Mulher E negra. Negra E mulher.

Quando eu conheci o feminismo não sabia que ia precisar reivindicar espaço dentro de um movimento que se propõe a lutar por emancipação. O mesmo ocorreu dentro do Movimento Negro. Mas não precisei de muito tempo para perceber que dentro do movimento feminista, eu sou negra, e dentro do movimento negro, eu sou mulher. 

O que nós mulheres negras tentamos explicar dia após dia dentro dos movimentos sociais é que enquanto não houver conscientização sobre privilégios individuais, não irá existir sororidade, nem Poder Para o Povo Preto. Opressões não são unilaterais, elas se somam. Enquanto integrante do movimento feminista eu não posso nunca esquecer que sou negra. E enquanto integrante do movimento negro eu não posso nunca esquecer que sou mulher. Eu não posso me dar a esse luxo, porque todo dia, quando eu saio de casa, minha pele e meu gênero estão sendo jogados na minha cara para me inviabilizar.

Sabe quem pode esquecer a cor da própria pele? Pessoas brancas. Na verdade, pessoas brancas raramente são obrigada a sequer pensar que elas são brancas. Por isso é muito fácil para uma mulher branca me dizer que eu não preciso fazer recorte racial em debates feministas. Mas esse luxo é dela, não meu.

Sabem quem pode esquecer o próprio gênero? Homens. Homens não são lembrados constantemente que são homens, eles não são assediados unicamente por serem homens, não são menosprezados em debates por serem homens e não são vulneráveis a estupro por serem homens. Esquecer meu gênero eu não posso, porque ele é usado para determinar onde eu posso andar, quando eu posso falar e quanto (des)crédito eu vou ganhar por estar dando minha opinião sobre determinado assunto.

Nós, mulheres negras, não podemos nunca nos esquecer de que somos mulheres, nem de que somos negras. A sociedade nunca nos permitiu esse luxo. Porque então, dentro de movimentos sociais, muitas vezes somos cobradas a deixar uma das opressões de lado?

Onde quer que eu esteja, estarei reivindicando meu espaço como mulher. E onde quer que eu esteja estarei reivindicando meu espaço como negra. 

Eu não faço parte somente de um desses grupos, mas estou nas piores estatísticas de ambos! Pedir para que uma mulher negra deixe de lado um dos grupos do qual ela faz parte é o mesmo que dizer: eu não me importo que as duas opressões se somem no seu cotidiano, aqui você só pode falar sobre uma.

Hoje, dia 25 de julho de 2014, Dia Internacional da Mulher Negra Latina e Caribenha, eu venho através desse texto, não pedir permissão, mas avisar: Somos mulheres negras e não vão nos silenciar por sexismo e nem por racismo!

Não me importo se você é mulher e sofre opressão por isso, se você usar seu privilégio racial para me silenciar eu vou me defender. Não me importo se você é negro e sofre opressão por isso, se você usar seu privilégio de ser homem para me silenciar eu vou me defender igualmente.

Que esse texto seja usado para todas as opressões que se interseccionam e que nunca tentem te inviabilizar de modo algum! Que nós possamos juntas derrubar todas as amarras que nos seguram e romper todas as barreiras que nos foram impostas.

Mulher negra, somos irmãs, e é como irmãs que venceremos!

SALVE MULHER NEGRA! SALVE MULHER GUERREIRA!

Luciana e Andressa Tavares

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Nega maluca: black face é racismo!

O país do Carnaval é o país da brincadeira. E durante o Carnaval a brincadeira mais aclamada é a “Nega Maluca”. Um homem branco, se veste de mulher negra, pra que as pessoas possam dar risada dele. Sim, porque ser mulher e negra deve ser muito engraçado.

Mas no país do Carnaval, onde eu estou acostumada a ver a versão brasileira do black face “apenas” durante o Carnaval e talvez durante algumas festas a fantasia, eis que me deparo com a versão extravagante da chacota no meio da Marcha das Vadias, em Curitiba. O responsável me disse se tratar de uma homenagem, uma representação. E é aqui que eu, enquanto mulher negra quero ensinar uma coisa a todos os homens brancos que acreditam serem capazes de me representar.

Você sabe o que é ser mulher? Você sabe o que é ser mulher negra?

