Não estou dizendo que é ruim ter uma característica não negra, estou dizendo que quando você usa isso para dizer que meu cabelo é melhor do que um genuinamente crespo, você está sendo racista.
  3. Sua noção de beleza não é necessariamente uma opinião pessoal, ela é ensinada. Quando você diz que um cabelo crespo é feio, você está propagando um preconceito que é imposto. Por que será que tanta gente usa essa mesma frase? É a opinião das pessoas que é assim mesmo, ou existe uma cultura que te ensinou desde sempre que cabelo crespo é feio?

O racismo é cruel. Quando ele quer me rebaixar, ele assume que meu cabelo é crespo para conseguir me colocar em uma posição inferior e estigmatizada. Quando ele quer enaltecer meu embranquecimento (e acaba, da mesma forma, inferiorizando a minha raça), ele diz que meu cabelo não é crespo e é por isso que ele é bonito. Ele também fala do meu nariz delicado e do tom da minha pele (nem se atreva a corrigir alguém que te chama de “moreninha” na rua. É um elogio, é claro que você não é negra. Negra é negra, você é morena).

Se eu gosto de elogio? Claro que eu gosto. De pessoas que eu conheço, pessoas que tem essa liberdade e que não usam o suposto enaltecimento de algum atributo físico como base para segregar ainda mais a população. Até agora eu não falei sobre elogios. Sabe o que seria um elogio? “Seu cabelo é tão bonito!”. Agora, se você quer me comparar com outra pessoa da minha própria raça para valorizar meus traços europeus ou asiáticos ao mesmo tempo em que desvaloriza a imagem da mulher negra, eu vou achar ruim sim.

Meu cabelo é bonito, mas não porque ele é “menos crespo”. Ele é bonito porque ele é meu, e ele não só carrega a identidade que eu havia perdido na infância, ele carrega o meu grito de protesto. Ele joga na cara do racismo brasileiro que eu não sou menos mulher por ser negra, nem menos negra por ser mestiça. Com o tempo, eu percebi quem eu sou e aprendi a me amar.

Por que tanto texto por causa de um cabelo? Porque não existe manifestação racista inofensiva. O preconceito com o cabelo crespo pode sim prejudicar a vida das pessoas. Para quem não lembra do caso, dá uma lida aqui sobre a estagiária de pedagogia que foi praticamente obrigada a alisar ou prender o cabelo, e quase perdeu o emprego por, além de não ceder à pressão da escola em que trabalhava, denunciar o caso de racismo explícito, que acabou indo parar na mídia. E aqui você pode saber como a influência da mesma discriminação afetou sua vida profissional.

Em que situação vocês imaginam que uma mulher ou um homem negro tenham plena segurança de exercer sua profissão e serem tratados de forma igualitária quando absurdos como esse continuam acontecendo? São eles quem tem de aprender a alisar ou raspar o cabelo, se curvando às exigências do racismo, ou é a sociedade que está absurdamente impregnada por padrões estéticos que foram criados com o objetivo claro de segregação?

Sou eu que vejo problemas em tudo, citando falhas imaginárias em uma frase inofensiva do cotidiano de qualquer mulher, ou a sociedade que não percebe que essas frases não tão inofensivas são usadas para desestabilizar a auto estima e estereotipar a figura do negro?

Para você que eventualmente esteja lendo esse texto e lembre que um dia já fez esses mesmos comentários, lembre-se que não é a sua pessoa que eu estou julgando, é o preconceito que eu tenho que combater todo dia. Lembre-se disso da próxima vez que ver uma mulher negra, lembre-se disso quando quiser elogiá-la e lembre-se de não deixar que o suposto embranquecimento da população brasileira te faça pensar que ser menos negro, é ser mais bonito.

O cabelo da discórdia:
cabelo da discórdia

Obs: esse texto foi editado após o comentário da Klene Oliveira. A palavra “denegrir”, que eu havia usado inicialmente com um sentido negativo foi substituída por outros termos, termos que realmente indicam inferiorização ou difamação. “Denegrir” signfica “enegrecer”, usar esse termo como se fosse algo negativo vai totalmente contra tudo que eu acredito e contra o próprio texto. Obrigada pela correção Klene!

