Tentou ser “só” homófobico mas acabou sendo racista.

Eu queria escrever sobre isso há algum tempo, mas acabei deixando de lado. A declaração, que parece ser uma das preferidas do polêmico em questão e de alguns conservadores que possuem uma opinião bem parecida, foi novamente feita há poucos dias atrás, em um evento que protestava contra o casamento gay, contra a criminalização da homofobia e a favor do Estatuto do Nascituro. O pastor Silas Malafaia soltou a seguinte frase:

Tentam comparar com racismo, mas raça é condição, não se pede para ser negro, moreno ou branco. Homossexualidade é comportamento. Ninguém nasce homossexual.¹

Uma declaração bem parecida foi feita pelo atual presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, que foi alvo de duras críticas e muitos protestos após assumir o cargo, porém com um agravante, citando negros e índios.

Malafaia gosta de repetir os mesmos argumentos furados, e eles são vários, mas quero falar especificamente sobre este: o direito que ele diz ter de discriminar homossexuais, simplesmente por acreditar que a homossexualidade é uma escolha (ele diz ter outros motivos igualmente absurdos para lutar pela garantia de que pode ter preconceito, mas este, particularmente, me incomoda um pouco mais). Existem argumentos para derrubar esse papo furado de “não existe ordem cromossômica homossexual”. Eu não sou especialista no assunto e não vou me arriscar a falar sobre genética, então aqui tem o link  com a resposta do geneticista Eli Vieira à entrevista que Malafaia deu no programa da Marília Gabriela.

Meu objetivo aqui não é nem o de derrubar essa ideia (que eu discordo totalmente) de que as pessoas escolhem ser homossexuais. Supondo que a explicação do video acima não tenha feito sentido e você continue achando que homossexualidade é opção, vamos agora falar sobre a declaração que relaciona homofobia e racismo.

Entrando na cabeça de Malafaia, Feliciano e seus seguidores, o racismo não pode ser comparado com a homofobia porque negros não escolhem ser negros, já homossexuais tem o poder de escolha, e mesmo assim escolhem o lado “””errado“””. Eu vou usar essa mesma linha de pensamento para uma situação hipotética: imagine que o mundo fosse diferente do que nós conhecemos, imagine que as pessoas tivessem mesmo a chance de escolher a própria cor de pele. Na sua frente aparecem várias opções, do tom de pele mais claro ao mais escuro, passando pelos tons avermelhados e amarelados. Você escolhe a sua cor, ganha um corpo e é encaminhado à Terra para viver. Se essa situação fosse realidade hoje, seguindo a linha de raciocínio dessas pessoas, qualquer um teria o direito de discriminar pessoas negras. Afinal, você tinha a opção de ser da cor que você quisesse e mesmo assim quis ser da cor preta. As opções foram dadas, você não escolheu a cor certa, agora aguente as consequências. Eu posso sim pregar na minha igreja que quem escolhe ser negro não herdará os reinos dos céus, eu posso sim dizer que essas pessoas escolheram ser assim por algum trauma de infância, eu posso sim dizer que é errado quando eu vejo um negro na rua, posso inclusive proibir que eles tenham os mesmos direitos que eu tenho, porque é uma ESCOLHA.

Absurdo? É exatamente assim que a comunidade LGBT é tratada por pessoas que pensam desse jeito. Não há justificativa nenhuma para discriminar homossexuais baseado simplesmente na falácia de que “eles são assim porque querem, eles escolheram o caminho da perdição”, porque em NENHUMA situação em que uma pessoa pudesse escolher ser diferente do que você é, você teria a liberdade de julgá-la, condená-la e/ou persegui-la por isso.

Essa menção ao racismo, feita dessa forma, coloca o negro como alguém que só é assim porque não teve opções. Não é permitido discriminar negros porque não é culpa deles terem nascido assim. Se eles pudessem escolher, não seriam negros e não seriam alvo de preconceito. Esses pastores esqueceram de mencionar que não é permitido discriminar nenhuma pessoa, em nenhuma situação. E agora não estou falando da lei dos homens (que eles, apesar de abominarem, querem ter uma pontinha de participação também), estou falando da “lei de Deus”. Eu ouvi tantas vezes que Deus não faz acepção de pessoas (aqui, aqui e aqui), por que não colocam esses versículos lindos em prática?

