Mulher E negra. Negra E mulher.

Quando eu conheci o feminismo não sabia que ia precisar reivindicar espaço dentro de um movimento que se propõe a lutar por emancipação. O mesmo ocorreu dentro do Movimento Negro. Mas não precisei de muito tempo para perceber que dentro do movimento feminista, eu sou negra, e dentro do movimento negro, eu sou mulher. 

O que nós mulheres negras tentamos explicar dia após dia dentro dos movimentos sociais é que enquanto não houver conscientização sobre privilégios individuais, não irá existir sororidade, nem Poder Para o Povo Preto. Opressões não são unilaterais, elas se somam. Enquanto integrante do movimento feminista eu não posso nunca esquecer que sou negra. E enquanto integrante do movimento negro eu não posso nunca esquecer que sou mulher. Eu não posso me dar a esse luxo, porque todo dia, quando eu saio de casa, minha pele e meu gênero estão sendo jogados na minha cara para me inviabilizar.

Sabe quem pode esquecer a cor da própria pele? Pessoas brancas. Na verdade, pessoas brancas raramente são obrigada a sequer pensar que elas são brancas. Por isso é muito fácil para uma mulher branca me dizer que eu não preciso fazer recorte racial em debates feministas. Mas esse luxo é dela, não meu.

Sabem quem pode esquecer o próprio gênero? Homens. Homens não são lembrados constantemente que são homens, eles não são assediados unicamente por serem homens, não são menosprezados em debates por serem homens e não são vulneráveis a estupro por serem homens. Esquecer meu gênero eu não posso, porque ele é usado para determinar onde eu posso andar, quando eu posso falar e quanto (des)crédito eu vou ganhar por estar dando minha opinião sobre determinado assunto.

Nós, mulheres negras, não podemos nunca nos esquecer de que somos mulheres, nem de que somos negras. A sociedade nunca nos permitiu esse luxo. Porque então, dentro de movimentos sociais, muitas vezes somos cobradas a deixar uma das opressões de lado?

Onde quer que eu esteja, estarei reivindicando meu espaço como mulher. E onde quer que eu esteja estarei reivindicando meu espaço como negra. 

Eu não faço parte somente de um desses grupos, mas estou nas piores estatísticas de ambos! Pedir para que uma mulher negra deixe de lado um dos grupos do qual ela faz parte é o mesmo que dizer: eu não me importo que as duas opressões se somem no seu cotidiano, aqui você só pode falar sobre uma.

Hoje, dia 25 de julho de 2014, Dia Internacional da Mulher Negra Latina e Caribenha, eu venho através desse texto, não pedir permissão, mas avisar: Somos mulheres negras e não vão nos silenciar por sexismo e nem por racismo!

Não me importo se você é mulher e sofre opressão por isso, se você usar seu privilégio racial para me silenciar eu vou me defender. Não me importo se você é negro e sofre opressão por isso, se você usar seu privilégio de ser homem para me silenciar eu vou me defender igualmente.

Que esse texto seja usado para todas as opressões que se interseccionam e que nunca tentem te inviabilizar de modo algum! Que nós possamos juntas derrubar todas as amarras que nos seguram e romper todas as barreiras que nos foram impostas.

Mulher negra, somos irmãs, e é como irmãs que venceremos!

SALVE MULHER NEGRA! SALVE MULHER GUERREIRA!

Luciana e Andressa Tavares

Nega maluca: black face é racismo!

O país do Carnaval é o país da brincadeira. E durante o Carnaval a brincadeira mais aclamada é a “Nega Maluca”. Um homem branco, se veste de mulher negra, pra que as pessoas possam dar risada dele. Sim, porque ser mulher e negra deve ser muito engraçado.

Mas no país do Carnaval, onde eu estou acostumada a ver a versão brasileira do black face “apenas” durante o Carnaval e talvez durante algumas festas a fantasia, eis que me deparo com a versão extravagante da chacota no meio da Marcha das Vadias, em Curitiba. O responsável me disse se tratar de uma homenagem, uma representação. E é aqui que eu, enquanto mulher negra quero ensinar uma coisa a todos os homens brancos que acreditam serem capazes de me representar.

Você sabe o que é ser mulher? Você sabe o que é ser mulher negra?