Culpando a vítima e ensinando a vítima a se culpar.

Aconteceu em uma tarde dessas de verão, no meio das férias, um dia preguiçoso.

Estava com uma amiga, minha vizinha, conversando na sacada de casa. Não vou recordar o assunto agora, mas estávamos muito concentradas. Uma falava, a outra respondia. Provavelmente a conversa ainda ia durar muito. Acho até que eu tinha dado umas risadas naquele dia.

Um carro parou na frente da minha casa e o motorista ficou olhando. Minha amiga estranhou e ficou inquieta (a gente morava em uma região complicada, ela ainda não tinha se livrado do trauma de ver dois motoqueiros atirarem contra um motorista em uma rua deserta) mas eu a tranquilizei. “Não tem problema, a casa está à venda. Olha o tamanho da placa com o número da imobiliária. Tomara que seja um comprador, meu pai quer se mudar logo”.

13 ano de idade. Ingênua de mais.

Continuamos conversando, voltamos a rir (será que eu ri naquele dia?), mas depois de alguns minutos eu comecei a achar estranho também. O carro parado, o motorista olhando. Decidi encarar, meu gênio é forte e estoura rápido. Olhei nos olhos daquele homem. Ele usava óculos e cavanhaque. Percebi que ele já estava me encarando antes. Percebi que aquele olhar não era de um psicopata que queria matar alguém, aquele era o olhar de desejo e tesão de um homem. Ele estava dentro daquele carro, parado na frente da minha casa, olhando para duas crianças durante 5 minutos e se masturbando compulsivamente.

Engraçado como eu descobri o olhar de tesão de um homem. Primeiro veio a dúvida, depois o susto. Depois eu percebi o movimento dos braços e minha vontade era de me jogar daquela sacada, fechar os olhos e não abrir nunca mais. Nojo, repulsa, medo, dúvidas. Tudo passou muito rápido pela minha cabeça. Olhei para a minha amiga, ela estava com uma cara de assustada. Deve ter percebido o mesmo que eu, ao mesmo tempo.

Sem combinar, viramos as costas e fomos para dentro da casa. Sem combinar, mudamos de assunto. Sem combinar, ela foi embora. Sem combinar, nunca mais falamos sobre isso para ninguém. Nem mesmo uma semana depois, quando minha mãe comentou que muitas meninas da vila reclamaram de um motorista em um carro qualquer, e disse para que eu ficasse longe da rua enquanto a polícia não achasse o novo tarado do bairro. Eu podia ter dito “Mãe, ele já me achou, ele já me fez mal. Você pode me dar um abraço e me proteger? Eu estou com medo de sair na rua”, mas eu não disse.

Eu me culpei pelo que aconteceu por anos. Eu podia ter dito para minha vizinha que aquilo estava estranho na primeira vez que ela reclamou, entrado e achado aquele CD de funk que a gente amava, tirado ela da sacada e ensinado o novo passo que eu aprendi com minha amiga carioca. Eu podia ter gritado alto pro meu pai que tinha um tarado na rua. Eu podia não estar usando um shorts e parada naquela posição, apoiada na sacada. Acho que homens pensam que isso é atraente, talvez se eu estivesse sentada no chão como eu sempre fazia, ele não ficasse com aqueles desejos incontroláveis que os homens sentem.

Não posso falar por ela, perdemos contato e mesmo se ainda tivéssemos não sei se conseguiríamos falar sobre aquela tarde na sacada da minha casa. Mas em mim esse episódio gerou um misto de medo e revolta. Eu tinha 13 anos e não sabia o que significava “cultura de estupro” ou “culpabilização da vítima”, mas quantas vezes eu tinha ouvido que existem roupas decentes e roupas que denigrem, que existem mulheres direitas e mulheres que não se valorizam, que homem é assim mesmo e a gente tem que aprender a não provocar? É óbvio que eu ia achar que a culpa era minha. Foi por isso que eu não contei pra ninguém, foi por isso que eu perdi a chance de ir até uma delegacia identificar o sujeito. Como que eu ia chegar pro delegado e falar “A gente tava conversando, ele ficou se masturbando por 5 minutos mas eu juro que não percebi. E eu estava de shorts porque estava com calor, não queria provocar ele”. Na minha cabeça, ninguém ia entender isso, porque na minha cabeça a responsabilidade de evitar esse tipo de assédio era minha. E eu havia falhado. Que direito eu tinha de reclamar agora?

