Tragédia em Charleston – O diabo nunca foi o nosso problema

Quando nossos antepassado foram feitos escravos, uma das justificativas para que nações cristãs e que teoricamente exaltavam a liberdade do proletariado em vender sua força de trabalho pudessem usar mão de obra escrava seria que negros não tem alma e que são pessoas amaldiçoadas. Várias distorções bíblicas e sermões foram realizados para espalhar as boas novas (Deus aprova a escravidão de negros!), e versões contemporâneas da falácia podem ser observadas em discursos do Feliciano (aqui e aqui, pra quem tiver estômago).

Após espalhar a notícia de que africanos são amaldiçoados e desprovidos de uma alma para ser salva, a Igreja achou importante obrigá-los a se converter ao cristianismo. Não como uma forma de salvá-los da maldição (salvar como se a gente não tem alma né?), mas sim como uma forma de dizimar qualquer vestígio das religiões africanas que chegaram à América junto com as pessoas que agora eram escravos. Enquanto no Brasil a tentativa acabou frustrada (apesar de ser grande a intolerância e a perseguição aos praticantes, o Candomblé e a Umbanda não desapareceram e seguem firmes na luta pelo respeito e pela igualdade), nos Estados Unidos é visível que quase não restaram traços da religiosidade africana, e a maioria da população negra aderiu ao cristianismo.

O ato terrorista e racista que culminou na tragédia de Charleston com a morte de 9 pessoas negras me fez pensar em muitas coisas, mas a que mais me incomodou foi o histórico sangrento e intolerante dos Estados Unidos (e sim, do Brasil também) com relação à liberdade religiosa dos negros em situação de escravidão e de seus descendentes após a abolição.

Primeiro eles nos dizem: Vocês não tem alma! Vocês são amaldiçoados!

Depois nos dizem: Ainda há chance, vocês precisam se converter ao cristianismo e deixar para trás “o culto ao diabo”.

Não somente utilizando-se do pressuposto de que o indivíduo branco é o normal e o protegido de um deus igualmente branco, como também ligando a cultura africana ao demoníaco, enquanto o que vem do europeu é o divino.

Hoje em dia ainda é comum ouvir em cultos que as pessoas negras precisam ainda mais do deus cristão, por tudo de ruim que nosso povo já passou. É praticamente como se dissessem “Vocês precisam aderir à nossa religião e nós vamos usar a tragédia que fizemos contra vocês para provar isso”.

Quando ouvi o áudio da filha de uma das vítimas da tragédia dizendo para o terrorista branco “Eu te perdoo e tenho misericórdia da sua alma”, tudo que eu conseguia pensar é que nós só estamos no lugar em que estamos porque eles sequer acreditaram que nós tivéssemos alma. Eles não teriam capacidade de ter misericórdia pela alma dos mortos de Charleston, ou pela menina candomblecista de 11 anos que foi apedrejada na semana passada.

E que não importa quanta expiação nos convençam que precisamos para nos comparar à população branca com sua cultura divina, no final do dia não vai ser o diabo que vai entrar armado na reunião de orações para tirar nossas vidas.
O diabo nunca foi o nosso problema.

Descansem em paz:

Tywanza Sanders

Sharonda Coleman-Singleton

Clementa Pinckney

Cynthia Hurd

Myra Thompson.

Ethel Lee Lance 

Daniel Simmons 

Rev. Depayne Middleton-Doctor

Susie Jackson

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Estudar com a classe média, jogar bola com a periferia.

Algumas pessoas me chamam de extremista. Muitas não entendem de onde vem minha vontade de lutar contra injustiças. Algumas acham que não faz sentido eu estar tão revoltada. A verdade é que eu estou revoltada a muito tempo.

Fui criada na periferia de Curitiba. Apesar dos incontáveis esforços que meus pais realizaram para me manter longe de casa (e da rua) tanto quanto fosse possível, eu não fiquei imune ao que acontecia ao meu redor. Eu sabia que a vizinha da casa do lado tinha fugido do ex-marido porque ele vivia batendo nela, eu sabia que aquele piá que tinha crescido jogando bola comigo na rua já estava usando drogas, eu sabia que a filha daquela outra conhecida estava grávida e o “pai” da criança tinha sumido. Coisas cotidianas, você não precisa crescer no CIC pra saber disso. Mas eu também sabia que quando alguém estourava fogos significava que a droga tinha chegado, eu sabia que nenhum dos meus amigos ficava muito tempo na rua depois que a polícia aparecia, eu inclusive percebi que a polícia estava ali quase que o tempo todo, menos quando alguém era assassinado, menos quando roubaram a minha casa. Para conhecer isso, você tem sim que subir o morro (ou atravessar o Contorno Sul, a pé, sem passarela).