A origem do black face é facilmente encontrada em qualquer site de busca, o retrato caricato do indivíduo negro, com reforço de esteriótipos criados e perpetuados pelo homem branco. A tentativa de padronização dos nossos corpos, do nosso cabelo, da nossa pele. Além da forma pouco sutil e muito eficaz de manter atores negros longe dos palcos. As peças eram geralmente de chacota. O foco da risada: o personagem “negro”. O público alvo: sulistas estadunidenses em sua maioria, ex escravistas

Vou ressaltar que o objetivo original do black face era não somente a ridicularização do ser negro através de uma caricatura exagerada, mas também impossibilitar que indivíduos negros fossem capazes de representar a si mesmos.

Quando trazemos esse contexto para o cenário brasileiro e fazemos uma analogia à personagem carnavalesca Nega Maluca temos um agravante na história: a caricatura de uma mulher negra, hiperssexualizada, encarada como moeda de troca para o turismo sexual. O black face dos Estados Unidos reforça o esteriótipo do negro ridicularizado, a Nega Maluca do Brasil reforça o esteriótipo da “mulata exportação”.

Dentro dessa análise, como é possível que um homem branco, vestido de mulher e com tinta preta no rosto (exceto em volta dos olhos e da boca, qualquer semelhança é mero reforço de esteriótipo) seja capaz de estar fazendo uma homenagem a nós, mulheres negras, no meio de uma manifestação que pede o fim da violência contra a mulher e a liberdade sobre os nossos corpos?

Black face não é homenagem em contexto algum! Black face é racismo! E se vestir de mulher enquanto pratica o black face é dar voz ao patriarcado racista que ridiculariza nossos traços étnicos, que nos paga menos pelos mesmos serviços, que nos negligencia em atendimentos médicos, que vende nossos corpos como atrativo turístico e depois nos impede de realizar abortos.

Eu não quero homenagem racista e muito menos quero que um homem branco diga que está me representando. Nós somos capazes de nos representar. A mulher negra é força, a mulher negra é garra, a mulher negra é resistência. E nenhum homem branco com o rosto pintado será capaz de representar o que minha ancestralidade carrega dentro da minha pele. Nenhum homem branco nunca vai entender o que é o peso do machismo e do racismo tentando me levar pra baixo dia após dia. Nenhum homem branco vai me dizer que está me representando enquanto se utiliza de uma ferramenta racista histórica.

Ser mulher não é vestir saia uma vez por ano. Ser mulher negra não é pintar a cara com tinta preta.

Eu sou a mão que lava as feridas que não são mais causadas por açoite, mas por coronhada.

Eu sou a música que alegra o teu samba, esquenta tua cama, mas é trocada pela loira na hora de ser apresentada pra família.

Eu sou o grito da mãe que perdeu o filho pra guerra no morro.

Eu sou o choro da esposa que clama pelo retorno seguro do marido até em casa.

Eu sou a voz que reza por justiça para todos os meus que, apenas por serem negros, são tratados como inferiores.

Eu sou a mão que vai pesar na tua consciência toda vez que você pensar em ridicularizar minha raça.

Racistas não passaram, racistas nunca passarão!

E sai da frente com sua tinta guache preta, que EU to passando com a minha cor!

Aprendendo a me amar

Esse texto é totalmente espontâneo, eu parei de digitar um trabalho pra vir escrever de tão impactada que estou.

Então, entre um e outro parágrafo que eu digito, eu dou uma olhada no twitter e entre essas olhadas acabo de me deparar com isso:

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Primeiro, quero dizer à Debora que ela tem todo o meu amor! Esses tweets, junto com esse texto me trouxeram a resposta para algo que vinham me incomodando de certa forma: A quantidade de fotos que eu estou publicando nas mídias sociais desde que eu raspei o cabelo.

Quando eu percebi a mudança comecei a me questionar se não estava exagerando, eu nunca tinha publicado tanta foto ao mesmo tempo nos álbuns do face, ou no meu tumblr, ou no twitter (onde ultimamente eu tenho mantido mais contato com pessoas que eu sequer conheço pessoalmente), até voltei a usar o Instagram (que também estava parado porque eu fiquei um tempo sem celular, valeu pelo presente de aniversário pai!). 

Eu mudei a forma de me ver. Não somente a minha versão atual, mas olhando as fotos antigas eu consigo identificar beleza onde nunca antes eu seria capaz. Eu consigo achar detalhes que me fazem ter orgulho de quem eu sou. Eu consigo me olhar no espelho e dizer com a boca cheia, um sorriso e lágrimas nos olhos: EU SOU LINDA.

