Tragédia em Charleston – O diabo nunca foi o nosso problema

Quando nossos antepassado foram feitos escravos, uma das justificativas para que nações cristãs e que teoricamente exaltavam a liberdade do proletariado em vender sua força de trabalho pudessem usar mão de obra escrava seria que negros não tem alma e que são pessoas amaldiçoadas. Várias distorções bíblicas e sermões foram realizados para espalhar as boas novas (Deus aprova a escravidão de negros!), e versões contemporâneas da falácia podem ser observadas em discursos do Feliciano (aqui e aqui, pra quem tiver estômago).

Após espalhar a notícia de que africanos são amaldiçoados e desprovidos de uma alma para ser salva, a Igreja achou importante obrigá-los a se converter ao cristianismo. Não como uma forma de salvá-los da maldição (salvar como se a gente não tem alma né?), mas sim como uma forma de dizimar qualquer vestígio das religiões africanas que chegaram à América junto com as pessoas que agora eram escravos. Enquanto no Brasil a tentativa acabou frustrada (apesar de ser grande a intolerância e a perseguição aos praticantes, o Candomblé e a Umbanda não desapareceram e seguem firmes na luta pelo respeito e pela igualdade), nos Estados Unidos é visível que quase não restaram traços da religiosidade africana, e a maioria da população negra aderiu ao cristianismo.

O ato terrorista e racista que culminou na tragédia de Charleston com a morte de 9 pessoas negras me fez pensar em muitas coisas, mas a que mais me incomodou foi o histórico sangrento e intolerante dos Estados Unidos (e sim, do Brasil também) com relação à liberdade religiosa dos negros em situação de escravidão e de seus descendentes após a abolição.

Primeiro eles nos dizem: Vocês não tem alma! Vocês são amaldiçoados!

Depois nos dizem: Ainda há chance, vocês precisam se converter ao cristianismo e deixar para trás “o culto ao diabo”.

Não somente utilizando-se do pressuposto de que o indivíduo branco é o normal e o protegido de um deus igualmente branco, como também ligando a cultura africana ao demoníaco, enquanto o que vem do europeu é o divino.

Hoje em dia ainda é comum ouvir em cultos que as pessoas negras precisam ainda mais do deus cristão, por tudo de ruim que nosso povo já passou. É praticamente como se dissessem “Vocês precisam aderir à nossa religião e nós vamos usar a tragédia que fizemos contra vocês para provar isso”.

Quando ouvi o áudio da filha de uma das vítimas da tragédia dizendo para o terrorista branco “Eu te perdoo e tenho misericórdia da sua alma”, tudo que eu conseguia pensar é que nós só estamos no lugar em que estamos porque eles sequer acreditaram que nós tivéssemos alma. Eles não teriam capacidade de ter misericórdia pela alma dos mortos de Charleston, ou pela menina candomblecista de 11 anos que foi apedrejada na semana passada.

E que não importa quanta expiação nos convençam que precisamos para nos comparar à população branca com sua cultura divina, no final do dia não vai ser o diabo que vai entrar armado na reunião de orações para tirar nossas vidas.
O diabo nunca foi o nosso problema.

Descansem em paz:

Tywanza Sanders

Sharonda Coleman-Singleton

Clementa Pinckney

Cynthia Hurd

Myra Thompson.

Ethel Lee Lance 

Daniel Simmons 

Rev. Depayne Middleton-Doctor

Susie Jackson

Quando foi que ser chamado de racista passou a ser mais grave do que sofrer racismo?

Hoje pela manhã quando liguei o notebook li essa matéria sobre racismo evangélico. Nada novo, não é muito comum esse nível de manifestação racista em cultos, geralmente é algo que passa mais despercebido, mas eu não fiquei surpresa. Dando uma olhada rápida nos comentários da matéria publicada na Página do Geledés li algumas manifestações de desagrado com a generalização, que não é todo evangélico que é racista, não pode falar assim. 