Como eu já expliquei em outro texto, faço parte da exceção negra de origem periférica: eu consegui, na segunda tentativa, sem cursinho específico, uma vaga no Colégio Militar de Curitiba. Lá estava eu, com 11 anos de idade, quebrando a regra imposta pelo racismo institucional e conquistando um espaço que não foi feito para mim. Para quem não sabe, a concorrência para entrar em Colégios Militares é devastadora, principalmente quando levada em conta a idade dos concorrentes. No meu ano de aprovação, a concorrência era maior do que quando prestei vestibular para Direito na UFPR. Não existem cotas. Juntem essas informações e criem o espaço elitista das vagas reservadas a filhos de civis (até hoje eu não entendi como funciona o acesso a vagas para filhos de militares então vou me ater a comentar sobre o que eu sei).

O recorte racial para mim não foi tão impactante: eu sou curitibana. Mas o abismo social eu senti já no começo. Eu era uma criança, eu não estava pronta. Eu lembro que meu pai foi na primeira reunião com o Comandante e voltou falando “Precisamos comprar um computador, o Comandante disse que não dá pra estudar aqui sem computador” e alguns meses depois eu tinha computador em casa. Internet discada por muitos anos, mas eu tinha como fazer pesquisas e digitar meus trabalhos.

Eu não lembro quando foi que eu contei, mas eu tenho certeza que foi na inocência e que, na época, se eu soubesse as consequências que essa informação traria, eu teria guardado para mim. O fato é que em algum momento ficaram sabendo que eu era do CIC, e até então eu não tinha consciência do que isso significava para os curitibanos, até eu ver a cara de susto que as pessoas faziam quando tomavam conhecimento. Até então eu não sabia que também ia ser tratada de forma diferente por isso (racismo eu já conhecia e já estava esperando. Sim, com 11 anos), eu não fazia ideia de que pelos próximos anos eu teria que aguentar “piadas” agravadas por esse fato, praticamente todo dia.

Como eu era criança, engoli mais do que eu era capaz a fim de me adaptar ao ambiente. Muita gente achava que eu explodia por pouco, mas a verdade é que quando eu mostrava que tinha chegado ao meu limite, eu já tinha perdido ele a muito tempo. Muitos dos meus colegas não fazem ideia de quanto eu aguentei calada para não perder amigos, para não ser a chata do grupo, para mentir pra mim mesma e me fazer acreditar que aquilo era normal, que eu tinha que aguentar.

Eu lembro de estar andando na vizinhança da casa de uma amiga, uma viatura passar, e eu tentar entender porque ninguém começou a voltar pra casa, porque ninguém ficou com medo, porque a gente ainda estava dando risada, se tinha policial se aproximando? As diferenças gritantes que eu iria começar a observar me acompanharam por todos esses anos.

Foram anos vendo supostos amigos fingindo que tinham perdido a carteira e pedindo pra revistar minha bolsa, foram anos ouvindo comentários maldosos sobre o genocídio da população negra e periférica, foram anos sabendo que toda vez que uma viatura policial passasse, alguém ia gritar pra eu me esconder.

Me recordo de uma tarde, durante a final de um campeonato de futebol que estava sendo disputada com um colégio público e periférico, estar na torcida, gritando, aproveitando o momento para torcer pelo meu colégio, quando alguém começou a gritar “VOLTA PRA FAVELA!” e quando eu me dei conta, a arquibancada inteira estava gritando proara s torcedores do outro colégio, enquanto eu estava sozinha lá na frente, balançando os braços e pedindo pra pararem. Eu fazia questão de me posicionar como negra e periférica, todos os meus amigos sabiam disso, por que eles estavam gritando uma ofensa tão absurda? Meu lugar não era aquele, e mais uma vez, o grito da classe média foi eficaz pra me recordar disso.

Mais um dia de ofensas racistas camufladas de piada na sala, eu disse “respeitem a população negra, sem ela o Brasil não seria metade do que é hoje” e um dos racistas responde “tem razão, ele seria desenvolvido”.

Um professor muito querido por todos, que tinha táticas parecidas com os de cursinho pré vestibular estava dando aula. Um dos bordões dele para nos fazer lembrar das propriedades dos logaritmos era falar “dá um tapa na nega”. Alguns colegas se levantavam e me davam um tapa.

Aula de sociologia, professor falando sobre pobrezas extremas, colegas gritando “CIC” no meio das explicações.

Uma menina me irritando por semanas, para me tirar do sério ela apelou para racismo “neguinha fedida!”. Meti a mão na cara dela e só não foi pior porque um professore interveio. Eu estava quase sendo expulsa por comportamento, mas como o caso foi de racismo praticamente passaram a mão na minha cabeça, e eu acabei não levando o preconceito da filha de um oficial para as autoridades.