Raspar o cabelo trouxe mais do que liberdade para mim, trouxe uma nova visão sobre o que é belo, quem eu sou, como eu quero me ver e eu gosto tanto do que me atinge quando encaro o reflexo no espelho, que quero compartilhar isso com todos, quero reafirmar minha beleza a tanto tempo escondida ou camuflada dentro de padrões inatingíveis e quero que essa libertação e esse aprendizado de amar quem eu sou também atinja outras mulheres. 

Eu reconheço que me encontro dentro de alguns dos padrões estabelecidos e por isso talvez para mim seja mais fácil me libertar. Acho que o principal deles é o fato de ser magra. Por isso peço para que as pessoas não exaltem minha magreza (principalmente porque eu já tive distúrbios alimentares, isso é muito grave gente), ou que digam que EU POSSO raspar o cabelo porque meu rosto é desse ou daquele jeito. Parem com as padronizações! Parem com as limitações! Não me elogiem NUNCA através da exposição e ridicularização do corpo de outras mulheres. Não usem o corpo de uma mulher para julgar o corpo de outra. Isso é doentio, desumano, cruel. Para reconhecer a beleza de cada uma não deve haver nenhum tipo de comparação, apenas o respeito às formas que foram colocadas no nosso corpo, no corpo que é NOSSO.

Para todas as minhas irmãs que estão aprendendo a se amar: vocês tem todo o meu apoio! Para todos as pessoas que me ajudaram a reconhecer minha beleza negra única: meu MUITO OBRIGADA, de coração! Para Henrique Cesar Soares, que após raspar o meu cabelo me olhou nos olhos e com toda a paixão desse mundo me disse “você é linda”: EU TE AMO. 

E deixo a vocês o meu orgulho de ser quem eu sou nessa página do tumblr, onde além de euzinha tem mais um monte de gente linda.

Eu me amo, eu amo a cada uma de nós e toda a felicidade do mundo está explodindo de mim para esse texto, espero que atinja vocês.

Seja você, seja linda!

Por que eu raspei meu cabelo

Eu não sei como começar esse texto. Porque palavras digitadas não fazem justiça ao sentimento que toma conta de mim agora.

Meu nome é Stéphanie, e eu passei anos sendo escrava de imposições estéticas.

Ser uma mulher negra tem dessas coisas. Você não é mulher, é uma mulher negra. E para se encaixar no mundo das “mulheres” algumas imposições são definidas. A imposição que mais me afetou nesses meus 20 anos de vida foi a imposição sobre o meu cabelo.

Alisei, estiquei e prejudiquei meus fios por cerca de 5 anos. Neguei quem eu era, escondi minha ancestralidade, busquei o elogio daqueles que insistem em não nos ver como a beleza padrão.

É necessário dizer que por eu não ter um cabelo tão crespo, aquele cabelo MARAVILHOSO que cresce para cima, para os lado e chama a atenção de todxs com sua magnitude, eu tive sim certos privilégios. Já falei sobre isso nesse post aqui. Mas não vamos esquecer de que sou negra, meu cabelo não é liso, e embora eu tenha recebido algum “amor branco” pelo meu embranquecimento, eu nunca fui tratada como branca. Sofri discriminações sim com meu cabelo cheio de cachos, discriminação suficiente para me fazer escondê-los por tanto tempo.

Quando eu me libertei e decidi que não iria mais ceder a essa imposição estética, eu consegui finalmente descobrir o quanto eu me amava.

Por anos eu alisei meu cabelo, e de tanto alisá-los eu cheguei a esquecer de como eu realmente era. De quem eu era. Do que eu representava. Eu sequer lembrava da textura do meu cabelo, ou de como minha mãe me sentava em uma cadeira após o banho para penteá-los. Eu não lembrava mais de como era poder entrar em uma piscina ou tomar chuva sem me preocupar de como os outros (ou, pior, eu mesma) pudessem ver quem eu era por trás da chapinha. E quando eu finalmente tive coragem de me olhar no espelho, natural, cacheada, NEGRA, eu amei o que vi.

Eu passei a usar meu cabelo como resistência, como símbolo político, como representação de quem eu era. E lá se foram mais 5 anos.

Há aproximadamente 1 ano, após passar por um episódio traumático de machismo e assédio sexual, eu tive um vislumbre de mim mesma. De quem eu era e de quem o machismo dizia para eu ser. Eu me achava tão dona de mim, tão liberta, mas na verdade existem tantas amarras invisíveis segurando mulheres negras que no momento me parecia quase que impossível me libertar de todas. Aquele homem branco, tentando ser dono de meu corpo, tentando me dizer o que eu poderia ou não fazer enquanto ele passava a mão em mim, fazendo com que as pessoas que estavam ao redor dessem risada da minha tentativa angustiada e frustrante de gritar para ele que eu era dona de mim mesma e que ele não poderia me tocar, isso tudo explodiu dentro de mim e eu tive vontade de gritar CHEGA!