Dito isso, vamos ao cenário de algumas semanas atrás, quando rolou uma briga no meu Facebook envolvendo racismo evangélico (inclusive já comentei sobre isso aqui). Depois de quase 200 comentários de muita briga e absurdos passíveis de prisão sem direito a fiança eu percebi que os únicos evangélicos que apareceram na briga o fizeram a fim de defender os outros evangélicos (que estava destilando racismo em uma rede social, usando a Bíblia como escudo e a unção de deus como justificativa para serem imunes a críticas e até mesmo à Constituição Federal). Fiz um post exigindo posicionamento dos cristãos com quem tenho contato, que não são poucos já que passei apenas 18 anos da minha vida frequentando igrejas. Com exceções que ficaram bem definidas (e tenho certeza que essas pessoas sabem que estou falando delas porque deixei claro que entendi e apoiei suas palavras), a maioria dos comentários alimentavam uma série de esteriótipos e alguns até tentavam se defender ao atacar outras minorias. Alguns postaram comentários públicos, outros me mandaram mensagens inbox. Do total, acredito que as pessoas que responderam ao meu questionamento não correspondiam sequer a 10% dos cristãos que eu conheço. E não, não conseguiram me convencer que o mundo cristão está menos racista do que no período em que eu fazia parte dele.

Existe uma situação que é rotineira dentro de igrejas. O pastor, pastora, missionário, dirigente do louvor, o responsável por pedir o dízimo e as ofertas ou seja lá quem for que esteja com o microfone na mão fala uma besteira, faz um comentário discriminatório, todos ficam quietos. Eu sei que é difícil fazer um questionamento durante o culto, a passividade ensinada pelo cristianismo chega a impossibilitar interrupções enquanto a “autoridade de deus” está falando, mas existem várias maneiras e vários momentos em que uma contestação é possível. Acho que me recordo de uma única situação em que uma pessoa se posicionou contra uma liderança, foi convidada a se retirar da igreja. 

Mas e quando a manifestação discriminatória (supostamente baseada no livro sagrado do cristianismo) é feita em uma roda de conversas? E quando é feita com alguém da sua família? Quando está escancarada em redes sociais? O que impossibilita que um cristão se manifeste? 

Eu já cansei de ler reclamações sobre a generalização que existe hoje em dia com relação ao cristianismo, principalmente a evangélicos. Já presenciei muitos evangélicos se defendendo, se sentindo ofendidos, como quando alguém diz “racismo evangélico”. Mas o que eu não vejo com nenhuma frequência (e posso contar nos dedos as situações em que vi algo do tipo acontecer) são exatamente esses evangélicos que se dizem não racistas posicionando-se e repudiando atos de racismo baseados no “ensinamento cristão”. Quando existe uma conversa pública com expressões totalmente perceptíveis de racismo apoiado em uma leitura distorcida da Bíblia aparecendo na sua página inicial do Facebook, silêncio. Quando a pessoa que foi atacada por tais expressões generaliza pela maioria dos evangélicos que conhece dizendo “evangélicos são racistas”, aí tem barulho, aí tem ofensa. Quando está acontecendo um culto em que a pregadora se utiliza da ridicularização de fenótipos negros, a consequência é não apenas silêncio de alguns, mas o riso de muitos. Quando uma pessoa que estava nesse mesmo culto se manifesta ao transcrever em um texto toda a “depressão gerada por um mundo evangélico adoecido”, reclamação, ataques, que absurdo!

Isso não é exclusividade do meio cristão e me lembra de outro caso, o da Stephanie Ribeiro, que publicou um texto expondo as situações racistas que vem ocorrendo com ela na PUC de Campinas. A resposta para o trauma, a dor e o racismo institucional? Alunos da instituição reclamando de racismo reverso, generalização e vitimização. Vale lembrar que os casos citados pela Stephanie aconteceram de forma pública, vários alunos sabiam das situações as quais ela foi submetida, muitos deles quando eram expostos aos casos ridicularizavam-na ainda mais. Outros ficaram quietos. A faculdade disse que não podia fazer nada. E quando ela exige respeito ele bradam “NÃO GENERALIZE, NÃO SOMOS TODOS RACISTAS”. Onde estavam os não racistas quando ela encontrou seu armário pixado? Onde estavam os não racistas quando ela era atacada em redes sociais? Onde estavam os não racistas quando uma das alunas disse em alto e bom som que negro fede mais que branco? 