A origem do black face é facilmente encontrada em qualquer site de busca, o retrato caricato do indivíduo negro, com reforço de esteriótipos criados e perpetuados pelo homem branco. A tentativa de padronização dos nossos corpos, do nosso cabelo, da nossa pele. Além da forma pouco sutil e muito eficaz de manter atores negros longe dos palcos. As peças eram geralmente de chacota. O foco da risada: o personagem “negro”. O público alvo: sulistas estadunidenses em sua maioria, ex escravistas

Vou ressaltar que o objetivo original do black face era não somente a ridicularização do ser negro através de uma caricatura exagerada, mas também impossibilitar que indivíduos negros fossem capazes de representar a si mesmos.

Quando trazemos esse contexto para o cenário brasileiro e fazemos uma analogia à personagem carnavalesca Nega Maluca temos um agravante na história: a caricatura de uma mulher negra, hiperssexualizada, encarada como moeda de troca para o turismo sexual. O black face dos Estados Unidos reforça o esteriótipo do negro ridicularizado, a Nega Maluca do Brasil reforça o esteriótipo da “mulata exportação”.

Dentro dessa análise, como é possível que um homem branco, vestido de mulher e com tinta preta no rosto (exceto em volta dos olhos e da boca, qualquer semelhança é mero reforço de esteriótipo) seja capaz de estar fazendo uma homenagem a nós, mulheres negras, no meio de uma manifestação que pede o fim da violência contra a mulher e a liberdade sobre os nossos corpos?

Black face não é homenagem em contexto algum! Black face é racismo! E se vestir de mulher enquanto pratica o black face é dar voz ao patriarcado racista que ridiculariza nossos traços étnicos, que nos paga menos pelos mesmos serviços, que nos negligencia em atendimentos médicos, que vende nossos corpos como atrativo turístico e depois nos impede de realizar abortos.

Eu não quero homenagem racista e muito menos quero que um homem branco diga que está me representando. Nós somos capazes de nos representar. A mulher negra é força, a mulher negra é garra, a mulher negra é resistência. E nenhum homem branco com o rosto pintado será capaz de representar o que minha ancestralidade carrega dentro da minha pele. Nenhum homem branco nunca vai entender o que é o peso do machismo e do racismo tentando me levar pra baixo dia após dia. Nenhum homem branco vai me dizer que está me representando enquanto se utiliza de uma ferramenta racista histórica.

Ser mulher não é vestir saia uma vez por ano. Ser mulher negra não é pintar a cara com tinta preta.

Eu sou a mão que lava as feridas que não são mais causadas por açoite, mas por coronhada.

Eu sou a música que alegra o teu samba, esquenta tua cama, mas é trocada pela loira na hora de ser apresentada pra família.

Eu sou o grito da mãe que perdeu o filho pra guerra no morro.

Eu sou o choro da esposa que clama pelo retorno seguro do marido até em casa.

Eu sou a voz que reza por justiça para todos os meus que, apenas por serem negros, são tratados como inferiores.

Eu sou a mão que vai pesar na tua consciência toda vez que você pensar em ridicularizar minha raça.

Racistas não passaram, racistas nunca passarão!

E sai da frente com sua tinta guache preta, que EU to passando com a minha cor!

Quando foi que ser chamado de racista passou a ser mais grave do que sofrer racismo?

Hoje pela manhã quando liguei o notebook li essa matéria sobre racismo evangélico. Nada novo, não é muito comum esse nível de manifestação racista em cultos, geralmente é algo que passa mais despercebido, mas eu não fiquei surpresa. Dando uma olhada rápida nos comentários da matéria publicada na Página do Geledés li algumas manifestações de desagrado com a generalização, que não é todo evangélico que é racista, não pode falar assim. 

Dito isso, vamos ao cenário de algumas semanas atrás, quando rolou uma briga no meu Facebook envolvendo racismo evangélico (inclusive já comentei sobre isso aqui). Depois de quase 200 comentários de muita briga e absurdos passíveis de prisão sem direito a fiança eu percebi que os únicos evangélicos que apareceram na briga o fizeram a fim de defender os outros evangélicos (que estava destilando racismo em uma rede social, usando a Bíblia como escudo e a unção de deus como justificativa para serem imunes a críticas e até mesmo à Constituição Federal). Fiz um post exigindo posicionamento dos cristãos com quem tenho contato, que não são poucos já que passei apenas 18 anos da minha vida frequentando igrejas. Com exceções que ficaram bem definidas (e tenho certeza que essas pessoas sabem que estou falando delas porque deixei claro que entendi e apoiei suas palavras), a maioria dos comentários alimentavam uma série de esteriótipos e alguns até tentavam se defender ao atacar outras minorias. Alguns postaram comentários públicos, outros me mandaram mensagens inbox. Do total, acredito que as pessoas que responderam ao meu questionamento não correspondiam sequer a 10% dos cristãos que eu conheço. E não, não conseguiram me convencer que o mundo cristão está menos racista do que no período em que eu fazia parte dele.