Aula sobre período escravocata, colegas dizendo “Téfi, você lembra disso???”. Passei o dia todo ouvindo cantarem Xica da Silva para mim.

Um namorado me conta “Antes de te conhecer a gente costumava dizer que você usa pó de feijão no lugar de pó de arroz”.

Entrando na sala de aula, colega se esconde atrás do outro e grita “Ai socorro a Téfi vai me assaltar”.

Eu acredito que vivenciar os extremos das duas realidades foi importante de certa forma, acredito que eu talvez não estivesse no lugar de militância no qual me encontro hoje se não tivesse passado por situações onde os extremos opostos se manifestavam. Mas lembrem-se, eu tinha 11 anos quando isso começou. Eu perdi a conta de quantas vezes eu engoli meu orgulho, minha raiva e até o meu choro. Muitos dos meus amigos mais próximos da época não fazem ideia de que eu me recordo desses episódios e que eles me causam dor até hoje.

A importância de expôr casos tão pessoais e que me causam profunda dor:

1) Não existe fim do racismo com ascensão social ou conquista de espaços até então reservados à população branca.

Ninguém vai te tratar como branco se você conseguir vaga em um colégio disputado, ninguém vai te tratar como branco se você for no shopping pela primeira vez com suas amigas brancas de classe média, nem os seus amigos brancos de classe média vão te tratar como branco. Porque raça não some com status social, e as relações de poder não vão te possibilitar exigir tratamento igual se você for negrx. E, principalmente, quando você ocupa um espaço que historicamente não é seu, as pessoas vão fazer de tudo (como fizeram comigo) pra te lembrar de que aquele não é o seu lugar.

2) Ignorar o racismo não faz com que ele seja menos doloroso. Muito menos com que ele desapareça.

Aos amantes do discurso Morgan Freeman eu posso dizer com propriedade: todas as vezes em que eu fingi que não estava sendo vítima de racismo, eu sofri em dobro. Sofri por saber que estava sendo discriminada e mesmo assim me obrigar a ficar quieta, sofri por ver pessoas que eu considerava como irmãos me inferiorizando pela minha raça, sofri porque eu sabia que era inteligente o suficiente para calar a boca deles, e mesmo assim, guardei minha opinião para mim.

3) O combate ao racismo nas escolas é de extrema importância, mas não está sendo realizado.

A escola, como instituição fundamental na formação do caráter do indivíduo (inclusive os Colégios Militares, que se orgulham muito de ensinar a moral e os bons costumes) deve exercer seu papel no combate à discriminação racial e de origem social. Não apenas com a implementação da Lei 10.639, mas também com capacitação dos profissionais, para que diante de casos como os que eu citei, haja atividades no sentido de combater efetivamente a ideologia racista tão presente entre a sociedade brasileira.

4) Estabelecer cotas para alunos negros e de escola pública é só o primeiro passo para resolver o problema.

Não adianta apenas garantir vaga para esses estudantes se o ambiente no qual eles terão que estudar é tóxico e irá apresentar casos de violência psicológica com tanta frequência. Apenas a implementação de cotas não é suficiente, é necessário um trabalho pesado para garantir que esses estudantes darão conta de continuar na instituição, desconstruir a naturalização do racismo e do preconceito de classe, garantir condições materiais para que o acesso à Internet, por exemplo, não seja mais uma forma de exclusão social.

5) A periferia me ensinou mais do que o colégio.

Em partes porque quando estava em sala de aula muitas vezes eu tinha que lidar com essas situações, mas eu posso garantir que letras de Rap me ensinaram mais sobre as consequências da divisão social do trabalho do que qualquer aula sobre teoria marxista. Presenciar a violência policial me fez aprender qual a origem e a função dessa instituição sem precisar pesquisar no computador que meu pai comprou. E jogar bola com o pé descalço na rua me fez muito mais resistente do que treinos de atletismo em uma pista com instrutor. É irônico, quando eu olho pra trás, perceber que a cultura periférica e o local onde eu morava eram motivo de riso para aquelas pessoas. Qualquer morador da periferia sabe muito mais da vida do que meus colegas que hoje se encontram em Universidades Federais, ou em algum país da Europa recebendo bolsa do Ciência Sem Fronteiras.

6) Discriminação nunca é inofensiva.

Talvez levem alguns anos para as vítimas se manifestarem, como eu fiz, algumas nunca terão a coragem de abrir a boca e afrontar seus agressores, sejam eles conscientes da violência que lhe estão impondo ou não.  Sempre restam sequelas, e as sequelas não estão nos olhos de quem vê.

7) Se considerar amigo de uma pessoa negra não te torna imune de ser racista. 

Dispensa explicações.

Mulher E negra. Negra E mulher.