Eu já era ativa dentro do feminismo negro, eu já lutava contra opressão, contra assédios dentro de transporte público, contra toda essa droga de injustiça que recai sobre nossos corpos. Mas eu queria mais! Eu queria gritar para o mundo ESSE CORPO É MEU! TIREM SUAS MÃOS DE CIMA DE MIM!

Eu encontrei minha solução ao entender que a maior referência estética para definir como uma mulher deve ser na sociedade brasileira se expressa em transferir nossa “feminilidade” para o nosso cabelo. E assim eu decidi que iria raspar o meu.

Precisei de quase um ano para criar coragem, pesquisei, li histórias de mulheres que passaram pela mesma decisão (site MARAVILHOSO aqui pra quem sabe inglês, e aqui o Tumblr de uma brasileira), descobri que dava pra doar cabelo para mulheres com câncer, para mulheres escalpeladas, para limpar vazamento de petróleo do mar, conversei com o noivo, com amigas, com parceirxs de movimentos sociais, e a cada dia eu tinha mais certeza de que queria ficar careca.

Quando eu finalmente criei coragem, falei com algumas pessoas e me trouxeram o contato de uma mulher com câncer de mama que iria fazer sua própria peruca (MUITO AMOR <3) para que eu pudesse fazer a doação, esperei uma semana para me despedir dos fios que fizeram parte da minha vida, e finalmente consegui abrir mão da maior imposição estética na vida de uma mulher.

EU NUNCA ME SENTI TÃO BEM EM TODA A MINHA VIDA.

Não apenas porque eu estou gritando “quem manda nesse corpo sou eu”, não apenas porque eu pude ajudar uma pessoa em um momento de dificuldade, não apenas porque todo mundo gostou e disseram que eu estou linda. Eu ME sinto bonita. Eu ME sinto plena. Eu ME sinto livre. E não existem palavras suficientes para explicar o quanto isso me mudou. É quase como a incrível sensação de usar meus cachos após anos de alisamento outra vez. É como decidir que meus cabelos tem dona, e ninguém pode me ensinar o que fazer com eles. Eu me sinto livre, me sinto feliz, me sinto uma nova mulher.

Após raspar meu cabelo eu me olhei no espelho, natural, careca, NEGRA, eu amei o que vi.

Meu nome é Stéphanie, e eu sou uma mulher livre.

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ps 1: Se alguma de vocês lendo esse texto está cogitando em fazer o mesmo, meu conselho é: faça! Liberte-se! Reinvente-se! Seja quem você quer ser! Seja feliz!

ps 2: Texto atualizado com fotinhas novas porque eu to simplesmente me amando!

 

Feminismo contra o racismo – Dia Internacional da Mulher Negra

Foi cedo que eu aprendi que meu cabelo não era o mesmo que o da mulher poderosa que aparecia na novela. Foi mais cedo ainda que eu percebi que as poucas mulheres parecidas comigo que surgiam na minha TV estavam sempre com pouca roupa, rebolando, sempre com um sorriso no rosto. Foi cedo de mais que eu vi no rosto da empregada doméstica brasileira o meu reflexo. Ainda era cedo quando eu escutei a primeira observação em voz alta sobre a minha “bunda de negra”. Também era cedo quando eu ouvi um “preta gostosa” do pai de família (branca) que passou por mim naquele dia. Era cedo, na minha vida amorosa, quando um namoradinho qualquer deixou claro que eu ficava feia com o cabelo crespo. O mesmo namoradinho que ria da minha boca grande. O mesmo que achava engraçado eu ser negra, mas ser tão magra desse jeito (mas ela tem bunda, né cara?).

Do que exatamente eu estou falando? Você ficou confusx e não conseguiu definir se esse texto é sobre machismo ou sobre racismo? Eu também. Eu estou confusa desde muito cedo.

Ser mulher no Brasil significa que o machismo está presente todo dia, jogado na sua cara, claro como os olhos lindos daquela modelo famosa que representa o Brasil nas passarelas internacionais do mundo da moda, ser mulher negra no Brasil significa passar a vida inteira tentando descobrir se você está sendo inferiorizada por ser mulher, ou por negra. Já era tarde quando eu percebi que o motivo era uma união dos dois.