Existe uma situação que é rotineira dentro de igrejas. O pastor, pastora, missionário, dirigente do louvor, o responsável por pedir o dízimo e as ofertas ou seja lá quem for que esteja com o microfone na mão fala uma besteira, faz um comentário discriminatório, todos ficam quietos. Eu sei que é difícil fazer um questionamento durante o culto, a passividade ensinada pelo cristianismo chega a impossibilitar interrupções enquanto a “autoridade de deus” está falando, mas existem várias maneiras e vários momentos em que uma contestação é possível. Acho que me recordo de uma única situação em que uma pessoa se posicionou contra uma liderança, foi convidada a se retirar da igreja. 

Mas e quando a manifestação discriminatória (supostamente baseada no livro sagrado do cristianismo) é feita em uma roda de conversas? E quando é feita com alguém da sua família? Quando está escancarada em redes sociais? O que impossibilita que um cristão se manifeste? 

Eu já cansei de ler reclamações sobre a generalização que existe hoje em dia com relação ao cristianismo, principalmente a evangélicos. Já presenciei muitos evangélicos se defendendo, se sentindo ofendidos, como quando alguém diz “racismo evangélico”. Mas o que eu não vejo com nenhuma frequência (e posso contar nos dedos as situações em que vi algo do tipo acontecer) são exatamente esses evangélicos que se dizem não racistas posicionando-se e repudiando atos de racismo baseados no “ensinamento cristão”. Quando existe uma conversa pública com expressões totalmente perceptíveis de racismo apoiado em uma leitura distorcida da Bíblia aparecendo na sua página inicial do Facebook, silêncio. Quando a pessoa que foi atacada por tais expressões generaliza pela maioria dos evangélicos que conhece dizendo “evangélicos são racistas”, aí tem barulho, aí tem ofensa. Quando está acontecendo um culto em que a pregadora se utiliza da ridicularização de fenótipos negros, a consequência é não apenas silêncio de alguns, mas o riso de muitos. Quando uma pessoa que estava nesse mesmo culto se manifesta ao transcrever em um texto toda a “depressão gerada por um mundo evangélico adoecido”, reclamação, ataques, que absurdo!

Isso não é exclusividade do meio cristão e me lembra de outro caso, o da Stephanie Ribeiro, que publicou um texto expondo as situações racistas que vem ocorrendo com ela na PUC de Campinas. A resposta para o trauma, a dor e o racismo institucional? Alunos da instituição reclamando de racismo reverso, generalização e vitimização. Vale lembrar que os casos citados pela Stephanie aconteceram de forma pública, vários alunos sabiam das situações as quais ela foi submetida, muitos deles quando eram expostos aos casos ridicularizavam-na ainda mais. Outros ficaram quietos. A faculdade disse que não podia fazer nada. E quando ela exige respeito ele bradam “NÃO GENERALIZE, NÃO SOMOS TODOS RACISTAS”. Onde estavam os não racistas quando ela encontrou seu armário pixado? Onde estavam os não racistas quando ela era atacada em redes sociais? Onde estavam os não racistas quando uma das alunas disse em alto e bom som que negro fede mais que branco? 

É importante frisar que a generalização existe quando a maior parte daquele grupo apresenta determinado comportamento. E ela é necessária para definir como esse grupo se apresenta e como ele está atuando. Exceções existem e sempre irão existir. Mas nenhuma vítima de racismo deve deixar de denunciar as violências – físicas ou psicológicas – as quais foi submetido só porque uma ou outra pessoa daquela instituição não agiu assim. Vale ressaltar que o silêncio não é uma boa forma de dizer que você é contra uma atitude, principalmente em situações nas quais a ação discriminatória de um indivíduo está relacionada com o ambiente que você frequenta e, consequentemente, irá atingir a você mesmo e a todos os membros dessa instituição (no caso do cristianismo isso é ainda mais grave porque muitos racistas fazem uso da própria religião e da Bíblia para justificar seus preconceitos). 