Um ano depois minha dúvida se confirmou quando eu fui até uma delegacia prestar depoimento sobre a ligação de uma amiga que tinha acabado de ser estuprada. O delegado fez de tudo para que eu dissesse que ela estava inventando, perguntou quantos namorados ela teve, se ela era virgem, e me deu os parabéns quando eu disse que ainda era, como se isso fosse relevante nessa situação. Eu sabia que não era, eu era virgem e já havia sido violentada (embora nada comparado ao que minha amiga passou), por que eu iria querer os parabéns dele? Que tipo de sociedade doente admite um delegado especializado em crimes contra a mulher que age desse jeito? A sociedade doente que pensa como esse delegado.

Vamos encarar os fatos: A gente gosta de pôr a culpa na mulher.

Comentário do meu facebook em uma foto sobre o tema: “EH,MAS INFELIZMENTE TEM MULHERS Q SE VESTEM COMO QUEM GOSTARIA DE SER (estuprada)!O MEU RESPEITO A TODAS ELAS!!”

Comentário de Danuza Leão em texto publicado na Folha de S. Paulo sobre a onda de estupros recente: “É claro que o ideal é que as meninas sejam respeitadas, mas, para isso, é preciso também que elas ajudem. As famílias devem orientar os filhos a serem seres civilizados, claro, e ao mesmo tempo ensinar às filhas a não usarem shortinhos, minissaias de um palmo, jeans que mal cobrem a virilha, tops mínimos, camisetas em cima da pele, e por aí vai. Se aos 13, 14 anos, a sexualidade dos meninos está exacerbada, não deve ser só a deles; a delas também. Desde que o mundo é mundo as mulheres gostam de provocar, de se exibir, de se sentir desejadas. Faz parte do jogo. Mas a sexualidade masculina é mais violenta e é aí que mora o perigo.” (para tentar entender o motivo de uma mulher colocar a culpa em outra em casos de estupro clique aqui)

Comentário de Gerald Thomas sobre o episódio em que enfiou a mão debaixo do vestido da mulher que tentava entrevistá-lo: “Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de ‘fuck me’, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO […] Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas! A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal”

Só alguns exemplos para ilustrar. Quem quiser mais é só jogar no google. Ou abrir qualquer reportagem que fale sobre estupro, descer a página até os comentários e se banquetear com o show de horrores. “Bebeu de mais”, “tava na rua de madrugada”, “tava com saia curta”, “não tentou se defender”, “prostituta reclamando de estupro???”.

Para começar: ninguém pede para ser estuprado. Como comentou uma amiga minha esses dias no facebook, se pedisse não seria estupro. Eu não coloquei meu shorts e fui correndo pra varanda pensando “Tomara que hoje apareça um desequilibrado sexual e que ele me veja de shorts e se masturbe me olhando, vou ganhar meu dia” e muito menos a Nicole Bahls vestiu o figurino dela torcendo para que um escritor mal educado e extremamente vulgar enfiasse a mão no meio de suas pernas.

Outro ponto importante é que a sexualidade masculina não é mais violenta. Homens são violentos porque são educados para serem violentos. Nossa sexualidade pode ser despertada tanto quanto a de qualquer homem. E acreditem, existem muitas coisas que vocês fazem ou falam que acabam nos provocando. A única diferença é que a gente não sai por aí colocando a culpa em vocês.

Mulher não é objeto e ponto. Não importa o que a mulher faça, fale ou vista, ela continua sendo um ser humano dotado de vontade própria. Então, não importa se é uma prostituta semi-nua que está parada na sua frente, se ela disse “não” você não tem permissão para tocar nela e se mesmo assim o fizer, sua atitude vai ser sim classificada como crime. Ou agora a profissão de uma pessoa impede que ela possa decidir com quem quer ou não fazer sexo? Achei que todo mundo tivesse liberdade para escolher.