Na minha rotina é muito complicado perceber até onde vai o machismo e onde começa o racismo (e vice-versa), porque a forma como ambas as discriminações são direcionadas a mim é entrelaçada. Não é comum casos onde a distinção é clara, eu mesma tenho um único exemplo (que vai ser copiado de uma publicação do meu Facebook):

Estava na frente do shopping onde eu trabalho esperando pelo meu namorado. Um carro passou pela minha frente com um cachorrinho lindo latindo pra um grupo de pessoas. Eu dei risada, para o cachorro é claro. Acontece que as pessoas que estavam atrás de mim era um grupo de homens. Os primeiros passaram por mim normalmente mas o último da fila continuou dando risada e passou a mão no meu braço. Quando ele virou pra trás pra falar alguma coisa eu nem deixei ele abrir a boca e falei bem alto pra ele tirar a mão de mim porque eu não tinha dado essa liberdade pra ele e nem pra ninguém. Ele realmente tirou a mão, mas soltou a seguinte frase: “Sua macaca nojenta! Você acha que alguém aqui vai olhar pra você sua pretinha?”

Neste dia foi possível não somente diferenciar de forma clara até onde o cara foi apenas machista e o momento exato em que ele passou a usar um discurso racista, como também ouvir em alto e bom som “SOU RACISTA”, sem rodeios, sem se esconder atrás de “é só uma piada, relaxa”, coisa que não é comum vermos no Brasil. Aqui o racismo não é explícito porque é mais importante combater a ideia de que racismo existe, do que combater o racismo propriamente dito (vou falar melhor sobre isso em outro texto).

O que realmente me fez escrever esse texto hoje foi a leitura rápida de alguns comentários em uma publicação que fazia referência ao Dia Internacional da Mulher Negra. Coisas do nível “e o dia da mulher branca???“. Era uma página feminista.

A primeira coisa que eu quero que fique claro para qualquer pessoa que se identifique como feminista é: se você luta pela igualdade de gênero mas não luta contra o racismo, você não é feminista!

marcha das vadias CuritibaDeixar o problema racial de lado significa deixar de lado mais da metade da população brasileira, inclusive as mulheres que fazem parte desse grupo. Significa deixar de lado a dupla opressão que mulheres negras tem de suportar todo dia. Significa, inclusive, deixar de lado a hiper-sexualização que não só a mulher negra, mas também o homem negro sofre dentro da nossa sociedade (não preciso explicar que feminismo é IGUALDADE, que feminismo também atua no sentido de anular qualquer face do machismo que oprima os homens e que hiper-sexualização é algo que ocorre de forma naturalizada com as mulheres e todxs nós conhecemos suas consequências devastadoras).

Se você decide ser feminista simplesmente ignorando que existem disparidades enormes entre as mulheres nesse país e fingindo que tais disparidades não influenciam na maneira pela qual o machismo irá atingi-las, você não é feminista. Você não me representa. Você não vê que meu choro é mais sofrido e muito mais longo que o da mulher branca.

Esse é o choro da africana que foi comprada e jogada dentro de um navio, da sobrevivente que chegou a um pais desconhecido após uma longa viagem da qual quase todos os seus compatriotas morreram, da escrava que servia à sinhazinha de dia e ao senhor de engenho à noite. Esse é o choro das brasileiras que nasceram de estupros dentro das senzalas, das mães de santo que viram sua religião sendo marginalizada, da quilombola que também quis aprender capoeira para se defender. Esse é o choro da ex-escrava passando fome, da lavadeira que lava para sobreviver, da negra que não é morena, é negra. Esse é o choro da negra morrendo porque não pode fazer um aborto, o choro da negra parindo porque foi estuprada de novo, o choro da mãe que vê seu filho preto ser só mais um nas estatísticas da “bala perdida”.

Não, o machismo que eu sofro não é o mesmo que o seu.

As mulheres negras choraram por muito tempo, mas agora começamos a gritar. Gritamos por espaço no feminismo! Gritamos por sororidade real e sincera! Ponham-se no nosso lugar, vejam o mundo com os nossos olhos. Nós sequer somos consideradas mulheres. Somos mulheres negras, e isso faz toda a diferença. 

Quero deixar registrado todo meu amor à organização da Marcha das Vadias em CWB, que fez questão de ter um ato todo voltado no combate ao racismo. VAMOS ENEGRECER O FEMINISMO!