Se a maioria dos evangélicos não fosse racista, não haveria conivência em discriminar indivíduos negros dentro de um culto. Se a maioria dos evangélicos não fosse racista, não teria sido necessário que eu exigisse um posicionamento dos meus colegas com relação a declarações racistas que vários deles já estavam cientes, a manifestação e a defesa seria algo natural (e até cristão).

Se a maioria dos estudantes de Arquitetura e Urbanismo não fosse racista, eles estariam mais preocupados em cobrar punição aos autores do crime do que em se defender, ficariam mais chocados com o fato de uma estudante ser discriminada por motivações raciais do que em serem identificados como uma instituição que é sim racista. 

Aos indivíduos não racistas que pertencem às instituições que comumente são identificadas como racistas, acredito que a generalização não se apresenta como uma ofensa, mas sim uma possibilidade de expôr uma realidade que precisa ser modificada. Inclusive essas são as pessoas que são favoráveis a exposição desse tipo de situação, com a esperança de que algum dia apareça uma mudança.

Aos indivíduos que se dizem não racistas (lembram que 90% dos brasileiros afirmam existir racismo no Brasil, mas somente 10% se assumem como tal?): onde estão esses indivíduos quando a manifestação discriminatória está acontecendo? Se a instituição da qual você faz parte realmente não for racista, não é tão difícil assim calar a voz de quem não representa a maioria, certo? Até lá, vamos continuar generalizando pelas manifestações mais comuns. Se no meio do caminho você se assustar e perceber que sim, as acusações e as generalizações estão corretas, a caixa de mensagens está aberta para um pedido de desculpas.

E lembre-se: ser acusado de racismo não é mais grave do que ser vítima dele. 

Aprendendo a me amar

Esse texto é totalmente espontâneo, eu parei de digitar um trabalho pra vir escrever de tão impactada que estou.

Então, entre um e outro parágrafo que eu digito, eu dou uma olhada no twitter e entre essas olhadas acabo de me deparar com isso:

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Primeiro, quero dizer à Debora que ela tem todo o meu amor! Esses tweets, junto com esse texto me trouxeram a resposta para algo que vinham me incomodando de certa forma: A quantidade de fotos que eu estou publicando nas mídias sociais desde que eu raspei o cabelo.

Quando eu percebi a mudança comecei a me questionar se não estava exagerando, eu nunca tinha publicado tanta foto ao mesmo tempo nos álbuns do face, ou no meu tumblr, ou no twitter (onde ultimamente eu tenho mantido mais contato com pessoas que eu sequer conheço pessoalmente), até voltei a usar o Instagram (que também estava parado porque eu fiquei um tempo sem celular, valeu pelo presente de aniversário pai!). 

Eu mudei a forma de me ver. Não somente a minha versão atual, mas olhando as fotos antigas eu consigo identificar beleza onde nunca antes eu seria capaz. Eu consigo achar detalhes que me fazem ter orgulho de quem eu sou. Eu consigo me olhar no espelho e dizer com a boca cheia, um sorriso e lágrimas nos olhos: EU SOU LINDA.

Raspar o cabelo trouxe mais do que liberdade para mim, trouxe uma nova visão sobre o que é belo, quem eu sou, como eu quero me ver e eu gosto tanto do que me atinge quando encaro o reflexo no espelho, que quero compartilhar isso com todos, quero reafirmar minha beleza a tanto tempo escondida ou camuflada dentro de padrões inatingíveis e quero que essa libertação e esse aprendizado de amar quem eu sou também atinja outras mulheres. 

Eu reconheço que me encontro dentro de alguns dos padrões estabelecidos e por isso talvez para mim seja mais fácil me libertar. Acho que o principal deles é o fato de ser magra. Por isso peço para que as pessoas não exaltem minha magreza (principalmente porque eu já tive distúrbios alimentares, isso é muito grave gente), ou que digam que EU POSSO raspar o cabelo porque meu rosto é desse ou daquele jeito. Parem com as padronizações! Parem com as limitações! Não me elogiem NUNCA através da exposição e ridicularização do corpo de outras mulheres. Não usem o corpo de uma mulher para julgar o corpo de outra. Isso é doentio, desumano, cruel. Para reconhecer a beleza de cada uma não deve haver nenhum tipo de comparação, apenas o respeito às formas que foram colocadas no nosso corpo, no corpo que é NOSSO.