Quando eu conheci o feminismo não sabia que ia precisar reivindicar espaço dentro de um movimento que se propõe a lutar por emancipação. O mesmo ocorreu dentro do Movimento Negro. Mas não precisei de muito tempo para perceber que dentro do movimento feminista, eu sou negra, e dentro do movimento negro, eu sou mulher. 

O que nós mulheres negras tentamos explicar dia após dia dentro dos movimentos sociais é que enquanto não houver conscientização sobre privilégios individuais, não irá existir sororidade, nem Poder Para o Povo Preto. Opressões não são unilaterais, elas se somam. Enquanto integrante do movimento feminista eu não posso nunca esquecer que sou negra. E enquanto integrante do movimento negro eu não posso nunca esquecer que sou mulher. Eu não posso me dar a esse luxo, porque todo dia, quando eu saio de casa, minha pele e meu gênero estão sendo jogados na minha cara para me inviabilizar.

Sabe quem pode esquecer a cor da própria pele? Pessoas brancas. Na verdade, pessoas brancas raramente são obrigada a sequer pensar que elas são brancas. Por isso é muito fácil para uma mulher branca me dizer que eu não preciso fazer recorte racial em debates feministas. Mas esse luxo é dela, não meu.

Sabem quem pode esquecer o próprio gênero? Homens. Homens não são lembrados constantemente que são homens, eles não são assediados unicamente por serem homens, não são menosprezados em debates por serem homens e não são vulneráveis a estupro por serem homens. Esquecer meu gênero eu não posso, porque ele é usado para determinar onde eu posso andar, quando eu posso falar e quanto (des)crédito eu vou ganhar por estar dando minha opinião sobre determinado assunto.

Nós, mulheres negras, não podemos nunca nos esquecer de que somos mulheres, nem de que somos negras. A sociedade nunca nos permitiu esse luxo. Porque então, dentro de movimentos sociais, muitas vezes somos cobradas a deixar uma das opressões de lado?

Onde quer que eu esteja, estarei reivindicando meu espaço como mulher. E onde quer que eu esteja estarei reivindicando meu espaço como negra. 

Eu não faço parte somente de um desses grupos, mas estou nas piores estatísticas de ambos! Pedir para que uma mulher negra deixe de lado um dos grupos do qual ela faz parte é o mesmo que dizer: eu não me importo que as duas opressões se somem no seu cotidiano, aqui você só pode falar sobre uma.

Hoje, dia 25 de julho de 2014, Dia Internacional da Mulher Negra Latina e Caribenha, eu venho através desse texto, não pedir permissão, mas avisar: Somos mulheres negras e não vão nos silenciar por sexismo e nem por racismo!

Não me importo se você é mulher e sofre opressão por isso, se você usar seu privilégio racial para me silenciar eu vou me defender. Não me importo se você é negro e sofre opressão por isso, se você usar seu privilégio de ser homem para me silenciar eu vou me defender igualmente.

Que esse texto seja usado para todas as opressões que se interseccionam e que nunca tentem te inviabilizar de modo algum! Que nós possamos juntas derrubar todas as amarras que nos seguram e romper todas as barreiras que nos foram impostas.

Mulher negra, somos irmãs, e é como irmãs que venceremos!

SALVE MULHER NEGRA! SALVE MULHER GUERREIRA!

Luciana e Andressa Tavares

Nega maluca: black face é racismo!

O país do Carnaval é o país da brincadeira. E durante o Carnaval a brincadeira mais aclamada é a “Nega Maluca”. Um homem branco, se veste de mulher negra, pra que as pessoas possam dar risada dele. Sim, porque ser mulher e negra deve ser muito engraçado.

Mas no país do Carnaval, onde eu estou acostumada a ver a versão brasileira do black face “apenas” durante o Carnaval e talvez durante algumas festas a fantasia, eis que me deparo com a versão extravagante da chacota no meio da Marcha das Vadias, em Curitiba. O responsável me disse se tratar de uma homenagem, uma representação. E é aqui que eu, enquanto mulher negra quero ensinar uma coisa a todos os homens brancos que acreditam serem capazes de me representar.

Você sabe o que é ser mulher? Você sabe o que é ser mulher negra?

A origem do black face é facilmente encontrada em qualquer site de busca, o retrato caricato do indivíduo negro, com reforço de esteriótipos criados e perpetuados pelo homem branco. A tentativa de padronização dos nossos corpos, do nosso cabelo, da nossa pele. Além da forma pouco sutil e muito eficaz de manter atores negros longe dos palcos. As peças eram geralmente de chacota. O foco da risada: o personagem “negro”. O público alvo: sulistas estadunidenses em sua maioria, ex escravistas

Vou ressaltar que o objetivo original do black face era não somente a ridicularização do ser negro através de uma caricatura exagerada, mas também impossibilitar que indivíduos negros fossem capazes de representar a si mesmos.

