Posso me defender?

Hoje eu saí cedo de casa, caminhando apressada para pegar o ônibus, com uma sacola pesada na mão, tentando achar o cartão transporte. A minha casa fica a exatamente uma quadra da estação tubo, e hoje foi só de uma quadra que eu precisei para ser assediada.

Eu já estava quase lá, chegando na esquina, quando escuto um homem falando pro amigo dele “Noooooossa, olha isso cara” e apontando na minha direção, com uma expressão ridícula no rosto, que mais parecia alguém que nunca viu uma mulher na vida. É meio óbvio dizer que me senti um objeto em exposição. Sabe quando seus amigos estão vendo um carro novo na vitrine e soltam um “Noooooossa, olha isso cara”? Então, foi idêntico.

Cantada “leve”? Para alguns pode parecer (apenas para quem não tem que aguentar isso todo dia e não é obrigado a viver essa rotina, pretendo fazer um texto explicando esse processo mais pra frente), pra mim é o suficiente para tirar minha paciência e me arrancar um palavrão. Mas hoje eu decidi ser educada. Já que a cantada foi “leve”, respondi no que pode ser considerada uma pergunta leve:

– Perdeu alguma coisa aqui?

– Perdi meu ouqwv023nuiaew?ça (juro que eu me esforcei mas não entendi o que ele disse, devia estar bêbado)

– Não cara, eu acho que você perdeu foi o respeito.

Simples. Fui até muito educada pro meu gosto, mas to tentando manter um diálogo mais calmo pra ver se os caras entendem o meu lado. Não adiantou nada. O indivíduo soltou uma enxurrada de palavrões, frases pornográficas, ficou gritando até que eu chegasse no tubo. Eu fiquei um pouco assustada. A coisa começou de maneira branda, minha resposta foi objetiva, mas o cara perdeu totalmente a cabeça.

Eu podia ter me arrependido da resposta que eu dei, podia desistir de todas as respostas que eu decidi dar para todos os folgados que estragam o meu dia, mas a conclusão a que eu cheguei foi diferente. Eu percebi que na cabeça dele, ele pode fazer e falar o que quiser, mas eu não tenho direito a dar uma resposta. Na cabeça dele, ser homem vem com essa exclusividade de falar o que bem entender pra uma mulher sozinha na rua, mas se essa mulher tentar fazer qualquer coisa para afirmar sua condição de ser humano e, como ser humano, digna de respeito, então ele perde a paciência. “Como ela se atreve a me responder?”

A partir de agora eu vou responder, sim. Vou responder desde a cantada mais inocente até a passada de mão na minha bunda. Não gosta de ouvir minha resposta? Não me dê motivos para te responder. Acha que é muita folga uma mulher dizer alguma coisa depois de ser assediada? Acostume-se. Já faz tempo que a gente não abaixa mais a cabeça, está mais do que na hora de começarmos a usar a própria voz.

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