Para todas as minhas irmãs que estão aprendendo a se amar: vocês tem todo o meu apoio! Para todos as pessoas que me ajudaram a reconhecer minha beleza negra única: meu MUITO OBRIGADA, de coração! Para Henrique Cesar Soares, que após raspar o meu cabelo me olhou nos olhos e com toda a paixão desse mundo me disse “você é linda”: EU TE AMO. 

E deixo a vocês o meu orgulho de ser quem eu sou nessa página do tumblr, onde além de euzinha tem mais um monte de gente linda.

Eu me amo, eu amo a cada uma de nós e toda a felicidade do mundo está explodindo de mim para esse texto, espero que atinja vocês.

Seja você, seja linda!

Quando eu sou a amiga negra que te torna imune a ser acusado de racismo

A frase de defesa mais usada pelos racistas de plantão? “Eu não sou racista! Tenho um amigo negro”.

Vamos começar dizendo que ter um amigo negro no Brasil não faz com que você esteja automaticamente protegido de cometer atitudes racistas. Tolerar um negro aqui é fácil, é regra. E para os desinformados, aqui os casos mais recorrentes de racismo são estes entre rodas de “amigos”, no almoço de domingo da família, na “piada” com aquele negro que você conhece desde a infância. O racismo brasileiro não é escancarado para todos verem, o racismo brasileiro é diferente, sutil. A maioria esmagadora dos casos de racismo que negros brasileiros sofrem ocorrem dentro do círculo de amigos e familiares. Então, ter um amigo negro só me faz pensar que você tem uma possibilidade muito grande de ter sido algoz de uma das situações discriminatórias que esse indivíduo sofreu.

“No meu país o preconceito é eficaz, te cumprimentam na frente e te dão um tiro por trás”.

Mas minha conversa hoje é com os racistas que ME usam para justificar suas atitudes.

Ontem tive uma discussão com uma cantora gospel que fez não uma, mas duas (no mínimo) postagens extremamente discriminatórias. Quando fui cobrar que ela ouvisse o que os indivíduos negros que se ofenderam com seu posicionamento tinham a dizer sobre o ocorrido, ela começou a entupir minha tela do notebook com imagens de todas as pessoas negras que ela conhece. Típico. Eu disse que ela não podia usar a imagem das pessoas desse jeito, que isso é ofensivo. Não adiantou, ela continuou mandando as fotos. Eu disse que não ligava para as pessoas negras que aturam ela. Piorou. Ela perguntou se eu tinha ideia de quantas missionárias negras ela sustenta na África. Desisti.

E aí eu fiquei realmente pensando na imagem de todas aquelas pessoas. Aqueles “amigos” que de alguma forma tem contato com esse indivíduo incapaz de ouvir o que uma mulher negra tem a lhe ensinar sobre racismo. Eu fiquei pensando que eles não devem nem imaginar que essa mulher estava usando a imagem deles para justificar uma atitude discriminatória. Imaginei se fosse comigo, e cheguei à conclusão de que as chances de que alguém que me conhece tenha um dia feito a mesma coisa que essa mulher fez com os conhecidos dela são muito grandes.

Então, aqui vai minha mensagem para você, conhecido, amigo de infância, colega dos tempos de colégio, primo distante, vizinho que não me dá bom dia: Minha imagem, minha existência e meu inevitável contato com você não estão disponíveis como argumentos de defesa contra acusações de racismo. Eu não sou sua prova concreta de que você não é racista. Eu não permito que você utilize minha imagem para falar o que bem entender e depois sair ileso pelo simples fato de ser capaz de me tolerar. E se você tiver uma atitude racista e eu souber que você me usou para minimizar o seu crime, eu vou pessoalmente até a pessoa que te acusou e dizer que não te conheço e nunca vi mais hipócrita.

E aos que estão chocados porque realmente já me usaram como elemento salvador que fornece imunidade a acusações de racismo: esqueçam meu nome, esqueçam que eu existo e tomem vergonha no meio da cara.

Não sou sua proteção e não defendo racista. Rala!

 

Por que eu raspei meu cabelo

Eu não sei como começar esse texto. Porque palavras digitadas não fazem justiça ao sentimento que toma conta de mim agora.