Quando trazemos esse contexto para o cenário brasileiro e fazemos uma analogia à personagem carnavalesca Nega Maluca temos um agravante na história: a caricatura de uma mulher negra, hiperssexualizada, encarada como moeda de troca para o turismo sexual. O black face dos Estados Unidos reforça o esteriótipo do negro ridicularizado, a Nega Maluca do Brasil reforça o esteriótipo da “mulata exportação”.

Dentro dessa análise, como é possível que um homem branco, vestido de mulher e com tinta preta no rosto (exceto em volta dos olhos e da boca, qualquer semelhança é mero reforço de esteriótipo) seja capaz de estar fazendo uma homenagem a nós, mulheres negras, no meio de uma manifestação que pede o fim da violência contra a mulher e a liberdade sobre os nossos corpos?

Black face não é homenagem em contexto algum! Black face é racismo! E se vestir de mulher enquanto pratica o black face é dar voz ao patriarcado racista que ridiculariza nossos traços étnicos, que nos paga menos pelos mesmos serviços, que nos negligencia em atendimentos médicos, que vende nossos corpos como atrativo turístico e depois nos impede de realizar abortos.

Eu não quero homenagem racista e muito menos quero que um homem branco diga que está me representando. Nós somos capazes de nos representar. A mulher negra é força, a mulher negra é garra, a mulher negra é resistência. E nenhum homem branco com o rosto pintado será capaz de representar o que minha ancestralidade carrega dentro da minha pele. Nenhum homem branco nunca vai entender o que é o peso do machismo e do racismo tentando me levar pra baixo dia após dia. Nenhum homem branco vai me dizer que está me representando enquanto se utiliza de uma ferramenta racista histórica.

Ser mulher não é vestir saia uma vez por ano. Ser mulher negra não é pintar a cara com tinta preta.

Eu sou a mão que lava as feridas que não são mais causadas por açoite, mas por coronhada.

Eu sou a música que alegra o teu samba, esquenta tua cama, mas é trocada pela loira na hora de ser apresentada pra família.

Eu sou o grito da mãe que perdeu o filho pra guerra no morro.

Eu sou o choro da esposa que clama pelo retorno seguro do marido até em casa.

Eu sou a voz que reza por justiça para todos os meus que, apenas por serem negros, são tratados como inferiores.

Eu sou a mão que vai pesar na tua consciência toda vez que você pensar em ridicularizar minha raça.

Racistas não passaram, racistas nunca passarão!

E sai da frente com sua tinta guache preta, que EU to passando com a minha cor!

Quando foi que ser chamado de racista passou a ser mais grave do que sofrer racismo?

Hoje pela manhã quando liguei o notebook li essa matéria sobre racismo evangélico. Nada novo, não é muito comum esse nível de manifestação racista em cultos, geralmente é algo que passa mais despercebido, mas eu não fiquei surpresa. Dando uma olhada rápida nos comentários da matéria publicada na Página do Geledés li algumas manifestações de desagrado com a generalização, que não é todo evangélico que é racista, não pode falar assim. 

Dito isso, vamos ao cenário de algumas semanas atrás, quando rolou uma briga no meu Facebook envolvendo racismo evangélico (inclusive já comentei sobre isso aqui). Depois de quase 200 comentários de muita briga e absurdos passíveis de prisão sem direito a fiança eu percebi que os únicos evangélicos que apareceram na briga o fizeram a fim de defender os outros evangélicos (que estava destilando racismo em uma rede social, usando a Bíblia como escudo e a unção de deus como justificativa para serem imunes a críticas e até mesmo à Constituição Federal). Fiz um post exigindo posicionamento dos cristãos com quem tenho contato, que não são poucos já que passei apenas 18 anos da minha vida frequentando igrejas. Com exceções que ficaram bem definidas (e tenho certeza que essas pessoas sabem que estou falando delas porque deixei claro que entendi e apoiei suas palavras), a maioria dos comentários alimentavam uma série de esteriótipos e alguns até tentavam se defender ao atacar outras minorias. Alguns postaram comentários públicos, outros me mandaram mensagens inbox. Do total, acredito que as pessoas que responderam ao meu questionamento não correspondiam sequer a 10% dos cristãos que eu conheço. E não, não conseguiram me convencer que o mundo cristão está menos racista do que no período em que eu fazia parte dele.

Existe uma situação que é rotineira dentro de igrejas. O pastor, pastora, missionário, dirigente do louvor, o responsável por pedir o dízimo e as ofertas ou seja lá quem for que esteja com o microfone na mão fala uma besteira, faz um comentário discriminatório, todos ficam quietos. Eu sei que é difícil fazer um questionamento durante o culto, a passividade ensinada pelo cristianismo chega a impossibilitar interrupções enquanto a “autoridade de deus” está falando, mas existem várias maneiras e vários momentos em que uma contestação é possível. Acho que me recordo de uma única situação em que uma pessoa se posicionou contra uma liderança, foi convidada a se retirar da igreja. 