É importante frisar que a generalização existe quando a maior parte daquele grupo apresenta determinado comportamento. E ela é necessária para definir como esse grupo se apresenta e como ele está atuando. Exceções existem e sempre irão existir. Mas nenhuma vítima de racismo deve deixar de denunciar as violências – físicas ou psicológicas – as quais foi submetido só porque uma ou outra pessoa daquela instituição não agiu assim. Vale ressaltar que o silêncio não é uma boa forma de dizer que você é contra uma atitude, principalmente em situações nas quais a ação discriminatória de um indivíduo está relacionada com o ambiente que você frequenta e, consequentemente, irá atingir a você mesmo e a todos os membros dessa instituição (no caso do cristianismo isso é ainda mais grave porque muitos racistas fazem uso da própria religião e da Bíblia para justificar seus preconceitos). 

Se a maioria dos evangélicos não fosse racista, não haveria conivência em discriminar indivíduos negros dentro de um culto. Se a maioria dos evangélicos não fosse racista, não teria sido necessário que eu exigisse um posicionamento dos meus colegas com relação a declarações racistas que vários deles já estavam cientes, a manifestação e a defesa seria algo natural (e até cristão).

Se a maioria dos estudantes de Arquitetura e Urbanismo não fosse racista, eles estariam mais preocupados em cobrar punição aos autores do crime do que em se defender, ficariam mais chocados com o fato de uma estudante ser discriminada por motivações raciais do que em serem identificados como uma instituição que é sim racista. 

Aos indivíduos não racistas que pertencem às instituições que comumente são identificadas como racistas, acredito que a generalização não se apresenta como uma ofensa, mas sim uma possibilidade de expôr uma realidade que precisa ser modificada. Inclusive essas são as pessoas que são favoráveis a exposição desse tipo de situação, com a esperança de que algum dia apareça uma mudança.

Aos indivíduos que se dizem não racistas (lembram que 90% dos brasileiros afirmam existir racismo no Brasil, mas somente 10% se assumem como tal?): onde estão esses indivíduos quando a manifestação discriminatória está acontecendo? Se a instituição da qual você faz parte realmente não for racista, não é tão difícil assim calar a voz de quem não representa a maioria, certo? Até lá, vamos continuar generalizando pelas manifestações mais comuns. Se no meio do caminho você se assustar e perceber que sim, as acusações e as generalizações estão corretas, a caixa de mensagens está aberta para um pedido de desculpas.

E lembre-se: ser acusado de racismo não é mais grave do que ser vítima dele. 

Por que eu saí da Igreja?

Eu não gosto de ficar me justificando (e realmente não imaginei que nesse caso fosse preciso) mas acho que quem precisa falar sobre isso sou eu, apesar de muitos estarem me cobrando. Aproveitando o embalo de que algumas pessoas precisam ler o que eu vou dizer, vai ficar tudo gravado por aqui mesmo.

Então tá: EU NÃO SOU MAIS EVANGÉLICA.

O que isso significa? Que eu sou uma pessoa livre e tomei uma decisão por conta própria

Onde você quer chegar com isso? Em lugar nenhum, é só mais uma entre tantas escolhas que a gente faz na vida.

Você virou ateia? Não.

Você virou inimiga da Igreja? Não.

Então por que fica atacando a Igreja no seu blog? É bem aí que eu quero chegar.

Basta fazer uma leitura atenta aos poucos textos que eu postei sobre influências religiosas para ficar claro que eu não estou atacando a Igreja ou a religião, estou atacando ideias. As mesmas ideias que me fizeram virar as costas para a religião dos meus pais e deixar de frequentar o local físico da Igreja com o qual eu estava acostumada desde sempre.

Sempre mesmo. Não existiu um dia na minha vida anterior à essa decisão que eu não tenha feito parte da comunidade evangélica. Eu nasci na Igreja, fui apresentada à Igreja, e nunca havia “conhecido o mundo”. Eu fui praticamente criada dentro de Igrejas. Foi na Igreja que eu descobri meu amor por música, aprendi que é possível mudar vidas, conheci as pessoas que mais marcaram a minha vida, aprendi a ver além das aparências, vivi experiências maravilhosas e inexplicáveis. Não foi fácil deixar para trás uma parte enorme da minha história, mas é bem simples explicar o motivo que me levou a fazer isso.

Ideias.