Quando ser mãe não é a única opção

Eu, particularmente, AMO bebês. Sou apaixonada, gosto de apertar, morder, tirar fotos e quero ter três para chamar de meus.

Eu, particularmente, jamais faria um aborto. Seja em situações de pura irresponsabilidade, em falha do método anticoncepcional, em risco de vida ou em uma gravidez consequente de um estupro. Acho errado, acho que nenhuma forma de vida deveria ser afetada pelos erros de outras pessoas, acho que é assassinato e acho que eu nunca me perdoaria se fizesse uma coisa dessas. Nem pílula do dia seguinte passa pelo meu filtro moral.

Eu, particularmente, não sou dona da razão.

Essa é a minha opinião pessoal – que, vamos ser sinceros, pode muito bem mudar se eu realmente me ver diante de qualquer situação dessas. Não consigo imaginar o trauma que deve ser carregar o fruto de um estupro por 40 semanas dentro de você – uma opinião válida, que deve ser respeitada, já que a pessoa que mais seria afetada em qualquer caso de gravidez indesejada seria eu mesma. Mas não é porque eu cheguei à essa conclusão, com toda a minha ética, educação e amor por bebês gordinhos, que eu tenho o direito de cobrar que toda mulher tenha a mesma atitude que eu teria.

Eu não pensava assim. Achava que porque eu seria capaz de não fazer um aborto, toda mulher deveria ser. Achava que essas mulheres que engravidam mesmo sem querer eram promíscuas e tinham que arcar com as consequências dos seus atos. Achava que a possibilidade de vida para um feto era mais importante do que a saúde física e mental da gestante. Inclusive continuei achando tudo isso mesmo depois de me assumir feminista. Até que eu encontrei este texto¹

Eu imaginava que ser contra a descriminalização do aborto era ser a favor da vida. Eu estava errada. Entendi tudo isso, procurei outros textos, mas meu orgulho demorou alguns dias para assumir que eu estava indo pelo caminho errado e que a melhor opção para salvar vidas seria legalizar o aborto e oferecer formas seguras para que as mulheres que optaram por fazê-lo tenham condições de sobrevivência.

O que o texto citado diz, de forma resumida, é que o número de abortos não aumenta com a descriminalização, continua constante. O que significa que criminalizar o aborto não impede que as mulheres continuem fazendo e que descriminalizar não vai gerar abortos descontrolados em massa.

É óbvio que mulheres ricas não são afetadas por essas mudanças, elas fazem o procedimento em clínicas particulares, não sofrem as sequelas de um aborto mal feito. Quem morre em clínicas clandestinas por procedimentos realizados por pessoas desqualificas ou com infecções por objetos introduzidas pelo orifício existente no colo do útero são as mulheres pobres. E aí o número é grande. Não vou ousar colocar dados de mortes de brasileiras causadas por abortos clandestinos porque nas minhas pesquisas os números variaram muito, mas não é novidade para ninguém que isso é uma realidade.

Quando a mulher perde a vida em abortos clandestinos, duas vidas são perdidas, mas quando o aborto é legalizado e essas mulheres tem acesso ao procedimento médico feito por um profissional qualificado, apenas uma vida se perde. Se o número de procedimentos abortivos após a descriminalização se mantém constante, isso significa que garantir assistência médica (e não cadeia) para essas mulheres de baixa renda, diminui pela metade o número de mortes.

Precisamos oferecer mais opções.

Não estamos falando de assassinas, estamos falando de mulheres. De pessoas que, como eu e você, vivem dilemas e  precisam fazer escolhas difíceis. E daí se ela não optar por fazer o que você faria? Isso justifica que você vire as costas para essas “mulheres invisíveis” e finja que elas não estão morrendo por falta de atendimento médico? Ou que percam sua liberdade, de 1 a 3 anos, porque em um momento delicado tiveram liberdade de fazer com o corpo delas o que seria melhor para elas mesmas?

Sim, é muito tristes que lindos bebês estejam perdendo a chance de viver. Mas é mais triste ainda ver milhares de pessoas perdendo a vida – ou a liberdade – porque nós achamos que podemos mandar no corpo delas.

Eu já escolhi o meu lado, o que salva mais vidas. De que lado você está?

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Imagem: Revista Isto É

¹ o blog Feminista Cansada me ajudou muito em diversas questões, mas com certeza o aborto foi a principal mudança que ele me trouxe. Aconselho a todxs que leiam o texto citado com atenção e se tiverem curiosidade deem uma olhada nos posts. Recomendo!