Realmente, eu não entendo a implicância que as pessoas tem com quem é diferente. Existem saídas muito mais cristãs para a questão do homossexual no Brasil. Se você acha que certa atitude é errada, a única coisa que você pode fazer é não praticá-la, você não pode obrigar todas as pessoas a pensarem como você pensa, principalmente porque você não é dono da razão. Não adianta falar que está na Bíblia, porque a Bíblia também não é a dona da razão, é um livro enorme com várias histórias e carregado de sabedoria, o mesmo livro que foi usado para justificar atrocidades cometidas pela humanidade (atrocidades justificadas pela Igreja), Bíblia não é lei. Pode ser para você, e nesse caso voltamos ao meu primeiro conselho: viva o que você acredita, mas nunca limite a vida de outras pessoas baseado na sua opinião pessoal. Impedir homossexuais de se casarem, impedir que eles tenham filhos, impedir que possam demonstrar afeto (sim, AMOR, lembra de Jesus?) em público e o pior, impedir que eles possam se defender (quem é contra a PLC 122 faz justamente isso). Onde é que vocês querem chegar com tudo isso? Vocês sinceramente acham que Deus fica anotando todas as atrocidades que vocês defendem num bloquinho pra dar os parabéns no “dia do juízo”? “Parabéns Malafaia. Você perdeu horas dizendo em rede nacional que um grupo de pessoas não deve ter os mesmos direitos que você sempre teve, porque isso seria privilégio, apesar de até então o privilégio ser todo seu. Não tem problema distorcer informações, pesquisas científicas e incitar o ódio em escala tão grande, o que importa é que você chamou bastante atenção ao problema e trouxe muito orgulho ao seu Pai. Pode entrar, as portas do céu estão abertas para você, ao contrário dos afeminados, aqueles ali eu já mandei pro inferno com dor e sofrimento eterno, é realmente um absurdo o mal que essa gente fez”. É esse o deus que essas pessoas seguem? Elas acreditam mesmo estar lutando por uma causa justa, uma causa cristã, de pessoas boas, que vão ser exaltadas perante o Criador e receberão a vida eterna? Esse não é nem de perto o Deus que eu conheço.

O que eu vejo é gente agindo de má fé. Eu conheço a Bíblia, sei que existem coisas maravilhosas escritas nesse livro, ensinamentos preciosos que podem ser usados para fazer muita coisa boa, e quando eu vejo um grupo de pessoas e -pior- pastores pegando trechos dessa mesma Bíblia para gerar segregação, ódio, tratamento diferenciado e condenação eu tenho certeza de que a verdadeira escolha que existe aqui é a de ser intolerante.

Afinal, vocês tiveram a opção de fazer o bem, mas escolheram fazer o mal. A única diferença é que eu não vou discriminá-los pela opção errada que vocês escolheram. Vou tentar praticar o amor ao próximo que eu aprendi com o meu Deus, e falar sem permissão com todo o carinho, que vocês não são cristãos, vocês são apenas disseminadores de ódio.

¹ Fonte

Aprendi na Igreja: Não defraudarás

Eu devia ter uns 15 anos e estava em um culto de sábado. Cultos de sábados geralmente são direcionados para os jovens da igreja, são mais animados, a galera pula e dança durante o louvor inteiro, a linguagem usada é mais atual e sempre tem umas carinhas novas querendo conhecer “aquela igreja que toca rock, reggae e rap”. Enfim, cultos de sábado estão sempre cheios de gente nova, jovem e curiosa.

A programação estava ocorrendo normalmente até que uma das pastoras pediu licença e disse que tinha algo importante a falar, que ia tomar um tempo da palavra para dizer algo que, segundo ela, Deus estava querendo nos orientar. Pediu para que abríssemos nossas Bíblias no livro de Tito, capítulo 02 versículos 01 ao 10. E me apresentou pela primeira vez o termo ‘defraudar’. Defraudar, segundo o trecho lido e com uma leve declinada ao que ela queria dizer, foi explicado como o ato de causar um sentimento em alguém, de forma proposital, sabendo que você não pode ou não esta dispostx a satisfazê-lo (A definição mais próxima que eu cheguei a isso no dicionário foi: “privar dolosamente de”). Ela disse que queria falar com as moças, as jovens da igreja.

A pastora passou um tempo falando sobre como as mulheres do mundo (do mundo = quem não aceitou a Jesus) tem se comportado de maneira leviana, tem tomado atitudes e posturas que não condizem com a posição de uma mulher íntegra, como elas tem adquirido uma ‘liberdade’ que na verdade só traria coisas ruins. Por um segundo eu, com a melhor das intenções que uma mulher criada para ser machista pode ter, pensei: “Ruins para elas né, pastora?”. Mas não, ela estava dizendo sobre como aquilo era ruim para os homens.