Um dia eu percebi que não concordava com tudo do que era dito, pregado e espalhado pelos meus irmãos. Eu percebi que aquela não era a minha visão de amor, que aquela não era a minha batalha. Não é impossível continuar congregando após perceber isso, eu mesma prossegui por mais alguns anos e conheço muita gente que é ativa na Igreja mas tem ideais bem parecidos com os meus, e a verdade é que é muito difícil que alguém concorde com 100% do que é pregado pela própria Igreja, mas mesmo assim eles estão lá. Por que foi então que eu não consegui?

Porque as pessoas são diferentes, simples assim. Em determinado momento, eu não conseguia mais escutar uma pessoa influente passando para centenas de criaturas uma ideia que, na minha visão, não tinha nada de cristã. E não existe um espaço aberto para discutir esses assuntos. Não dá pra simplesmente chegar pro seu líder e falar “Oi, você poderia por favor parar de falar assim das religiões de matriz africana? É preconceito, preconceito que chegou até nós como herança do racismo explícito de centenas de anos atrás. Eu falei com Deus ontem e Ele me disse que eu tenho razão em me sentir ofendida já que você está ofendendo a minha origem. Tem como parar? Vamos conversar sobre as diversas formas de Deus se manifestar?”. A conversa podia até rolar, mas no final não tem outra saída. “Não se discute princípio Bíblicos”, fim.

Eu comecei me afastando aos poucos. E quanto mais eu me afastava da Igreja, mais eu me aproximava de Deus.

Eu levei anos para entender quem era Deus. Porque eu me obrigava a ver o deus que a religião me apresentava e não deixava que Ele se manifestasse de nenhuma maneira diferente das quais eu já conhecia. Eu levei anos para reconhecer que Deus é muito mais. E eu demorei porque me ensinaram a limitá-lo.

Desmond Tutu, arcebispo anglicano e Nobel da Paz, diz que é impossível que uma única religião possa apresentar a totalidade de Deus aos seus fieis. Porque Deus representa o infinito, e nenhuma mente humana, limitada, é capaz de compreender isto. Eu não conheço a Deus somente quando estou na Igreja, Deus está em tudo e em todos. Deus está em uma ação, em um gesto, em um olhar. Ele está na música que sai da minha boca, nos movimentos que me fazem dançar, na lágrima que rola pelo meu rosto. Está na natureza, no meu próximo e dentro de mim. Deus é e não deixa nunca de ser. Deus é Deus independente do nome que você dê a Ele, independente da forma como escolheu se comunicar com Ele, independente de quem você seja ou quem você ame. Deus é Deus independente de você acreditar nEle, independente da sua religião (ou da falta dela). Deus se manifesta para mim de forma diferente da qual Ele se manifesta para você, porque nossas necessidades são diferentes, nossas lutas são diferentes, nossos caminhos são diferentes. E Ele sempre vai arranjar um jeitinho especial de estar presente e te manter firme, mesmo que você não perceba, mesmo que você não acredite.

Hoje eu não deixo que ninguém tente me ensinar quem é Deus e o que Ele quer de mim. Eu O conheço desde o ventre da minha mãe, Ele esteve presente em toda a minha existência. Ele me conhece e entende as motivações que me levam a agir.

Mesmo que eu não tivesse uma trajetória de quase 18 anos dentro da Igreja Evangélica, Ele estaria aqui. “Eu sou o que sou” agora tem um significado diferente para mim. Mesmo que eu não tivesse um nome específico para Lhe dar, que eu não reconhecesse Sua presença, mesmo que negasse a Ele todos os dias, Ele estaria aqui.

“Eu sou o que sou” fez de mim quem eu sou. E isso inclui minhas opiniões consideradas “radicais”, meu temperamento explosivo, meu gênio meio difícil de lidar, minha compaixão sem limites, minha forma de amar exagerada e meu otimismo em um mundo em que todos os Seus filhos possam viver em harmonia e igualdade. Para lutar por esta ideia, eu abri mão da minha religiosidade. E quanto mais eu luto pelo que eu acredito, mais eu me aproximo de Deus.

Eu me sinto mais plena do que nunca, mais viva do que nunca e mais amada do que nunca. Talvez não seja tão herético assim, ser quem eu sou.