Esse post não é sobre o meu trauma de infância nem sobre o estupro da minha amiga. É sobre a responsabilidade que nós ganhamos -ou acreditamos ter- quando sofremos abusos. É sobre tirar o foco do criminoso e colocar na vítima. É sobre como nós estamos ensinando nossas crianças que homens são bichos com instintos incontroláveis e mulheres devem se comportar de forma a não incomodá-los, ou sofrerão as consequências sem direito nenhum de reclamar.

Eu não fui a única criança do mundo a esconder um abuso sexual por acreditar que a culpa era minha e eu acabaria sendo castigada. Minha amiga não foi a única mulher do mundo a sofrer com o machismo de um delegado e ter que provar (mesmo depois de um exame médico) que havia sido estuprada. A Nicole Bahls não é a única mulher com auto-estima e orgulho do próprio corpo que é tocada sem permissão e depois chamada de vadia porque quis reclamar. Isso é comum, assustadoramente comum. E só acontece com tanta frequência porque existe consentimento. De que lado você está? Do lado que repudia qualquer violência sexual, ou do lado que pensa “Tudo bem, essa aí tava pedindo“? Do lado que cria filhas que “sabem se proteger”, ou que cria filhos que sabem respeitar? E se você começou a pensar que são os dois lados que precisam ser educados, precisa voltar ao começo do texto e ler tudo de novo. Não queremos ter a liberdade limitada para termos respeito, queremos ter respeito e ponto. Parece absurdo? Para mim parece óbvio.

125 anos depois…

e eu ainda tenho que explicar que as consequências da escravidão de um povo ainda fazem parte da vida desse povo…

Chato né? A gente falando de racismo o tempo todo, denunciando, reclamando. A gente pedindo ‘RESPEITEM NOSSA BELEZA AFRO’, gritando que cabelo crespo não é ruim, que ser negro não significa ser exótico.

A gente dizendo que a polícia é racista, que nossos estudantes são racistas, que até professores são racistas.

Eu acho tão chato, negros que pedem para que as piadas racistas deixem de ser ditas, que tentam se defender a todo custo, que estão sempre alertas para dizer o que é e o que não é racismo e se você pode ou não pode falar assim.

Chato de mais, negro que está sempre na defensiva, dizendo que não tem “preconceito consigo mesmo”, que o “racismo não está nos olhos de quem vê” e que ele não é moreno, é NEGRO.

Já me coloquei no lugar de vocês, agora tentem se colocar no meu (é só por alguns parágrafos, não precisa ficar com medo).

Tentem imaginar como é legal ter que se defender, denunciar e reclamar de coisas que acontecem com você todo dia. Como é motivador quando você liga a TV ou abre uma revista e não se vê representado. Você não pode usar seu cabelo natural porque não é adequado ao local de trabalho, vai ter que perder algum tempo e dinheiro tentando ficar igual àquelas meninas do mesmo programa de TV e da mesma revista na qual você tentou se enxergar há alguns instantes. Imagine-se explicando que o exótico é o diferente, e você não é diferente, você é maioria nesse país.

Imagine como seria viver num país onde a polícia, que deveria te defender, vai na realidade sempre te ver como suspeito, vai eliminar os seus iguais, vai dizer que quem nasce como você nasceu não é porra nenhuma. Um país onde o futuro da nação faz piada com uma personagem da sua raça que rompeu barreiras e preconceitos, vai tentar colocá-la na posição da qual ela nunca devia ter saído: humilhada e domada, é assim que as mulheres que são “do mesmo tipo”  que você são representadas. Não esquecendo que neste mesmo país, as mesmas pessoas que ensinam esses mesmos futuros da nação sejam capaz de te prender numa sala e te tratar de forma diferente e degradante, só porque você nasceu assim.