Meu nome é Stéphanie, e eu passei anos sendo escrava de imposições estéticas.

Ser uma mulher negra tem dessas coisas. Você não é mulher, é uma mulher negra. E para se encaixar no mundo das “mulheres” algumas imposições são definidas. A imposição que mais me afetou nesses meus 20 anos de vida foi a imposição sobre o meu cabelo.

Alisei, estiquei e prejudiquei meus fios por cerca de 5 anos. Neguei quem eu era, escondi minha ancestralidade, busquei o elogio daqueles que insistem em não nos ver como a beleza padrão.

É necessário dizer que por eu não ter um cabelo tão crespo, aquele cabelo MARAVILHOSO que cresce para cima, para os lado e chama a atenção de todxs com sua magnitude, eu tive sim certos privilégios. Já falei sobre isso nesse post aqui. Mas não vamos esquecer de que sou negra, meu cabelo não é liso, e embora eu tenha recebido algum “amor branco” pelo meu embranquecimento, eu nunca fui tratada como branca. Sofri discriminações sim com meu cabelo cheio de cachos, discriminação suficiente para me fazer escondê-los por tanto tempo.

Quando eu me libertei e decidi que não iria mais ceder a essa imposição estética, eu consegui finalmente descobrir o quanto eu me amava.

Por anos eu alisei meu cabelo, e de tanto alisá-los eu cheguei a esquecer de como eu realmente era. De quem eu era. Do que eu representava. Eu sequer lembrava da textura do meu cabelo, ou de como minha mãe me sentava em uma cadeira após o banho para penteá-los. Eu não lembrava mais de como era poder entrar em uma piscina ou tomar chuva sem me preocupar de como os outros (ou, pior, eu mesma) pudessem ver quem eu era por trás da chapinha. E quando eu finalmente tive coragem de me olhar no espelho, natural, cacheada, NEGRA, eu amei o que vi.

Eu passei a usar meu cabelo como resistência, como símbolo político, como representação de quem eu era. E lá se foram mais 5 anos.

Há aproximadamente 1 ano, após passar por um episódio traumático de machismo e assédio sexual, eu tive um vislumbre de mim mesma. De quem eu era e de quem o machismo dizia para eu ser. Eu me achava tão dona de mim, tão liberta, mas na verdade existem tantas amarras invisíveis segurando mulheres negras que no momento me parecia quase que impossível me libertar de todas. Aquele homem branco, tentando ser dono de meu corpo, tentando me dizer o que eu poderia ou não fazer enquanto ele passava a mão em mim, fazendo com que as pessoas que estavam ao redor dessem risada da minha tentativa angustiada e frustrante de gritar para ele que eu era dona de mim mesma e que ele não poderia me tocar, isso tudo explodiu dentro de mim e eu tive vontade de gritar CHEGA!

Eu já era ativa dentro do feminismo negro, eu já lutava contra opressão, contra assédios dentro de transporte público, contra toda essa droga de injustiça que recai sobre nossos corpos. Mas eu queria mais! Eu queria gritar para o mundo ESSE CORPO É MEU! TIREM SUAS MÃOS DE CIMA DE MIM!

Eu encontrei minha solução ao entender que a maior referência estética para definir como uma mulher deve ser na sociedade brasileira se expressa em transferir nossa “feminilidade” para o nosso cabelo. E assim eu decidi que iria raspar o meu.

Precisei de quase um ano para criar coragem, pesquisei, li histórias de mulheres que passaram pela mesma decisão (site MARAVILHOSO aqui pra quem sabe inglês, e aqui o Tumblr de uma brasileira), descobri que dava pra doar cabelo para mulheres com câncer, para mulheres escalpeladas, para limpar vazamento de petróleo do mar, conversei com o noivo, com amigas, com parceirxs de movimentos sociais, e a cada dia eu tinha mais certeza de que queria ficar careca.

Quando eu finalmente criei coragem, falei com algumas pessoas e me trouxeram o contato de uma mulher com câncer de mama que iria fazer sua própria peruca (MUITO AMOR <3) para que eu pudesse fazer a doação, esperei uma semana para me despedir dos fios que fizeram parte da minha vida, e finalmente consegui abrir mão da maior imposição estética na vida de uma mulher.

EU NUNCA ME SENTI TÃO BEM EM TODA A MINHA VIDA.