Mas e quando a manifestação discriminatória (supostamente baseada no livro sagrado do cristianismo) é feita em uma roda de conversas? E quando é feita com alguém da sua família? Quando está escancarada em redes sociais? O que impossibilita que um cristão se manifeste? 

Eu já cansei de ler reclamações sobre a generalização que existe hoje em dia com relação ao cristianismo, principalmente a evangélicos. Já presenciei muitos evangélicos se defendendo, se sentindo ofendidos, como quando alguém diz “racismo evangélico”. Mas o que eu não vejo com nenhuma frequência (e posso contar nos dedos as situações em que vi algo do tipo acontecer) são exatamente esses evangélicos que se dizem não racistas posicionando-se e repudiando atos de racismo baseados no “ensinamento cristão”. Quando existe uma conversa pública com expressões totalmente perceptíveis de racismo apoiado em uma leitura distorcida da Bíblia aparecendo na sua página inicial do Facebook, silêncio. Quando a pessoa que foi atacada por tais expressões generaliza pela maioria dos evangélicos que conhece dizendo “evangélicos são racistas”, aí tem barulho, aí tem ofensa. Quando está acontecendo um culto em que a pregadora se utiliza da ridicularização de fenótipos negros, a consequência é não apenas silêncio de alguns, mas o riso de muitos. Quando uma pessoa que estava nesse mesmo culto se manifesta ao transcrever em um texto toda a “depressão gerada por um mundo evangélico adoecido”, reclamação, ataques, que absurdo!

Isso não é exclusividade do meio cristão e me lembra de outro caso, o da Stephanie Ribeiro, que publicou um texto expondo as situações racistas que vem ocorrendo com ela na PUC de Campinas. A resposta para o trauma, a dor e o racismo institucional? Alunos da instituição reclamando de racismo reverso, generalização e vitimização. Vale lembrar que os casos citados pela Stephanie aconteceram de forma pública, vários alunos sabiam das situações as quais ela foi submetida, muitos deles quando eram expostos aos casos ridicularizavam-na ainda mais. Outros ficaram quietos. A faculdade disse que não podia fazer nada. E quando ela exige respeito ele bradam “NÃO GENERALIZE, NÃO SOMOS TODOS RACISTAS”. Onde estavam os não racistas quando ela encontrou seu armário pixado? Onde estavam os não racistas quando ela era atacada em redes sociais? Onde estavam os não racistas quando uma das alunas disse em alto e bom som que negro fede mais que branco? 

É importante frisar que a generalização existe quando a maior parte daquele grupo apresenta determinado comportamento. E ela é necessária para definir como esse grupo se apresenta e como ele está atuando. Exceções existem e sempre irão existir. Mas nenhuma vítima de racismo deve deixar de denunciar as violências – físicas ou psicológicas – as quais foi submetido só porque uma ou outra pessoa daquela instituição não agiu assim. Vale ressaltar que o silêncio não é uma boa forma de dizer que você é contra uma atitude, principalmente em situações nas quais a ação discriminatória de um indivíduo está relacionada com o ambiente que você frequenta e, consequentemente, irá atingir a você mesmo e a todos os membros dessa instituição (no caso do cristianismo isso é ainda mais grave porque muitos racistas fazem uso da própria religião e da Bíblia para justificar seus preconceitos). 

Se a maioria dos evangélicos não fosse racista, não haveria conivência em discriminar indivíduos negros dentro de um culto. Se a maioria dos evangélicos não fosse racista, não teria sido necessário que eu exigisse um posicionamento dos meus colegas com relação a declarações racistas que vários deles já estavam cientes, a manifestação e a defesa seria algo natural (e até cristão).

Se a maioria dos estudantes de Arquitetura e Urbanismo não fosse racista, eles estariam mais preocupados em cobrar punição aos autores do crime do que em se defender, ficariam mais chocados com o fato de uma estudante ser discriminada por motivações raciais do que em serem identificados como uma instituição que é sim racista. 

Aos indivíduos não racistas que pertencem às instituições que comumente são identificadas como racistas, acredito que a generalização não se apresenta como uma ofensa, mas sim uma possibilidade de expôr uma realidade que precisa ser modificada. Inclusive essas são as pessoas que são favoráveis a exposição desse tipo de situação, com a esperança de que algum dia apareça uma mudança.

Aos indivíduos que se dizem não racistas (lembram que 90% dos brasileiros afirmam existir racismo no Brasil, mas somente 10% se assumem como tal?): onde estão esses indivíduos quando a manifestação discriminatória está acontecendo? Se a instituição da qual você faz parte realmente não for racista, não é tão difícil assim calar a voz de quem não representa a maioria, certo? Até lá, vamos continuar generalizando pelas manifestações mais comuns. Se no meio do caminho você se assustar e perceber que sim, as acusações e as generalizações estão corretas, a caixa de mensagens está aberta para um pedido de desculpas.