Basicamente, ela falou sobre como o nosso jeans mais justo, a nossa blusa que está um pouco decotada, o nosso vestido que está acima do joelho, fazem mal ao homens (tadinhos). Porque, segunda ela, homens tem impulsos sexuais muito mais fortes, eles não conseguem se controlar diante de uma par de pernas desnudas. Eles tem pensamentos pecaminosos, que acabam levando a atitudes pecaminosas. Enfim, ela estava pedindo pra que nós parássemos de fazer os menininhos da igreja pecarem.

Naquela época eu concordava com tudo aquilo – mas quando não ia pra igreja e sabia que não ia encontrar nenhum conhecido eu colocava meu shorts mais curto sim, usava minha regata que deixava um decote um pouco mais ousado, até deixava uns pedaços da barriga aparecendo de vez em quando, super rebelde – mas mesmo sendo tão preconceituosa quanto a maioria da sociedade curitibana, eu fiquei esperando, depois de tão formidável (adjetivo que eu só usaria na época) discurso, que ela passasse a segunda parte da pregação dirigindo-se aos homens presentes, algo do tipo “Por outro lado…” . Fiquei só esperando, não aconteceu.

Acho que foi a primeira vez que eu detectei e fiquei extremamente brava com uma atitude machista dentro do ambiente religioso.

Claro que eu já era feminista. Não me identificava como tal porque existe uma carga de preconceito e ignorância que vem junto com o termo, mas eu sempre ficava muito incomodada quando não me deixavam jogar bola descalça com os meninos na rua (eu invadia o ‘campo’ mesmo assim), quando meu primo ficava bravo porque eu corria mais do que ele, quando não deixavam meu irmão brincar de boneca com as minhas primas, quando alguém falava ‘mocinha não senta desse jeito’ (odiava esse último mortalmente!). Mas quando minhas ideias revolucionárias entravam em conflito com o conservadorismo da igreja, eu ficava quieta.

Dessa vez eu não me aguentei. Lembro que fechei meus olhos e pedi a Deus pra me dar muita paciência, pra me perdoar por ter pensamentos que fugiam da Palavra, mas que aquilo estava muito errado. Eu não sabia explicar o motivo, mas eu sabia que não era justo. Eu nunca tinha provocado ninguém que eu não quisesse provocar. E mesmo assim já tinha perdido as contas de quantos homens, jovens ou adultos, haviam invadido meu espaço, me desrespeitado e me dando motivos para ter medo de sair de casa em certas situações. Eu sabia que esses assédios não aconteciam exclusivamente naquelas situações especiais em que eu colocava a minha roupa ousada. Acontecia o tempo todo, inclusive no caminho para a igreja. Não importava a minha roupa, eu sempre tinha que aguentar as manifestações do incontrolável impulso sexual masculino. Eu sabia que a culpa não era minha.

Fiquei quieta. Queria falar com alguém mas já sabia onde isso ia acabar. “A Palavra de Deus diz que …”. Eu sabia o que a Biblia dizia, uma pastora tinha acabado de ler pra mim. O que eu queria poder explicar em voz alta era que, com todo o respeito, a Bíblia estava errada. Era a minha experiência de vida contra um pedaço de texto escrito há sabe Deus quantos mil anos. Era da minha dor, da minha angústia diária que eles estavam falando.

Ouvir isso saindo da boca de uma pessoa que eu tanto admirava e que, além de pastora, era psicóloga, me incomodou profundamente. Saber que ela estava fazendo aquele discurso em uma igreja cheia de jovens altamente influenciáveis me incomodou mais ainda.

O problema nunca esteve na mulher que não sabe como se comportar/vestir. O problema é o homem que não sabe respeitar. Não é muito mais fácil ensinar os meninos desde pequenos a tratarem mulheres de forma normal, explicar que elas são seres humanos e não bundas e peitos ambulantes? Não daria mais resultado subir no púlpito e falar para os homens que eles são responsáveis pelo estupro anual de mais de 40 mil brasileiras que não pediram para serem estupradas? Não seria lógico dizer para os homens que desejos sexuais são fenômenos naturais, mas que se algum deles não consegue controlar esses impulsos deveria procurar ajuda? Porque nesse caso ninguém precisaria limitar a opção de escolhas das mulheres, a gente não ia precisar ouvir que somos menos dignas e estamos provocando só porque escolhemos aquela roupa.

Seria legal, viver em um mundo onde eu pudesse usar meu shorts sem que uma pastora diga para seus fiéis “Ah meninos, aquela ali está defraudando…”.

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