Não apenas porque eu estou gritando “quem manda nesse corpo sou eu”, não apenas porque eu pude ajudar uma pessoa em um momento de dificuldade, não apenas porque todo mundo gostou e disseram que eu estou linda. Eu ME sinto bonita. Eu ME sinto plena. Eu ME sinto livre. E não existem palavras suficientes para explicar o quanto isso me mudou. É quase como a incrível sensação de usar meus cachos após anos de alisamento outra vez. É como decidir que meus cabelos tem dona, e ninguém pode me ensinar o que fazer com eles. Eu me sinto livre, me sinto feliz, me sinto uma nova mulher.

Após raspar meu cabelo eu me olhei no espelho, natural, careca, NEGRA, eu amei o que vi.

Meu nome é Stéphanie, e eu sou uma mulher livre.

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ps 1: Se alguma de vocês lendo esse texto está cogitando em fazer o mesmo, meu conselho é: faça! Liberte-se! Reinvente-se! Seja quem você quer ser! Seja feliz!

ps 2: Texto atualizado com fotinhas novas porque eu to simplesmente me amando!

 

Eu não quero ser aceita, quero ser respeitada!

Depois de uma longa pausa para focar em assuntos pessoais (principalmente a faculdade, que está me dando muita bagagem para postagens futuras, aguardem!), a reclamona volta. Não tinha como não me indignar, não tinha como não comentar, não dá pra fingir que nada aconteceu.

Há alguns meses eu fiz uma denúncia sobre racismo ligada diretamente ao cabelo crespo no meu facebook, relacionei uma matéria sobre o caso a episódios pessoais (nada diferente do que eu faço por aqui). Um indivíduo ficou extremamente preocupado com a situação, me xingou, disse que eu era louca, que ninguém chamava cabelo crespo de bombril e que quem estava de segregação era eu (eu!).

Pois bem, eis que em um dos poucos momentos que tenho para usar a internet me deparo com a seguinte reportagem: http://www.geledes.org.br/racismo-preconceito/21584-acusado-de-racismo-autor-ameaca-tirar-menino-negro-da-novela

Existem momentos específicos em que o racismo brasileiro fica extremamente evidente, é o caso da matéria. E existem momentos em que cidadãos negros comuns denunciam seus episódios particulares e são chamados de loucos. Vamos esclarecer bem onde está a loucura aqui.

Somos fruto de uma nação racista. Somo criados dentro de uma cultura racista. O histórico do Brasil é racista. Onde está a loucura em denunciar o racismo cotidiano que atinge a população negra? Não sei de onde surgiu essa ideia de que com o “fim da escravidão” o racismo se diluiu no ar, todo mundo deixou de ser racista, ninguém mais ensina racismo em casa nem nas escolas. Séculos de cultura racista desapareceram, pra que lutar contra o racismo?

Louco é quem acredita nessa mentira. Não existe democracia racial. Não existe igualdade nesse país. Não existe mesmo tratamento e mesmo respeito. Seria impossível que de uma hora para outra o preconceito impregnado na cultura brasileira desaparecesse. Não desapareceu! De quantas provas os iludidos da igualdade racial vão precisar?

Walcyr Carrasco quer um personagem bem aceito? Eu não quero ser aceita, quero ser respeitada! E não quero ter que raspar a cabeça de um menino negro para isso. Não quero ter que tirar meu turbante da cabeça. Não quero ter que explicar para ninguém que “cabelo de bombril” ainda é uma ofensa comum nas escolas brasileira, e que fingir que racismo não existe não vai fazer com que ele desapareça. Precisamos de políticas públicas! Precisamos empoderar a população negra! Precisamos de representatividade nas mídias!

Não acompanho novelas, mas percebi que a discussão abriu o espaço perfeito para jogar na cara do brasileiro todo o seu racismo. Sim, porque o primeiro passo é assumir que somos racistas. Lutar contra o preconceito, para Carrasco, é colocar uma mulher negra como protagonista de uma novela escravocata, mas quando uma nova oportunidade aparece, ele ameaça tirar o personagem da novela.

Essa é a representação perfeita de como temos de agir. Quando denunciamos, batemos de frente, não nos calamos e exigimos respeito, somo loucos e segregacionistas. Mas quando o racismo aparece, nos curvamos a ele e damos um passo pra trás, aí sim agradamos a “todos”. Afinal, ninguém quer ofender a “população brasileira”.