E lembre-se: ser acusado de racismo não é mais grave do que ser vítima dele. 

Quando eu sou a amiga negra que te torna imune a ser acusado de racismo

A frase de defesa mais usada pelos racistas de plantão? “Eu não sou racista! Tenho um amigo negro”.

Vamos começar dizendo que ter um amigo negro no Brasil não faz com que você esteja automaticamente protegido de cometer atitudes racistas. Tolerar um negro aqui é fácil, é regra. E para os desinformados, aqui os casos mais recorrentes de racismo são estes entre rodas de “amigos”, no almoço de domingo da família, na “piada” com aquele negro que você conhece desde a infância. O racismo brasileiro não é escancarado para todos verem, o racismo brasileiro é diferente, sutil. A maioria esmagadora dos casos de racismo que negros brasileiros sofrem ocorrem dentro do círculo de amigos e familiares. Então, ter um amigo negro só me faz pensar que você tem uma possibilidade muito grande de ter sido algoz de uma das situações discriminatórias que esse indivíduo sofreu.

“No meu país o preconceito é eficaz, te cumprimentam na frente e te dão um tiro por trás”.

Mas minha conversa hoje é com os racistas que ME usam para justificar suas atitudes.

Ontem tive uma discussão com uma cantora gospel que fez não uma, mas duas (no mínimo) postagens extremamente discriminatórias. Quando fui cobrar que ela ouvisse o que os indivíduos negros que se ofenderam com seu posicionamento tinham a dizer sobre o ocorrido, ela começou a entupir minha tela do notebook com imagens de todas as pessoas negras que ela conhece. Típico. Eu disse que ela não podia usar a imagem das pessoas desse jeito, que isso é ofensivo. Não adiantou, ela continuou mandando as fotos. Eu disse que não ligava para as pessoas negras que aturam ela. Piorou. Ela perguntou se eu tinha ideia de quantas missionárias negras ela sustenta na África. Desisti.

E aí eu fiquei realmente pensando na imagem de todas aquelas pessoas. Aqueles “amigos” que de alguma forma tem contato com esse indivíduo incapaz de ouvir o que uma mulher negra tem a lhe ensinar sobre racismo. Eu fiquei pensando que eles não devem nem imaginar que essa mulher estava usando a imagem deles para justificar uma atitude discriminatória. Imaginei se fosse comigo, e cheguei à conclusão de que as chances de que alguém que me conhece tenha um dia feito a mesma coisa que essa mulher fez com os conhecidos dela são muito grandes.

Então, aqui vai minha mensagem para você, conhecido, amigo de infância, colega dos tempos de colégio, primo distante, vizinho que não me dá bom dia: Minha imagem, minha existência e meu inevitável contato com você não estão disponíveis como argumentos de defesa contra acusações de racismo. Eu não sou sua prova concreta de que você não é racista. Eu não permito que você utilize minha imagem para falar o que bem entender e depois sair ileso pelo simples fato de ser capaz de me tolerar. E se você tiver uma atitude racista e eu souber que você me usou para minimizar o seu crime, eu vou pessoalmente até a pessoa que te acusou e dizer que não te conheço e nunca vi mais hipócrita.

E aos que estão chocados porque realmente já me usaram como elemento salvador que fornece imunidade a acusações de racismo: esqueçam meu nome, esqueçam que eu existo e tomem vergonha no meio da cara.

Não sou sua proteção e não defendo racista. Rala!

 

Feminismo contra o racismo – Dia Internacional da Mulher Negra

Foi cedo que eu aprendi que meu cabelo não era o mesmo que o da mulher poderosa que aparecia na novela. Foi mais cedo ainda que eu percebi que as poucas mulheres parecidas comigo que surgiam na minha TV estavam sempre com pouca roupa, rebolando, sempre com um sorriso no rosto. Foi cedo de mais que eu vi no rosto da empregada doméstica brasileira o meu reflexo. Ainda era cedo quando eu escutei a primeira observação em voz alta sobre a minha “bunda de negra”. Também era cedo quando eu ouvi um “preta gostosa” do pai de família (branca) que passou por mim naquele dia. Era cedo, na minha vida amorosa, quando um namoradinho qualquer deixou claro que eu ficava feia com o cabelo crespo. O mesmo namoradinho que ria da minha boca grande. O mesmo que achava engraçado eu ser negra, mas ser tão magra desse jeito (mas ela tem bunda, né cara?).

Do que exatamente eu estou falando? Você ficou confusx e não conseguiu definir se esse texto é sobre machismo ou sobre racismo? Eu também. Eu estou confusa desde muito cedo.