Agora imagina, além de anos de opressão e da atualidade de tudo que foi dito acima, você ter que ouvir da boca dos seus amigos comentários sobre como é engraçado ser como você é. Que isso, é só brincadeira, ninguém está se baseando no preconceito enraizado da sua sociedade e muito menos no fato de que ter as suas características, 125 anos atrás, significava que você não era pessoa e sim mercadoria. E imagina que quando você tenta se defender as pessoas dizem que você não sabe brincar, não tem senso de humor. Pior, imagine se alguém dissesse que você, enquanto oprimido diante de toda essa situação, não tenha o direito de falar o que é e o que não é ofensivo, quem dita o que pode e o que não pode são aqueles outros, os diferentes.

Considere que diante de uma vida com todos esses episódios acontecendo dia após dia, você finalmente entenda que existe uma forma de mudar essa rotina: identificar o preconceito e acabar com ele com a boa e velha conversa. Mas aí vão te dizer que é você que vê preconceito onde não tem, que você quer se defender do que não existe, que você quer privilégios, que absurdo.

Visualize a situação em que você entendeu e aceitou sua condição, você tem orgulho de quem você é, então você pede que parem de usar aquele termo que foi utilizado por muito tempo para minimizar o impacto negativo da realidade que você tem que ver no espelho todo dia. Eles não entendem que você quer ser chamado pelo que você realmente é, que você não tem motivos para ter vergonha.

Mas eles não querem entender, eles não sabem como é estar na sua pele.

Chato né? É chato mesmo.

Posso me defender?

Hoje eu saí cedo de casa, caminhando apressada para pegar o ônibus, com uma sacola pesada na mão, tentando achar o cartão transporte. A minha casa fica a exatamente uma quadra da estação tubo, e hoje foi só de uma quadra que eu precisei para ser assediada.

Eu já estava quase lá, chegando na esquina, quando escuto um homem falando pro amigo dele “Noooooossa, olha isso cara” e apontando na minha direção, com uma expressão ridícula no rosto, que mais parecia alguém que nunca viu uma mulher na vida. É meio óbvio dizer que me senti um objeto em exposição. Sabe quando seus amigos estão vendo um carro novo na vitrine e soltam um “Noooooossa, olha isso cara”? Então, foi idêntico.

Cantada “leve”? Para alguns pode parecer (apenas para quem não tem que aguentar isso todo dia e não é obrigado a viver essa rotina, pretendo fazer um texto explicando esse processo mais pra frente), pra mim é o suficiente para tirar minha paciência e me arrancar um palavrão. Mas hoje eu decidi ser educada. Já que a cantada foi “leve”, respondi no que pode ser considerada uma pergunta leve:

– Perdeu alguma coisa aqui?

– Perdi meu ouqwv023nuiaew?ça (juro que eu me esforcei mas não entendi o que ele disse, devia estar bêbado)

– Não cara, eu acho que você perdeu foi o respeito.

Simples. Fui até muito educada pro meu gosto, mas to tentando manter um diálogo mais calmo pra ver se os caras entendem o meu lado. Não adiantou nada. O indivíduo soltou uma enxurrada de palavrões, frases pornográficas, ficou gritando até que eu chegasse no tubo. Eu fiquei um pouco assustada. A coisa começou de maneira branda, minha resposta foi objetiva, mas o cara perdeu totalmente a cabeça.

Eu podia ter me arrependido da resposta que eu dei, podia desistir de todas as respostas que eu decidi dar para todos os folgados que estragam o meu dia, mas a conclusão a que eu cheguei foi diferente. Eu percebi que na cabeça dele, ele pode fazer e falar o que quiser, mas eu não tenho direito a dar uma resposta. Na cabeça dele, ser homem vem com essa exclusividade de falar o que bem entender pra uma mulher sozinha na rua, mas se essa mulher tentar fazer qualquer coisa para afirmar sua condição de ser humano e, como ser humano, digna de respeito, então ele perde a paciência. “Como ela se atreve a me responder?”

A partir de agora eu vou responder, sim. Vou responder desde a cantada mais inocente até a passada de mão na minha bunda. Não gosta de ouvir minha resposta? Não me dê motivos para te responder. Acha que é muita folga uma mulher dizer alguma coisa depois de ser assediada? Acostume-se. Já faz tempo que a gente não abaixa mais a cabeça, está mais do que na hora de começarmos a usar a própria voz.