Ser mulher no Brasil significa que o machismo está presente todo dia, jogado na sua cara, claro como os olhos lindos daquela modelo famosa que representa o Brasil nas passarelas internacionais do mundo da moda, ser mulher negra no Brasil significa passar a vida inteira tentando descobrir se você está sendo inferiorizada por ser mulher, ou por negra. Já era tarde quando eu percebi que o motivo era uma união dos dois.

Na minha rotina é muito complicado perceber até onde vai o machismo e onde começa o racismo (e vice-versa), porque a forma como ambas as discriminações são direcionadas a mim é entrelaçada. Não é comum casos onde a distinção é clara, eu mesma tenho um único exemplo (que vai ser copiado de uma publicação do meu Facebook):

Estava na frente do shopping onde eu trabalho esperando pelo meu namorado. Um carro passou pela minha frente com um cachorrinho lindo latindo pra um grupo de pessoas. Eu dei risada, para o cachorro é claro. Acontece que as pessoas que estavam atrás de mim era um grupo de homens. Os primeiros passaram por mim normalmente mas o último da fila continuou dando risada e passou a mão no meu braço. Quando ele virou pra trás pra falar alguma coisa eu nem deixei ele abrir a boca e falei bem alto pra ele tirar a mão de mim porque eu não tinha dado essa liberdade pra ele e nem pra ninguém. Ele realmente tirou a mão, mas soltou a seguinte frase: “Sua macaca nojenta! Você acha que alguém aqui vai olhar pra você sua pretinha?”

Neste dia foi possível não somente diferenciar de forma clara até onde o cara foi apenas machista e o momento exato em que ele passou a usar um discurso racista, como também ouvir em alto e bom som “SOU RACISTA”, sem rodeios, sem se esconder atrás de “é só uma piada, relaxa”, coisa que não é comum vermos no Brasil. Aqui o racismo não é explícito porque é mais importante combater a ideia de que racismo existe, do que combater o racismo propriamente dito (vou falar melhor sobre isso em outro texto).

O que realmente me fez escrever esse texto hoje foi a leitura rápida de alguns comentários em uma publicação que fazia referência ao Dia Internacional da Mulher Negra. Coisas do nível “e o dia da mulher branca???“. Era uma página feminista.

A primeira coisa que eu quero que fique claro para qualquer pessoa que se identifique como feminista é: se você luta pela igualdade de gênero mas não luta contra o racismo, você não é feminista!

marcha das vadias CuritibaDeixar o problema racial de lado significa deixar de lado mais da metade da população brasileira, inclusive as mulheres que fazem parte desse grupo. Significa deixar de lado a dupla opressão que mulheres negras tem de suportar todo dia. Significa, inclusive, deixar de lado a hiper-sexualização que não só a mulher negra, mas também o homem negro sofre dentro da nossa sociedade (não preciso explicar que feminismo é IGUALDADE, que feminismo também atua no sentido de anular qualquer face do machismo que oprima os homens e que hiper-sexualização é algo que ocorre de forma naturalizada com as mulheres e todxs nós conhecemos suas consequências devastadoras).

Se você decide ser feminista simplesmente ignorando que existem disparidades enormes entre as mulheres nesse país e fingindo que tais disparidades não influenciam na maneira pela qual o machismo irá atingi-las, você não é feminista. Você não me representa. Você não vê que meu choro é mais sofrido e muito mais longo que o da mulher branca.

Esse é o choro da africana que foi comprada e jogada dentro de um navio, da sobrevivente que chegou a um pais desconhecido após uma longa viagem da qual quase todos os seus compatriotas morreram, da escrava que servia à sinhazinha de dia e ao senhor de engenho à noite. Esse é o choro das brasileiras que nasceram de estupros dentro das senzalas, das mães de santo que viram sua religião sendo marginalizada, da quilombola que também quis aprender capoeira para se defender. Esse é o choro da ex-escrava passando fome, da lavadeira que lava para sobreviver, da negra que não é morena, é negra. Esse é o choro da negra morrendo porque não pode fazer um aborto, o choro da negra parindo porque foi estuprada de novo, o choro da mãe que vê seu filho preto ser só mais um nas estatísticas da “bala perdida”.

Não, o machismo que eu sofro não é o mesmo que o seu.

As mulheres negras choraram por muito tempo, mas agora começamos a gritar. Gritamos por espaço no feminismo! Gritamos por sororidade real e sincera! Ponham-se no nosso lugar, vejam o mundo com os nossos olhos. Nós sequer somos consideradas mulheres. Somos mulheres negras, e isso faz toda a diferença. 

Quero deixar registrado todo meu amor à organização da Marcha das Vadias em CWB, que fez questão de ter um ato todo voltado no combate ao racismo. VAMOS ENEGRECER O FEMINISMO!